quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O gigante nunca acordou. A verdade é que a hipocrisia nunca dormiu!

O povo brasileiro se diz indignado. Está indignado com a falta de dinheiro, simplesmente, ou o medo da falta. Aprendeu ser possível achar um culpado único, seleto, e encontrou vários álibis para sua indignação seletiva, trajada de altruísta e idônea, tornar-se obscura em meio a discursos enviesados. Defendem que cansaram-se de corrupção e por isso foram às ruas. Defendem que cansaram de um certo partido no poder, criador da corrupção no planeta - pelo que entendo!-  e por isso foram às ruas. Defendem que querem o país "nos trilhos" e por isso foram às ruas. Mas não! O brasileiro está indo às ruas por causa de dinheiro! Ele tem medo de perder dinheiro, afinal vive pelo dinheiro! Pronto! Basta de hipocrisia de "Luto pelo Brasil" ou motes desse nível... Não? Então, vamos continuar para tentar explicar...

O brasileiro não quer saber de se indignar quanto à morte secular de indígenas que a cada dia mais perdem suas terras, perdem suas vidas para latifundiários que ampliam a cada dia mais suas posses. Latifundiários esses que a cada dia mais diminuem mão de obra por comprarem sementes modificadas, que darão alimentos "modificados" ao povo; sementes essas que resistem mais, mesmo sem cuidados de um bom agricultor ou funcionário outro lavrando a terra. Substituem mão de obra por máquinas a serem conduzidas por técnicos mal pagos; coisas assim. Quanto aos latifundiários, o brasileiro em nada se importa se eles estão mantendo capitanias hereditárias por aí, mandando matar e matando gente que se lhes torna "estorvo" por não aceitarem abandonar as terras que eles querem comprar e "produzir" sobre elas. 

Não estão os brasileiros preocupados com o melhor da produção pautada no sistema latifundiário ser mandado para mesas selecionadas, ficando ao povo comum o que sobra da produção alimentícia desse sistema. Os brasileiros não estão indignados com essa realidade! Mas quando um brasileiro comum lê algo assim ("brasileiro comum", digo, daquele que bate panelas ocas em discurso e forma-se cognitivamente pelas conclusões ditadas pela mídia usual), ele será levado a pensar: "Absurdo, pois muitos latifundiários são pessoas de bem e adquiriram tudo o que têm por méritos próprios!". Aí, sabendo disso, de conclusões assim, desanimo! Com tais pessoas, "brasileiros comuns", nem precisamos discutir, pois não haverá utilidade nisso. Eles são donos da verdade e não há espaço para debate! É fato! Eles odeiam que não concorda com eles ou, mais ainda, quem os critica - tendo argumentos claros ou não. Então, peço, encarecidamente: se o que você entendeu até aqui o fez concordar com a frase entre aspas, de indignação, linhas acima, por favor: pare de ler esse texto aqui, pois você não entendeu nada e nem entenderá o que estou dizendo! Mas reflita se você se encaixa ou não no conceito também trazido linhas acima de "brasileiro comum".

Brasileiros não estão indignados com chacinas como a recentemente ocorrida em Osasco. A que lá ocorreu, nem de longe foi a única, nem foi a primeira, nem mesmo será a última. Brasileiros não querem saber se há mortes ocorrendo a mando de "gente importante"! Isso é coisa de filme e de quem acredita em conspirações, correto? O motivo delas é o narcotráfico, dizem! E os traficantes estão nas periferias, não nos condomínios elegantes e caros ou em altos cargos por aí, correto? Esse mesmo brasileiro que pensa assim é aquele que baba diante de nossos jornais achando que estão recebendo a pura verdade a ponto de lhes fazer brilharem os olhos... Os brasileiros não estão querendo saber o motivo das chacinas que ocorrem aqui, matando ora pobres, ora negros, ora pobres negros, ora homossexuais, ora indígenas... Em resumo: pessoas que cegam-se a esse ponto não se importam com a realidade cruel que é a de brasileiros estarem sempre matando brasileiros! Com esses brasileiros que morrem nas ruas a todo momento sem serem buscados os culpados ou os motivos para aplicação da lei, o brasileiro que vai às ruas se manifestar não se identifica. É o que eu sinceramente entendo! Desculpem se digo uma atrocidade... Não entendo por que a morte de um cantor em um acidente, por imprudência, ter causado comoção devida e enorme, mas a morte de dezenas de cidadãos em uma chacina ou centenas de índios num ataque não causar espanto! Vejo tudo isso banhado em dois motivos torpes para esse mar de incongruências: hipocrisia e alienação da nação!

Brasileiros não estão indignados com medo de que falte comida no prato de crianças novamente como ocorria no final da década de 90! Naquela época, faltava sim, mas esquecemos! Aquilo era comum, pois éramos parte do mapa da fome... Colocava crianças de nossa nação sob risco de desnutrição e óbito! Não queremos saber de gente que passa fome, seja aqui, seja no mundo. Cada um que busque sua comida! Se a comida falta na mesa, é porque o pai não trabalha, ou a mãe não arranja emprego, correto? Raciocínio esse, elitista, que faz o brasileiro comum que vai às ruas bater panelas achar que toda família que recebe ajuda do Estado é formada por gente vagabunda, gente que não trabalha, gente preguiçosa, crianças que não gostam de estudar... Não? Não há fome que comova pessoas que pensam assim! Não há comoção por desigualdades! Nunca assumiriam gritar pelas ruas o que muitos pensam, embora finjam não pensar: "Aos meus: tudo! Aos diferentes de mim: que se lasquem!". Creio que não assumirão nunca! Vendo isso, penso: o gigante nunca acordou. O que ocorreu na verdade é que a hipocrisia nunca dormiu!

Brasileiros não estão indignados com empresas financiarem candidatos. Nem com a "oposição", tida por solução aos desvios de conduta corriqueiros de nossos políticos da "situação", ser adepta disso! Brasileiros não estão indignados com o silêncio da "oposição" quanto a tudo isso acima. Ninguém de "situação" ou "oposição" tem ido às redes de mídia clamar pelo fim das atrocidades, mas sim bradar contra crise financeira e política. Querem dinheiro e poder - não necessariamente nessa ordem. É bem verdade que, quem silencia, acaba aplaudindo, não? A "situação", aprendemos, é a vilã única e exclusiva da nação. Deu na TV, então é verdade, não? Periodicamente vivenciamos esses ódios seletivos induzidos. Mas nunca odiamos ou abominamos nossas próprias condutas.

Aceitamos tudo isso acima sem reflexão adequada e, ocos assim como nossas panelas, batemos cabeça, digo, batemos as panelas.... Trazemos para dentro de nossas casas e também vomitamos nas rodas de conversa, ou nas redes sociais, ou onde mais houver chance de demonstrar indignação, que no Brasil há um inimigo único, bem estabelecido, com cor e rostos definidos. Ou você está contra ele, ou você é favorável a ele, não? Os velhos e seletivos discursos imbecis de alienação que tentam dividir as pessoas em categorias... Ah, como cansam. Afinal: que somos nós além de eternos juízes da vida alheia e das opções de vida e de ideias alheias? Sempre temos de nos definir como parte do grupo dos corretos, idôneos, íntegros e trabalhadores. Trazemos, obviamente, todos os que são nossos próximos para dentro desse grupo! Somos a elite, os melhores! E os diferentes, seja em fisionomia, seja em condição social ou em questão do que pensam acerca do cenário político atual, p.ex? São todos eles: "ralé"! Alguns da elite dos idôneos poderiam dizer frente aos da "ralé": "Vou acabar com sua raça!". Enxergam ou não a cena? Afinal, que acabem mesmo, pois ninguém quer existir num país assim: tão imensamente elitista, ignorante, intolerante, violento e cego.

Ninguém quer saber de indignação pelos mais pobres até hoje estarem morando em periferias mal vigiadas, quanto à segurança, e mal protegidas; mal conduzidas pelas gestões públicas, com má estrutura à condição humana. Ninguém está indignado com a falta de segurança ou à falta de um planejamento de futuro às nossas crianças - principalmente às pobres que, historicamente, nunca tiveram quem pensasse num futuro melhor para elas. Somos adeptos da meritocracia! Fazemos o que dá para mantermos ou ganharmos mais para além do que já temos e cada um que cuide de si. Não? E nos tornamos heróis de nós mesmos, mais e mais, a cada dia, sem a devida auto-análise - seja de nós mesmos ou do sistema que fomentamos. Somos pessoas de fé, também - embora em nada nossos discursos se pareçam com os de Jesus, Buda, ou quem mais seja citado. Sendo de fé e tão adeptos aos ganhos pessoais, talvez a melhor definição em frase para nós seria: "Cada um por si e Deus por todos". Levem uma faixa às ruas com esse mote! Seria bastante adequado! Desconfio que Deus deve se envergonhar de nós... 

Parafraseando Jesus: deve mesmo ser mais fácil um camelo passar pela cabeça de um alfinete que um rico entrar no céu! Para entrar no céu, um "rico"(parte desse grupo de elitistas) que em nada se preocupa com o entorno, precisaria se tornar pessoa melhor, mais humana e de fato: pessoa de fé em ação e discurso! Entretanto, é mais fácil o camelo se esforçar para passar pelo alfinete que o "rico" para tornar-se mais espiritualmente elevado, tornando-se capaz de enxergar as atrocidades do mundo hoje e os vícios em seus discursos! Não estamos preocupados com nada além de dinheiro! Não estamos achando ruim o dólar estratosférico por ele influenciar no dinheiro a menos nas mãos da família pobre no final do mês. Não! Estamos indignados com o medo de nossas poupanças perderem lucros, ou com receio de nossas viagens ao exterior se tornarem menos frequentes pelo alto valor daquela moeda, ou com riscos de nos serem reduzidos os privilégios em importações - pois adoramos comprar, comprar e, mais que tudo: adoramos ostentar. Ao final das contas, somando discurso a discurso, atitude a atitude, vejo-me descrente quanto a esperanças em nossa realidade. Temo pelo nosso futuro! 

Sonho com o dia em que as atitudes pelo fim das desigualdades sejam motivo de marchas pelas ruas; ou com o dia em que as "elites" dos bem favorecidos e com barrigas cheias, currículos extensos e privilégios seculares, tomem para si a vontade de mudar as coisas, notórios que são, e ajudar as pessoas que sofrem na esquina ao lado, bem como na periferia próxima ou ainda numa terra esquecida qualquer onde uma tribo tenha sido atacada por pessoas armadas, assassinas. Sonho com um país melhor! Sonho com um mundo melhor! Queria que meus filhos, caso os tenha um dia, tivessem o direito de olhar para os seres humanos como iguais independente da cor, etnia, credo, gênero, "status" social e econômico. Queria ver marchas repletas de gente nas ruas querendo melhorar o país para dar melhores condições aos que são pobres, desvalidos, miseráveis, e não para manter o privilégios dos que hoje e sempre foram ricos. Ricos e pobres precisam de privilégios enquanto humanos que são! Lutemos então pelos que não têm privilégio algum, não é óbvio? Aparentemente não é... Mas sonhar demais ainda não é ilegal. E, encerrando, repito, bastante entristecido por trazer dentro de mim tal frase como pura realidade: "o gigante nunca acordou. O que ocorreu na verdade é que a hipocrisia nunca dormiu!".
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier