quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Sobre o mundo ser um moinho

O mundo é um moinho, sim! Cartola já disse. Ouvimos bem. Mas não foi o bastante. O mundo quer que entendamos isso a cada dia, que reforcemos essa premissa a cada instante. Deus ou quem nos governe deve ter lá seus motivos...

Sim, estamos em tempos de desesperança, falta de imaginação produtiva e progressista. Há muito para explicar sobre o que eu quis dizer, mas alguns devem ter entendido. Ademais, faltam-nos amor, respeito, tolerância... Ah, como falta-nos a tolerância e como também é escasso o amor. Sobram-nos vaidade, crueldades (explícitas ou veladas), desdém às dores dos outros e apreço à insignificâncias tantas. Insignificâncias, digo, a respeito de temas que em nada nos fazem progredir, mas insistimos em bradar e criar clamores por ele. Olhemos as redes sociais, por exemplo. É ela um retrato de nossa insignificância. 

E sobre o progresso? Pelo que creio ser o mais relevante, saliento: falta-nos o progresso moral, ou espiritual, ou filosófico - digamos assim. Quando digo "moral", sei bem ser um tema amplo e divergente, mas não o levem de acordo com os discursos falso-moralistas e puritanos que temos por aí. Pensem no conceito mais "filosófico" como reforcei em termos de "sinônimo" adequado à ideia trazida aqui.

Ontem, mataram escravos africanos, traficados e massacrados. Nada fizemos além de assinar papéis que lhes deram "liberdade". Achamo-nos corretos, entretanto, até hoje. Ontem também jogamos bombas atômicas matando bem mais de meio milhão de pessoas no Japão. Também sobre isso, achamo-nos corretos até hoje. Havia "todo um contexto", poderiam dizer alguns no afã de sonharem-se absolvidos da culpa. Ontem (e hoje ) havia fome, miséria, pedófilos, estupradores, assassinos infiltrados em altos, médios e baixos cargos na sociedade - sendo tão poucos deles pegos. Havia (e há) tantas atrocidades. Porém, delas todas, aparece uma ou duas delas como tema, raras vezes na TV, e já achamo-nos cientes e sabedores do todo. Chorando diante das misérias em tom de novela nos jornais, achamo-nos bons e dóceis à nossa espécie. Não somos. 
de cartunista argentino: Quino

Somos maus e de fato falta-nos amor. Falta-nos, a saber, pensar além do comum e tentar resolver coisas do mundo, arregaçando as mangas de fato. Mas estamos muito mais preocupados o saldo de nossas contas bancárias... Pouco estamos, por exemplo, com ouvir um amigo triste, ou apoiar um doente que chora e sente dor, ou simplesmente sermos mais amorosos, respeitadores do outro, mais tolerantes com as diferenças.

Somos formados para o ócio em um berço embebido em egoísmo. Sim! Aparentemente, desde crianças, nos fomentam o pensamento de liberdade a partir de seguir um modelo fordista de ensino. Como assim? De início, peça bruta na forma de crianças livres e sonhadores, com, ao final (passando, num modelo de fabricação em série, por nossas escolas e faculdade), tendo todos nós por adequados e bem formados bonecos de massa. Não apenas isso: somos todos feitos como uma imensa massa geral. Como bonecos que somos: não nos mexemos, pois mexem-nos por nós mesmos. Com a massa que nos perfaz: não sabemos pensar e crescer por nossa própria conta, pois jogam-nos o fermento que bem querem. 

Enquanto isso, a sociedade segue crescendo, os bancos enriquecendo e os corações e almas das pessoas seguem tão imensamente vazios. No mais, desejo boa sorte às crianças do amanhã. E espero que sobrevivam ao moinho construído e funcionante por nossas mãos.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto escrito em junho de 2015.