Tenho uma dificuldade razoável em entender as coisas. Não sou formado pelas áreas ditas "de humanas". Não... Mas tento me embrenhar em reflexões acerca das coisas do homem, do humano, da nossa espécie em sociedade, poderia dizer... Não tenho tido muito sucesso, entendo! A cada conclusão que acho ter chegado, surgem mais dúvidas deixadas no rastro daqueles pensamentos... Ah, devem ser felizes aqueles que são da área "de exatas".
O homem, por milênios, tem trazido para si um arsenal histórico de maus exemplos. Tragédias sem fim. Matanças incomparáveis. Falta de qualquer apreço à figura humana que lhe avizinha. Ódios e mortes datados das mais antigas anotações de nossa espécie, sempre existiram. Estamos hoje simplesmente numa sociedade onde o tapa na mesa que dou por ódio na minha casa pode ir parar na internet e, daí, um cidadão do outro lado do mundo pode vê-lo. Sim! A internet pluralizou nossos saberes, mas também nossas ignorâncias. Apenas isso nos faz distintos dos tempos passados? Não. Há muitas coisas, mas isso é um "carro-chefe" e tanto para nossa realidade como ela é.
O mundo tido por civilizado, tecnológico, cristão, desenvolvido é o mesmo que construiu e explodiu bombas atômicas e outras tantas armas letais, atrozes, desleais... Sim, um homem armado consegue projetos quaisquer que almeje, não? Somos, no geral: indefesos! Isso serve - serviu e servirá - sempre aos poderosos para nos tomarem em suas mãos e nos fazer, deles, posse! Entretanto, nós - a mão de obra contemporânea - somos mais unidos, mais conscientes ou com mais espaço para conscientização. Isso incomoda! Os povos oprimidos também seguem nas mesmas margens desse aspecto da história recente de nossa espécie: andam mais unidos e, com isso, mais fortes, bem como, a bem dizer: mais visíveis!
Olhos às minorias, às margens da estirpe de comando das sociedades, nunca houve, de fato. Hoje, debater sobre racismo, violência contra opção sexual alheia, ódio às etnias e aos credos quaisquer: tornou-se padrão! Aparentemente não estávamos preparados para isso... Pode ter sido muito rápido todo o processo da pluralização, sim. Coisas do mundo líquido de Z.Bauman, poderíamos dizer? Disso, dessa rapidez e aparente descontrole sobre o mundo: surgem ódios que, com a internet (novamente falando dela) tornam-se pluralizados também! É o que eu disse pouco acima: "a internet pluralizou nossos saberes, mas também nossas ignorâncias". Apenas isso! Mas precisávamos estar cientes das coisas um dia - do todo, de todos... Ainda bem que estamos, aos poucos, entendendo isso como comum! Afinal, hoje sabemos que em qualquer esquina pode haver alguém debatendo questões assim - antes renegadas. Um dia entenderemos tudo isso como natural e bom. Sim, há uma imensa diferença entre achar comum e achar natural ou bom! Percebam.
Em novembro de 2015: novos atentados terroristas mataram pessoas. Mataram na França mais de uma centena! Pessoas no mundo todo comoveram-se! Claro, há de haver comoção sempre que algum inocente morre. Mas por qual motivo a morte de uma centena de civis no Camarões em fevereiro desse mesmo ano não comoveu ninguém na mídia global ou redes sociais ou sabe-se lá mais aonde - além de no próprio Camarões? Lá, naquele país africano, ainda houve em torno de 500 civis feridos além dos 100 mortos... O que norteia nossa comoção para uns e não para outros? Tento entender, sem sucesso. O aspecto humano, as perdas em si de gente inocente: comovem ou não? Se sim, por qual motivo passam sem alarde atentados diários na Palestina, Irã, Iraque, Camarões, Libéria, Nigéria, Iêmen...? Não sei! Olhos selecionados à França por mais essa vez, é o que temos.
Somos um povo cristão, ocidental, desenvolvido, correto? Talvez sejamos formados para somente nos comover como os nossos "semelhantes", ou também, noutra análise, com aquilo que ocorra onde haja bons cartões postais, algo assim... Mas a morte como um todo deveria nos comover, a despeito de quem seja o causador, o local do ocorrido e de quem sejam as vítimas! De quem quer que seja: toda morte deveria comover! Sejam de povos seculares ou de minorias recentemente expostas; de favorecidos ou desfavorecidos de sempre; de opressores e oprimidos milenares... Mas não. Talvez seja por essa seletividade dos olhos que temos, por exemplo, que explique até hoje morrerem africanos por Ebola e isso não nos comove, entretanto.
Ainda sobre o Ebola e sobre o que estava dizendo no parágrafo acima: talvez seja por aquilo dito acima que não nos espante o fato de ninguém mais estar exigindo luta contra a erradicação dessa doença. Afinal: ela parou de impôr riscos de pandemia! Ou seja: aquela doença parou de assustar o nosso mundo cristão, ocidental e desenvolvido... Não têm morridos mais os nossos "semelhantes". Seria isso? Entendo o seguinte, afinal: enquanto estiver matando "apenas" africanos, não haverá problemas ao nosso mundo, à nossa mídia e à nossa mentalidade comovida aos poucos - sempre de forma seletiva... Estaria certo esse raciocínio? A mesma coisa ocorre quanto às crianças com fome na África e as com sede no Oriente Médio que não nos comovem também? Sim, morrendo de fome e sede. Estamos comovidos? Não! É fato que não!
Ainda sobre o Ebola e sobre o que estava dizendo no parágrafo acima: talvez seja por aquilo dito acima que não nos espante o fato de ninguém mais estar exigindo luta contra a erradicação dessa doença. Afinal: ela parou de impôr riscos de pandemia! Ou seja: aquela doença parou de assustar o nosso mundo cristão, ocidental e desenvolvido... Não têm morridos mais os nossos "semelhantes". Seria isso? Entendo o seguinte, afinal: enquanto estiver matando "apenas" africanos, não haverá problemas ao nosso mundo, à nossa mídia e à nossa mentalidade comovida aos poucos - sempre de forma seletiva... Estaria certo esse raciocínio? A mesma coisa ocorre quanto às crianças com fome na África e as com sede no Oriente Médio que não nos comovem também? Sim, morrendo de fome e sede. Estamos comovidos? Não! É fato que não!
Ainda me pergunto, quando lembro da criança refugiada que foi encontrada morta à beira-mar também nesse ano de 2015, que comoveu todo o mundo: se ela fosse uma criança de etnia africana ou de traços notoriamente relacionados aos muçulmanos: causaria a mesma comoção? Não sei... Dirão muitos que obviamente o clamor e a comoção seriam idênticos. Desconfio que não...! Mas é só opinião minha. Ah..., sou um cristão-ocidental radical, crítico e chato, quiçá...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
