Eis que o dia terminou num cenário escuro e frio. Escuridão há todo dia. Frio como aquele, nem sempre. Vendo e sentindo tudo aquilo, logo ali, sob a sacada do banco, dormia um homem trajado de subumano, tarjado como subumano, habituado a ser apontado como figura subumana, sendo chamado por termos subumanos. Habitava ele um corpo com vida subumana, a bem dizer, em condições subumanas cotidianas, sem alarde.
Estava aquele homem em meio à rua que, por mais aparentemente comum e diferente dele, era também subumana. Subumana como todo o entorno daquela cena corriqueira, num tal planeta azul, numa galáxia qualquer - talvez desumana que seja ou fosse - perdida no universo até então, aos nossos olhos, desabitado por outros humanos e subumanos.
Onde há espaço no mundo para miséria como princípio, mendicância como meio e, em paralelo, carros importados e gente de contas tão discrepantes de tão ricas, co-habitando tudo isso o mesmo cenário: vê-se que não somos humanos de fato quando se usa tal termo em visão metafísica, humanista ou outra denominação qual seja nesse aspecto. Sim, aquela era uma rua subumana, de uma cidade também subumana, de um país também subumano, num mundo subumano - apenas entendiam dessa forma aquele cidadão que dormia ali, uma meia dúzia de sociólogos, uns dois ou três religiosos e, com sorte, um ou outro transeunte qualquer que passasse e refletisse a fundo sobre a cena para além do simples cenário de foto que podia ser...
Um senhor passou e jogou sua moeda. Cristão que era, pensou: "coitado!". Uma senhora passou, acompanhada de seu cão domesticado em coleira de couro, e desviou-se. Era uma cena triste e seu cão poderia estranhar aquele cidadão... Um jovem passou ouvindo sua música preferida em seu aparelho moderno ligado aos seus ouvidos por um fone que o afastava do mundo. Simplesmente passou e ouviu sua música - nem mesmo sentiu ou percebeu aquele homem ali jogado. Triviais eram situações de escárnio diante de um morador de rua como aquele senhor. Chamaram-no de vagabundo, de coitado, de medíocre. Mandaram-no trabalhar! Ele não via a si mesmo como nada daquilo, muito menos como vagabundo. Tinha filhos, teve mulher - ou mesmo se não os tivesse... Mas, aos olhos do mundo, passou a ser simples vagabundo que vaga sem rumo no mundo.
Sim, "vagabundo"! O chamariam do que então? Ressaltavam alguns numa mesa de bar, logo ali, debatendo sobre o senhor que bem à frente estava: era ele um "vagabundo!". Afinal, restaria qual termo a ser aplicado? Quando não conseguem-se explicações à realidade ali retratada ou à existência dele - em dias em que apregoa-se tanto fomento à meritocracia e à venda de padrões altos de vida mediante a "liberdade" do capitalismo: restaria meramente taxar, de fato, como "vagabundo" aquele homem velho sob a sacada do banco.
Não compreendido, é o que é, de fato, aquele (como tantos outros!) cidadão subumano aos olhos habituados aos méritos dos lucros corriqueiros. O mais, é nada! Miséria? Sinônimo de preguiça ou prova de "deus" para um pobre homem qualquer. Quem quer saber de compreender as dores daquele que faz de colchão o papelão, de cobertor o saco plástico ou pedaço de pano qualquer tirado do lixo e de café da manhã o resto de comida desprezado pelo cidadão apressado da cafeteria à frente de sua "casa". Ninguém.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto escrito em junho de 2015.