quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Estou indignado! Estou indignado...?

Estou indignado, confesso! Estou mesmo indignado! Sou brasileiro, tenho quase meus trinta anos. Sei bem que talvez eu já tenha passado pela metade dos anos de vida que terei. Quem sabe? Disso, tenho por obrigação de fazer auto-análise com frequência. Não digo análise em referência a longas explanações narcísicas, mas auto-crítica e, para ser precisa e produtiva: silenciosa, solitária, diária.

Vejo um interesse em mim por assuntos diversos há anos. Entendi que há muito do mundo para se tentar conhecer há mais de década atrás... Tive por claro esse raciocínio e desde minha adolescência passei a tentar ver coisas que ampliassem meus horizontes. Sim, estou me abrindo com você, leitor. Estou deixando de pensar de forma solitária e, em tese, contradizendo a questão afirmada acima de, para uma auto-crítica ser produtiva, ela precise ser silenciosa, solitária e diária. Mas estou tentando explicar meu ponto. Estou mesmo indignado, mas estou também cansado. Cansado de que? De receber xingamentos por parte de pessoas que não sabem lidar de forma elegante com a ideia distinta que sai da cabeça alheia. Isso é parte de minha indignação, inclusive. 

Os tempos em que vivo, cá estando eu numa idade que fomenta pensamentos sobre ter ou não filhos, me preocupam! As pessoas são intolerantes, agressivas, deselegantes e passaram a ter por álibi para as atrocidades que cometem, seja dizendo ou fazendo: ora a liberdade de expressão, ora a indignação, ora a inconformidade com o mundo... Oras, que momento é esse de tamanha cegueira? Se estou indignado com a violência do mundo, vou pedir para que matem as pessoas? Se estou indignado com a corrupção, vou ser contrário ao partido corrupto que está corrompido, mas vou me calar quanto ao partido que me defende (corrompido igual ou mais) simplesmente pelo fato desse partido ser o "meu"? Estou indignado com os discursos de criação de benefícios às minorias, seja aos negros, ou aos índios, ou aos homossexuais, pois acho que eles não têm do que reclamar, mas não aceito que um filho ou filha meus tragam para casa companheiros negros, índios ou homossexuais? Oras, de onde sairá alguma solução com tamanha cegueira?

Melhor seria entender que a indignação é: privilégios foram expostos. Pessoas hoje sabem ou podem saber facilmente quem é racista, quem é latifundiário, quem é corrompido ou corrompível. Hoje, o negro que antes era trazido do interior, ainda criança, para trabalhar no lar como serviçal, sendo criado desde pequeno para servir ao senhor de engenho, digo, ao senhor da casa, hoje sai às ruas para seu emprego após ter conseguido se formar na faculdade com uma bolsa qualquer do governo qualquer. Hoje, aquele negro que era visto apenas como o pedreiro, o trabalhador rural, ou o porteiro, assume postos na Justiça do país, na Saúde do país, em grandes empresas e instituições! Seria a preocupação de mercado velada por trás? Afinal, mais pessoas estão se tornando aptas a exercer os cargos almejados, ou seria o basal e hipócrita racismo arraigado que fingimos desconhecer?

Sim, muitos usam raciocínios (tão imensamente idiotas!) de revolta como: os governos de tendência tida por "de esquerda" estão acabando com a "mão de obra" para servidores como pedreiro, eletricista, do lar - vulgo: "doméstico(a)"... Oras, é de deixar perplexo, não? Governos, se acabam com empregos assim, na maneira como funcionavam antes: fazem um mal à nação? Não! Primeiro: não acabam com empregos assim. Até mesmo se acabam: caso um eletricista queira ser engenheiro, arquiteto: que mal faz? Aprendamos mais sobre eletricidade e façamos serviços "básicos" por nós mesmos caso eles nos faltem, não? Deixemos todos livres para seguirem a profissão que bem entendam, dando condições a todos, todos de disputar vagas... Segundo: criaram-se formas inclusive para capacitar esses profissionais, com cursos teórico-práticos, cursos técnicos, dando orgulho a todos esses profissionais, margeados anteriormente no mercado de servidores comuns por não terem "diploma". Hoje: há pedreiros com diplomas, padeiros com diplomas, eletricistas com diplomas... Sim! E também há ex-pedreiros, ex-eletricistas que largaram o fado de seguirem o aprendizado passado de pai para filho e romperam essa realidade: buscaram sua liberdade e sonho de ser outra coisa. Se há um ex-pedreiro que hoje é médico, por exemplo? Isso é errado? Culpa do governo? Deus nos proteja para quem pensa que sim como resposta...

A mão de obra barata, de usufruto raso das pessoas tidas por esfera superior da sociedade está a cada dia mais competindo por altos postos, altos cargos, capacitando-se! E quando um cidadão assim, tido por, digamos: comum, atinge uma vaga em um concurso público - almejado por tantos que: "odeiam" o governo? Cria-se mais ódio ainda. Afinal, há os favoráveis à privatização de tudo quanto seja público, mas são fervorosos dedicados aos estudos para concursos públicos - os "concurseiros". Querem eles sua carteira assinada, benefícios de carreiras de Estado e tudo, mas são favoráveis às privatizações... Como debater com mentes assim? 

No mais, estou mesmo indignado. Refinamos nossas tecnologias, adicionamos palavras aos nossos linguajar e intelectualidade; almejamos, a cada dia mais, mais e mais progresso, porém, quando lidamos com as questões referentes aos direitos das pessoas, às questões da humanidade em si: ainda somos ocos, idiotas, ignorantes de tudo, preconceituosos e pessoas muito ruins, inclusive! A indignação de muitos, conforme tenho concluído, dá-se a partir de: minorias, profissionais antes esquecidos, "de mão de obra barata" de outrora, passaram a ser vistos e ter notoriedade! Até, mais que isso: passaram a ser livres! Abolição das pessoas e dos conceitos que eram tidos por: "pequenos", coisa assim. Isso tem incomodado! Há gente do bem que atingiu o poder. Há gente hoje que não concorda com punir uns e não punir outros. Privar uns de sucesso para usufruto quase exclusivo de alguns poucos. Não! Gente de bem tem gritado: "Basta!". Mas gente essa não tem ido às ruas. Tem trabalhado fazendo seu papel nas suas imediações, ensinando e aprendendo com a vida, tornando o mundo melhor aos poucos, livre de atrocidades seculares e livre das oligarquias de sempre. 

Hoje, o celular, ou a TV, ou o carro do mais alto executivo da mais importante empresa pode ser idêntico ao do mais "simples" serviçal dessa mesma empresa. Não? Ironia do mercado? Não! Isso é desenvolvimento sustentável, surgido aos poucos, grão por grão... Vem de gente que tem lutado calada, de forma incansável. Verdadeiros heróis da pátria como Paulo Freire (para citar um) deixaram seus ensinamentos bem arraigados no espírito de alguns. E isso tem feito a diferença! Suplantando raciocínios racistas de outrora e colocando em prática estratégias que um dia teremos orgulho, todos, olhando para trás, vendo que pessoas tiveram coragem de colocar em prática a mudança necessária! A primeira delas foi: a mudança interior. Somente assim muda-se o exterior. Estamos vendo até o mais alto cargo da Igreja Católica, tão, de forma secular, elitista e oligárquica, defendendo os pobres, as minorias, o bem comum e os direitos de todos. São tempos de esperança, amigos(as)!

Decerto, estou indignado, mas menos que antes eu estaria! Digo isso pois sei que não mais estão sozinhos no mundo aqueles que historicamente foram esquecidos. Hoje, sei: não mais estão abandonados! O bem tem acordado! Atearam fogo em Roma! Tiraram privilégios de exclusividade de gente que de maneira secular era beneficiada e mantinha-se confortavelmente intocável. Não queremos tocar nada de ninguém, apenas ter direito ao toque. Resumirei assim. E vamos em frente. 

Para despedir nesse texto enorme, deixo citação de um personagem, saudoso, que tanto admiro, Eduardo Galeano: "pequenas pessoas, em pequenos lugares, fazendo pequenas coisas, ainda hão de mudar o mundo!". Mudemos!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier