quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mais uma vez, tive a oportunidade ímpar de aprender algo com o mestre Paulo Freire. Li: "ninguém liberta ninguém. Ninguém liberta-se sozinho: os homens libertam-se em comunhão". Essa linda frase consta na obra dele intitulada: "Pedagogia do Oprimido". Desperta reflexão importante, afinal, brasileiros que somos, sempre estivemos à espera de um mártir que nos corte as amarras e traga um bom futuro a todos nós e, daí em diante, aos nossos descendentes. Quase que um conceito religioso, digamos assim, de um redentor comum como nós. Muito ingênuas, entretanto, são essas nossas aspirações e esperanças. 
de Quino, cartunista argentino

Estamos habituados ainda ao fato de esperar, terceirizar as aspirações de melhoras a alguém - um qualquer que seja. Quando esperamos, somos apenas expectadores - isso nos é confortável. Eis então que haverá entre nós sempre os defensores dos mártires e serão habitualmente poucos os defensores do real motor de mudanças que é: a educação que fomente e incentive uma contribuição geral pela mudança. Sempre esperamos algo melhor que se inicie em nosso entorno e para além de nós - não necessariamente passando por nós, o que é nosso maior erro e causa de total insucesso até hoje. 

Reformular a sociedade e mudar o país passa - necessariamente - por um fomento a novas vivências, novos comportamentos, numa auto-análise constante do que estamos fazendo, do que estávamos fazendo e a que nos propomos fazer. Sim! Em nosso sonho antigo de sermos "europa", um mundo dito "desenvolvido", esquecemos que para alcançarmos melhores padrões de "país", antes precisamos, necessariamente, modificar nosso padrão de povo que somos, refazer nosso comportamento enquanto sociedade.

Eis que:

- há corrupção? Há! Mas não apenas no presidente, nem muito menos exclusivamente nesse ou naquele partido. Há corrupção na estatal que "vende" interesses, mas também no dinheiro que você deixou de devolver, dado como troco para mais na padaria da esquina - com o qual você ainda saiu contente, gabando-se de seus lucros e da "inocência" do balconista;

- há violência na barbárie que muitos "menores de idade" têm feito pelas ruas, desprovidos que são de educação (intelectual e moral, não raro), mas há também nos gritos e ofensas punitivas, mal direcionadas, ao filho que errou ou deixou de fazer seu dever, bem como nos canais de TV que você assiste, nas novelas que mantém discursos alienantes você incentiva e que, querendo ou não, geram padrões de comportamento coletivos; 

- há impunidade e/ou desinteresses pela ordem geral vistas nossas leis, nossa justiça comum ou em nosso funcionalismo público? Há! Mas há também desordem e desinteresse quando o pai ou a mãe nem mesmo se levantam para saber do filho quando ele chega em casa tarde da noite, sem ser sabido por onde estava, ou o que fez, ou com quem esteve. Desinteresse também e "impunidade" há quanto aos pais que expõem seus filhos a "desfrutarem" de "músicas" obscenas, de reprodução de discursos "sexualizantes", sensualizantes, discursos esses que contribuem apenas para a desconstrução de ideais progressistas ou adequados à idade daquelas crianças, mas apenas estão dando fomento à tantas banalidades que são plantadas na cabeça, ainda tão jovem e imatura, daquele(a)  cidadão(ã) - adulto(a) do futuro - que ainda é uma simples e vulnerável criança;

Para tantos exemplos, não há espaço nem tempo hábil para escrever. Mas cabe então a todos nós refletir! Sempre! Achamo-nos muito pouco providos de capacidade de mudar por nossas próprias mãos. Sim, é a noção padrão! Fomos educados a pensar assim. Somos oprimidos por um sistema que nos convence e perpetua nossa "autodesvalia". Paulo Freire já nos alertava também quanto a isso. Segundo palavras dele: "a autodesvalia é outra característica dos oprimidos. Resulta da introjeção que fazem eles da visão que deles têm os opressores". 

Saibamos todos: não há interesse nenhum por mudança que não interesse esse que surja do próprio povo, perfaça o povo, transpasse convicções imaturas atuais de sociedade e nos mova a algo melhor. O poder do exemplo que deve ser a cada dia mais adaptado, melhorado, superando todos nós nossos erros e vícios. Somente assim, um dia, olharemos para nosso cotidiano e saberemos que algo de bom surgiu, mas esse algo de bom deve, antes de mais nada, começar. E que comece então. Começando, que seja dentro de todos. Somente assim surgirá mudança. 

Comece os próximos dias pensando em novos dias. Assim, habitue-se a perguntar a si mesmo: "o que eu fiz hoje que poderia melhorar algo na vida de alguém?". Ou: "o que deixei eu de fazer hoje (enquanto pai, ou mãe, ou responsável - direto ou indireto) para que uma criança seja desde hoje um alguém melhor que eu amanhã?". Passe também por: "o que eu contribuí hoje à cultura minha e do meu entorno?" ou ainda: "a que tipo de cultura eu doei meu tempo e incentivei, seja na TV ou em outros meios de propagação de conhecimento, de comunicação quais sejam?". 

Precisamos repensar e acreditar mais na nossa contribuição às melhorias e prejuízos diante do todo. Afinal, trazendo algo do pensamento de Eduardo Galeano para essa reflexão, concordo: "pessoas pequenas [comuns como nós], fazendo coisas pequenas, em lugares pequenos, podem sim mudar o mundo".
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier