Criamos nossas crianças fazendo-as aceitar gritos em casa como normais. Pais mal preparados em todo canto... Sociedade machista, aristocrática... Mas somos um povo que insiste em defender a "tradicional família" como exemplar a um futuro melhor. Será? Pais brigam tendo suas crianças assistindo tudo! Separam-se com a maior das facilidades as quais possam querer, sem pensar nas repercussões desse ato na formação de seus pequenos. Há uma diferença enorme entre ter filhos e ser pai/mãe. Pensam em nossas crianças os membros de nossa geração? Decerto, em algum momento, mas em nada impedem a si mesmos de logo arranjarem outras figuras para pais e mães substitutos... Nossas crianças estão a cada dia mais sem lar e inseridas numa sociedade doente - sociedade racista, machista, preconceituosa em tantos aspectos, bem como aristocrática... Temas amplos demais para esse texto, mas vamos falar alguma coisa aqui.
Casais jovens, sem orientação adequada (ou até mesmo sem qualquer orientação!) criam em si processos de gravidez nada planejadas. Criamos uma sociedade que tem isso por cotidiano. Em momento algum estou dizendo sobre aceitar ou não esse fato, mas sim deixo meu espanto sobre aceitarmos a falta de orientação aos nossos jovens que, por existir, perpetra na sociedade um padrão de gestações indesejadas muito, muito comum! E essas crianças que nascem: como serão criadas? Avós jogando a culpa para cima dos pais sem nem mesmo atentarem-se para a negação do papel de instrutores que deveriam ter sido. Os pais das crianças, insatisfeitos com suas condições agora de responsabilidade paternal, mesmo imaturos que são, não sabem nem ser casal (ou par um para o outro), mas viram-se obrigados a carregar um filho(a) diante da sociedade que os acusa e não os ampara para entenderem e superarem seus erros. E agora? Como educar os filhos, os pais, os avós...?
Pais imaturos serão bons educadores? Decerto, raras vezes. A escola, desde cedo, é a personificação do processo de terceirizar responsabilidades. Como assim? Os pais, sem dar educação em casa, entregam as crianças mal saídas das mamadeiras às creches, escolas etc. Sempre a pretexto de que ambos, pai e mãe, têm de trabalhar. Claro, difícil é abordar questões financeiras, mas, de fato, as crianças então passam muito mais tempo de sua infância na presença de uma professora que mal conhecem do que com os próprios pais. A escola que era para ser apenas local de incentivo ao conhecimento e desenvolvimento de habilidades cognitivas passa a ser antro maior (e por vezes único) de educação das futuras gerações. Como faremos se nossas escolas nem mesmo sabem transferir aos alunos suas devidas obrigações quanto à transmissão de conteúdo educativo, instrumental? Imagine exigir de nosso sistema de educação formar melhores cidadãos, melhores pessoas, cumprindo o papel de pais, mães, avôs, avós que faltam às nossas crianças?
Em casa, crianças sem seus pais, sem uma noção de amor em família, de lar, passam horas presas às correntes imaginárias na televisão. Os celulares, tablets e computadores têm avançado sobre o poderio da televisão - sem entretanto trazerem algum ganho em relação à antiga companheira usual e seus grilhões. Os pais, não raro, passam seus dias afastados de si mesmos expondo as crianças a um conceito de lar abalado por brigas, intrigas, jogos mentais sobre as crianças... Pais que não se dão bem, mas dizem em público que se amam - não raro. Aprendem a não entender ou a entender errado do amor, é fato. Daí, veem na TV que há casais de mulheres ou casais de homens que queriam poder ter filhos, que se amam, mas não podem criar filhos, pois, segundo alguns membros religiosos e do governo: família é coisa de papai e mamãe. Nada além... Ora, como temos falhado com nossas gerações contemporâneas! E o que temos tido de família e mais ainda de "papais" e "mamães"? Pouca coisa!
Nossas crianças, expostas a tantas realidades estranhas (em lares que pouco têm de amor; sem carinho devido ou incentivos suficientes ao bom desenvolvimento da fraternidade e da auto-estima; em ambientes muitas vezes de violência e fomento ao preconceito): crescem perdidas! Quais adultos formaremos? Não sei! Mas, enquanto isso, sem debater isso de forma ampla, mais casais despreparados trazem seus filhos ao mundo. O que dirão de nós, no futuro?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier