''Mãe, tenho fome!'' - disse o menino já um pouco desesperançado. A mãe, sem palavras, redarguiu dizendo: ''espere mais um pouco, filho''. O dia começou assim naquela casa, retrato de tantas outras casas semelhantes aquela.
O pai acabara de chegar de seu turno à noite como porteiro do prédio da zona sul daquela cidade, repleto de prédios tão imponentes, com gente tão importante. Bairro esse construído onde havia uma linda floresta que fora consumida para erguer arranha céus belíssimos aos olhos desatentos e talvez um pouco irresponsáveis...
''Pai, por que você demorou tanto?'', indagou o filho menos. O pai, cansado, mas tocado pela pergunta, não quis explicar que um dos ônibus que pega habitualmente havia quebrado no caminho de volta. Já era velho demais - não o pai, mas o ônibus, muito embora o pai já nem fosse tão jovial assim para insistir em voltar a pé como anos atrás ainda fazia. Disse apenas a seu filho que o dia havia começado tumultuado. Era costume tumultos assim passarem despercebidos das esferas superiores daquela cidade - como em tantas outras. Afinal, quem usa transporte público e dele depende, pouca voz tem nas esferas de comando social, correto? Ele nem queria pensar. Apenas pegou seu jornal comprado com alguns centavos no caminho de volta. Sim, era um jornal barato. Mais ainda eram as suas reportagens sem sentido algum, apenas sensacionalismo puro...
A campainha tocou. Era o carteiro. Trazia uma intimação ao pai que há meses estava devendo um banco no qual havia contraído uma dívida mascarada em empréstimo. Ele havia faltado uma das audiências para negociação. Sentia vergonha e medo. Mais do segundo que do primeiro. Mas temeu ler a carta. Sim, estava sendo intimado com nuanças de agressividade na carta. Ele não queria tornar-se vilão naquilo que apenas fez por querer melhores condições à sua família. Ele havia reformado a casa e construído um quarto de estudos ao seu filho mais velho que tanto sonhava com a faculdade, mas hoje era obrigado a trabalhar após a escola para somar renda ao término do mês naquela casa. O sonho não havia morrido na mente de seu pai - embora estivesse já bastante adormecido na realidade daquele jovem de 16 anos que era obrigado a trabalhar.
Lá fora, no bairro onde moravam, caminhões e tratores levantavam enorme poeira na construção de uma nova auto-via. Sim, seria enorme passo ao progresso. Mas, pensava o pai: ''progresso de quem?''. Ele apenas esperava que não fossem desalojados, nem seus vizinhos, como desculpa de que estariam na frente do caminho das obras da prefeitura. Ele torcia em silêncio para que assim não fosse. O quintal que dava para uma enorme mata virgem, era hoje um amontoado de sucata, entulhos e materiais de construção onde passaria a nova estrada, onde ao fundo seriam construídos prédios. Diziam que aquele bairro seria promovido com construções para a classe média, em preços acessíveis. Será? Ele sabia que não.
O córrego em que havia crescido nadando nele já havia secado. O esgoto passava agora por debaixo da terra. Isso era um sucesso ao sanitarismo. Claro! Mas ele sentia tanta saudade do córrego, dos peixes, da mata virgem. Como era bom ter um quintal como antes ele tinha, com uma visão tão bela da natureza... Hoje, via pó de uma futura estrada que enevoava seu sonho de um lugar tranquilo para educar e ver crescerem seus filhos. O progresso é barulhento, pensou ele em silêncio.
Jogando o jornal de lado, bom leitor como era, não aguentava ler tudo aquilo. Uma enormidade de acusações tendenciosas e cruzadas no mais famoso esquema do ''sujo falando do mal lavado''. Sim. Em tons de superioridade, um jornalista qualquer acusava uma pessoa qualquer de uma coisa qualquer. Corrupção? Tráfico? Violências? Tudo era parte de um cenário catastrófico em que o poder a todo custo corrompia pessoas a tantas vertentes de erro. O corrupto querendo comandar; o ladrão assassino que assaltava para conquistar bens que não tinha, mas corrompeu-se acreditando serem essenciais mesmo que conseguidos assim; o traficante querendo mandar e desmandar, tendo se tornado herói em sua causa vil, em sua própria cabeça e aos olhos dos seus comandados que o temem... Ah, o progresso trouxe tantas coisas deletérias e mais ainda destruiu não apenas as coisas essenciais da natureza, como a mata e o córrego antes vistos do quintal, mas destruiu a essência própria das coisas belas e boas que ele sonhava ver perpetuarem no ser humano, mas não via mais. Como era bom quando essa realidade atroz não havia, trazendo tantos clamores por dinheiro, por poder - simplesmente por poder, em linhas gerais, ele sabia.
Disseram certa vez que: ''quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês entenderão que dinheiro não se come''. Algo pessimista essa frase? Não! Simplesmente é uma verdade resumida em traços bem sinceros. Ele pensou isso calado. Olhou para seus filhos e pensou seriamente em que rumos eles estariam crescendo. Não sabia, apenas esperava que a estrada que estava sendo construída na vizinhança trouxesse algo de bom, mas ele desconfiava que não.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de abril de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.
