quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Por uma alma que se vai e pelas que ficam

Que vida é essa onde morrer é somente uma parte dela, mas para muitos é a parte da vida mais esperada? Não raro sabemos de alguém que abdicou da vida; suicidou! Não raro também temos pessoas sofrendo tanto que pediriam antes de mais nada que a morte se lhes chegasse de pronto, ao invés de serem mantidas no sofrimento que estão, estiveram, estariam... 

Doenças! Violências aguda - como um estupro! Violências "crônicas" - como um pai violento agindo no lar sobre uma mãe submissa! Cenários assim, costumeiros que temos por notícia. Deixam crianças expostas a um mundo de atrocidades. Temos um cenário onde as crianças passam horas do dia em casa, mas não conseguem em momento algum ver ali um lar.

Crianças largadas. Possem progenitores, ou seja: um casal que se uniu, gerou a gestação e só! Mas em momento algum foram ou são: pais! Pais, a saber: seriam o que? Pessoas que estão ali não tomando seus filhos por obrigação de serem cuidados, mas com o prazer de vê-los felizes, amparando suas questões, medos, dúvidas... Mas há muitos progenitores no mundo e poucos, quase raros, pais, de fato. 

Nossas crianças ligam a TV sempre. É, decerto, o item de suas casas e vidas que mais lhes dá atenção (metaforicamente, claro). Mais que os próprios pais, é fato. Não raro temos pais que vociferam contra esses (e outros) hábitos dos filhos como o de assistir veementemente TV. Mas também contra os de acessar internet e jogos de vídeo-game. Mas pais esses, não raro, que nunca sentaram-se para exercer o papel de família, de pai e mãe, de apoio, de amigos, de amparo na criação do cenário do lar sonhado e merecido àquelas crianças que se jogam nos vícios tecnológicos um dia e, não raro, pelos mesmos motivos, jogam-se em outros vícios num futuro nem tão distante.

Por um tempo intenso de minha vida, tive a oportunidade de conviver com crianças acometidas por doenças oncológicas. Câncer! Tantas, tantas morreram... De fato, ouvi isso diversas vezes da boca de tão bons exemplos de pais e pacientes: "doença desgraçada essa!". Sim, ela é! Eram os tratamentos longos que sucateavam físico e psiquicamente todos - pacientes e, inclusive, familiares e colegas de trabalho. Eram as doenças que por um momento tínhamos por controladas ou derrotadas, mas que voltavam um dia destruindo todos os sonhos que havia e tinham sido recuperados por esperanças de um futuro novo que aparentemente surgia... Mas eram crianças, Deus, e tantas nos foram retiradas sob dores, traumas, sofrimentos inconcebíveis. Eram crianças...

Ah, as perdas. Todas elas deixam para nós que em algum momento convivemos com crianças que se foram: sorrisos inesquecíveis, abraços eternos, carinhos incomparáveis, frases ditas que nunca nos sairão da cabeça...Rostos e mais rostos que marcam-nos a memória como quadros numa parede. E tantas delas, falando de espírito: imensamente superiores a tantos de nós. Superiores a mim, com certeza. Sorrisos em momentos de desespero. Tranquilidade no jeito de viver as coisas. Obliterando os acessos da ansiedade - que por ora me consumiam na situação, mas a criança mesmo nada esboçava de ansiedade. Uma entrega à vida. Para tantas delas, apesar disso: uma entrega derradeira à morte....

Nessas horas, vendo tantos pequenos que partiram e partem, penso: você que sonha em ser pai ou ser mãe, pense se está sendo merecedor disso. Pense se merece ter em seus braços uma alma para chamar de filho e filha. Pense se será portador de um lar para dar à eles, os pequenos. Não tenha filhos para entregar à sociedade como na cena de O Rei Leão, onde o filhote é mostrado a todo o reino. Filho não é para ser ostentado como: "eu consegui ser pai", ou "eu consegui ser mãe!". Não! Ter filhos não pode ser vitória pessoal, de pai e mãe... Antes de qualquer coisas: ter filhos tem de ser dar apoio para a vitória pessoal daquele que veio e será chamado de filho! 

Por mais lares! Por mais amor! Por menos ostentação de paternidades e maternidades! Talvez eu tenha conseguido mostrar o meu raciocínio hoje. Talvez não... No mais: amem seus filhos e os deixe cientes disso no máximo que consigam! Isso serve de resumo. Muitos pais desde cedo preparam-se para sere enterrados por seus rebentos, mas saibamos todos: essa não é uma realidade inconteste e para todos. Amem! Amém!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier