Ninguém quer ser digno de pena. Ninguém! Mas às vezes, vejo isso ser possível. Claro! Somos humanos e sujeitos às intempéries da vida, quer sejam vindas do mundo externo ou do nosso mundo interno. Tenho pena, em linhas gerais, de nós: humanos! Em tantas medidas, somos algozes de nós mesmos, afinal: construímos nossos mundos interno e externo.
Em meu mundo, conheci certa vez uma pessoa. Era uma pessoa feliz e que irradiava energias pelo bem. Claro, era jovem - diziam na época! "Qual jovem não é assim" - em primeiro momento, pelo menos? Foi sendo formado um cidadão em meio aos sonhos de galgar conquistas coletivas. Não pensava muito em si, em seu destaque pessoal, ou atrair olhares dos outros. Ajudar? Sim! Era um sonho, uma meta maior para ele. Mas quem disse que a vida ajuda quem quer ajudar? Há algo por trás dos interesses - dos anjos, quiçá (ou quem quer que seja) - por apoiarem ou não os que sonham mudar algo. Há de se merecer muito mais que simplesmente sonhar, talvez fosse isso. Mas ele não entendia nada sobre tais merecimentos embora os buscasse - em vão, em vão....
A cada dia, a vida foi convencendo aquela pessoa de que era cansativo e seria difícil pensar em mudar as coisas, mudar rumo ao bem. Árdua tarefa! Ele já suspeitava, pois não era tolo, mas não entendia que seria tão complicado e tantas lhes seriam as intempéries. Quase desanimou em inúmeros momentos. Ele era calado, pacato e um tanto solitário, a bem dizer. Pensava receber um "empurrão" cedo ou tarde em insistindo naquilo - como se diz no linguajar popular. "Empurrão" esse de Deus, de anjos, de alguém qual fosse... Mas ele lutava. Sabia que teria de habituar-se a conviver com a imensa maioria ao entorno desacreditando seus sonhos, desdenhando seus ideais, ironizando sua gana pelo bem. Não via em lugar algum gana por fazer aquilo de bem que está além do habitual conforto burguês que via ter-se por realidade nas suas paisagens diárias. Ele as vislumbrava com tons de reflexão aos moldes a cada dia mais pessimistas, ou realistas, ou algo assim. Como poderia ele definir seus olhos com o tempo passado? "Nietzscherianos"? Ele tentava ver-se como Fernando Pessoa e trazer para si algo dele. Mas nem era mais tão adepto ou digno de poesias...
Ele foi confiando a si a responsabilidade de conviver bem com isso por um longo tempo. Fez-se e refez-se em meio às intempéries as quais foi ultrapassando, mas enquanto elas passavam por ele e ele por elas, algo de si foi sendo perdido. Energia? Algo de essência primeira da alma? Algo de esperança pueril? Não sabia entender. Mas foi perdendo-se, perdendo-se... Viu-se como o vaso furado, com vazamento, que, gota a gota, tornou-se seco.
Aquela pessoa ainda sonhava. Era insistente! Ainda bradava (mesmo que com voz rouca e agora tímida) sobre sonhos, ideais, mas habituou-se a ver que não havia conseguido mudar nada e a entender também que nada mudaria. Desacreditado, viu-se apenas mais um em meio às rotinas do dia a dia, do cotidiano monótono da vida alienada que habituamo-nos ter por realidade. Ninguém quer tomar para si as rédeas da mudança. Sozinho então? Coitado... Triste, ele lembrava dos tempos em que acreditou ser possível fazer assim, mesmo que só. Hoje, ou acompanhado, ou só, ou a dois, ou aos montes: ele não acreditava mais. Via barulho demasiado em sua volta de pessoas que diziam querer mudar o mundo, mudar as coisas - insatisfeitas que estavam com o mundo - mas eis que, era notório: nada faziam. Apenas barulho. Muito barulho.
Olhando o jardim da praça em que habituou refugiar-se, sentado e a refletir, pensou: feliz é o caramujo que esconde-se e se compraz dentro da lentidão de sua caminhada na casca endurecida que, desde cedo, habituou-se e aceitou ter. Ali dentro - dentro de si mesmo, alheio ao entorno que o observa com desdém, ele não liga estar lento diante da velocidade de ações que o mundo exige... Caramujos não preocupam-se, entendeu! Muitas pessoas aprenderam essa lição com os caramujos. Seguem seu caminho mesmo que não as leve a nada, não mudem nada. Continuou refletindo e percebeu: triste é o peito que abre-se com esperanças de um dia ver o mundo melhor do que vê-se... Mas eis que o mundo mostra-se fazedor de pesadelos, desfazendo sonhos e secando coragens - mesmo daqueles que com tanta força sonharam, dormindo ou acordado, jovens ou nem tão jovens assim...
A chuva começou a cair com ele ali, sentado na praça. Levantou-se. Percebeu que as gotas caídas deixavam-lhe com os pés enlameados, deixando por sua vez, passo a passo, um rastro preguiçoso em meio àquela lama toda que, naquele caminhar reflexivo, já ia tomando parte do passado que ia ficando para trás, para trás em mais uma jornada de reflexões vãs que ele teve. Ele via-se um caramujo qualquer agora. Entregou-se! Deixava um rastro na lama... Suas memórias livres, já por ora acobertadas pela falta de esperanças, não mais tomavam frente a nada nem impunham-lhe recomeços. Ele apenas caminhava como outro qualquer! Um mero caramujo lento, pegajoso quiçá, envolto numa casca dura que o alienava.
Sob chuva, sob sol, o caminho era aquele. Para onde? Em que importava? O importante é mostra-se seguindo, caminhando. Rastejar é uma forma habitual de caminhar - afinal, ele também era agora um caramujo como quase todos os que via no entorno. Concluiu enquanto tentava chegar em casa sob a chuva: "É o que todos querem ver: passos sendo dados!". Mais nos medem pelos passos que damos que pelos sonhos e esperanças que temos - ou trouxemos. O mundo há de nos secar um dia, deveria ele ter percebido antes, mas não se arrependia. Nunca contem isso às crianças. Nunca!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto escrito em maio de 2015.