quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Vilões, mocinhos, mídia, nós e a realidade

Olho a realidade do mundo. Sou brasileiro! Vivo atualmente o ano de 2015. Vejo novamente uma crise... Vejo novamente os dizeres de "pior crise da história" etc. Novamente estamos no pior momento? Não sei bem acerca da veracidade desses dizeres, mas desconfio que, na verdade, o fato é que queremos sempre nos sentir parte de algo grandioso e poder contar isso aos descendentes que virão adiante, a partir de nossa geração... Mas não! Vejo que enfrentamos crises - seja no país que vivo: Brasil, seja no mundo que vivo: Terra - que retratam e encerram-se nos mesmos problemas de sempre: excesso de ódio e apreço exagerado ao dinheiro, ao poder. Poderíamos resumir assim!

Vendo tantos discursos que seguem a impulsionar ódios, inflamar indignações, conclamar inquietação (mesmo que pintados em tons de pseudo-altruísmo resolutivo) - todos sem um norteamento claro ou propostas lúcidas, vejo tatuado na cara dessa realidade a frase de Saramago, no livro "Jangada de Pedra", onde diz-se: "mesmo que o meu destino me conduza a uma estrela, nem por isso estou dispensado de percorrer os caminhos do mundo". Livro esse publicado no ano em que eu nasci, 1986... Muitos têm tomado frente na mídia querendo solucionar problemas e criar pessoas e situações condenáveis. Decerto, sempre precisamos da criação de mártires, bem como de inimigos, vilões.

É isso uma condição inerente ao nosso imaginário social: heróis e vilões, sempre, encerrando em si discursos de salvação e admiração contra destruição e ódio, respectivamente! Claro, a maior parte passa a querer tomar parte nessa dicotomia vigente. Então, todos passam a apoiar o "mocinho" sem pensar, convencidos dessa necessidade de tomar um posicionamento. Afinal, quem irá apoiar aquele que tornou-se a imagem do vilão? Atribuem caos a esse ou aquele personagem, quer seja do cenário político, quer seja econômico, mas todos trajados de inimigos bem estabelecidos ou heróis bem fáceis de notar em nosso imaginário, cenário fantasioso - e tantas vezes falacioso. Desconfio que não seja simples assim achar vilões e heróis. Creio que é inevitável, entretanto, desconsiderar essa dicotomia em nossa realidade. Mas, afinal: que tenho eu a contribuir ou a trazer de novo à essa visão tão bem estabelecida e arraigada no mundo? Não tenho nada, mas insisto em trazer minha opinião - chato isso, não?

Trazendo esses mesmos discursos que conclamam ao ódio a uns (vilões) e amor a outros ("mocinhos"), a mídia (desde seu surgimento!) faz o povo acreditar que há mesmo uma alternativa  pautada nessas divisões; que há de se solucionar nosso caos escolhendo tomar parte do grupo dos "mocinhos". Decerto, por vezes há mesmo esse cenário bem estabelecido! Pessoas imensamente ruins, cruéis, já tomaram decisões que envolviam nações inteiras. Foram de fato vilões às suas nações e ao mundo! Porém: não foi o incentivo da mídia que nos fez ver tais pessoas assim, como vilões. Fato é que, por si mesmas, pessoas assim convenciam as pessoas a tomar a posição contrária para derrotá-las. A despeito disso, em certas ocasiões, inclusive, a mídia tentou convencer nações inteiras de que verdadeiros vilões na verdade eram mocinhos... E isso causou muitas mortes e enganos irreparáveis! 

Em cenários do passado e do presente, a mídia tomou para si um protagonismo atroz ao desenvolvimento. Regimes fascistas, por exemplo, tinham como parte de si o apreço e fomento à propaganda. Pintavam na parede uma paisagem e convenciam o povo de que aquilo era uma janela de onde via-se cenário real promissor. Mas não! Erramos no passado convencidos pela mídia. Sim, ela tem esse poder de convencer. E convencem, mas tudo é parte apenas de um cenário bem tramado de fomento ao imaginário do povo para criar soluções a partir de heróis, bem como da condenação de vilões. 

Em meio a desenhos na parede ou a sombras na caverna - vide Platão, resta-nos o mundo real! Resta-nos entender que precisamos ver as coisas sem apreço a lógicas impostas! Se insistem muito numa coisa, desconfiemos dela! É preciso ver o mundo, a bem dizer, tal qual ele é - mas isso, de fato, é bastante complicado. Quem dita as ordens - e tem poder para isso: criando verdades ou promovendo intenções falsas - faz as pessoas acreditarem mesmo que alguns estão destinados às estrelas, a uma trajetória heroica, salvadora. Aos outros, resta apenas o destino do lamaçal do ódio que se lhes impõem.. Pensando bem sobre a frase trazida acima, de Saramago, nos contextos em que vemos estar sendo criados diante de nossos olhos enquanto brasileiros vivendo o ano de 2015: podemos perceber que, de fato, o mundo é um ensaio sobre a cegueira. Quem quiser entender, que entenda! Se não ficou claro o que quis dizer: perdão, mas fiz meu máximo para tal e, de fato, o tema é nebuloso demais.

No mais, sinceramente, entendo que ninguém quer resolver as coisas do país ou as coisas do mundo! Simplesmente os heróis de hoje querem o poder e amanhã serão os vilões contemporâneos. É fato? Para mim incontestável! Não enxergo altruísmo em parte alguma de nossos poderes. E, a bem dizer: não há indignação que mova pessoas contra esses poderes - que nos mantém nessa caverna de Platão. Somos cegos, ou melhor: temos uma visão seletiva! Vemos apenas dinheiro, poder, ostentação assim como aqueles que por ora fazem-se vilões, ou por ora fazem-se heróis. Todos somos "farinha do mesmo saco" e cremos estar destinada a nós (e aos nossos!) alguma estrela, esquecendo de que mesmo assim precisamos trilhar nossos caminhos em meio à humanidade de iguais a nós. Humanidade essa da qual tentamos nos sentir diferentes, mas em nós também jaz infiltrada a vontade de ser mais - mais poderosos, mais ricos, mais bonitos etc. Faltam-nos os autênticos desejos de: querer ser mais humanos, mais cristãos, mais realistas - menos hipócritas, a bem dizer. Ninguém nos dispensou de seguir os caminhos do mundo. Então, resta aceitar nossas condições de falsos altruístas e mudarmos a realidade. Apenas assim mudaremos nossos líderes e nosso futuro, por conseguinte.

Ninguém quer sujar as mãos com a poeira que jaz sobre a verdadeira idoneidade e altruísmo empoeirados - de tão esquecidos, abandonados no tempo. A verdade é que faltam-nos heróis. Temos em nossos cenários um emaranhado de personagens que são uma mescla de vilões e mocinhos. Mas insistimos em querer ver apenas como: ou mocinhos, ou vilões. Ninguém quer aceitar a condição real de que somos uma sociedade com pés sujos da lama da hipocrisia,perfazendo a realidade nacional, mundial - realidade humana, a bem dizer. Espero que nossos descendentes tenham uma luz a seguir e se tornem melhor que nós. Mas, a depender do exemplo que damos: ficaremos no mais do mesmo.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier