quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A regressão humana

Ao longo da vida, aprendemos o que é crescer. Quando crianças, todos tomam decisões quanto ao que nos seja melhor; pais, parentes, amigos... Eis então que crescemos, capacitamo-nos quanto aos deveres da vida. Não é verdade? Desde então, passamos a exigir menos dos outros e tornamo-nos escritores da própria história - claro, nunca sozinhos, pois precisamos sempre de ombros amigos nas grandes decisões.

O ser humano é antes de mais nada um ser social. Precisa do entorno repleto de rostos e caras conhecidas. Tem dificuldades de embrenhar-se em mundos que desconhece. Procura sempre amizades, afins para construir passo a passo seus caminhos. Isso também ocorre quanto à sociedade como um todo. Enquanto brasileiros, por exemplo, precisamos de países amigos, colegas de ideais e não apenas para investimentos. Dessa forma, temos o conceito de uma sociedade universal que inexiste, diga-se de passagem. Caso sejamos dotados dessa ou daquela orientação político-econômica, seremos mais ou menos bem aceitos pelos países ao redor. Correto? Sim! 

Vimos esse cenário tantas vezes ao longo dos séculos do conhecimento da história humana. Apogeus e declínios, tantos. Pensadores que cresceram, divulgaram seus ideais e, dependendo de serem ou não aceitos, foram transformados em mártires vivos sob aplausos da maioria ou em cadáveres adorados por alguns. Vemos isso novamente ocorrendo sob nossos olhos. A mais recente proposta ao exercício da tolerância veio da Grécia. Após escândalos e divergências políticas internas, o país ruiu suas raízes rumo ao capitalismo e por ora clama em aplausos por esperanças no novo governante. Socialista? Nunca se sabe! Partidos são meras bandeiras para aquisição de poder. Por trás delas, nunca sabemos quais são os verdadeiros ideais. A história nos dirá - caso permitam o exercício do poder da esquerda por lá.

Preocupo-me! Ucrânia vive uma crise entre ''capitalismo x socialismo''. Europa novamente, como um todo, viverá isso agora referente ao caso: Grécia. O que será feito? Crise mundial, claro. Econômica, política, social, não podemos esquecer. Mas não nos esqueçamos e Deus nos livre dela: haverá uma crise bélica? Em pleno ano de 2015, veremos novos rumores de bombas, ataques, revanchismos infantis de outrora ainda arraigados nas mentes dos países? Não sei. Apenas preocupo-me, pois temo pelo pior. Deus salve a humanidade - e me salve do habitual pessimismo meu.

O mundo passou a criar a falácia de que o socialismo é coisa endemoniada. Claro! Não surgiu da hegemônica ''Meca'' do capitalismo: EUA. Vejo como sendo algo assim a razão dessa tamanha crítica aquele modelo de política de Estado. Quaisquer ideais ditos de esquerda serão mal vistos até sabe-se lá quando. Isso ocorreu em Cuba. Sim! Por qual motivo Cuba não podia fazer comércio com outros países? Por ser socialista? Medo do capitalismo ao ver outro país que optou pela ''esquerda''? Ahh, era só por causa da aliança com URSS na época, não é? Não creio... Há muito mais que isso! Tememos o alastramento dos ideais de esquerda. As ideias de caráter socialistas são como um todo negadas. Ninguém pára para aprender, repensar e ver se há algo de verdadeiro ou ''aproveitável'' nelas. Apenas seguimos o que os filmes, os jornais e nossos antepassados criados naquele mundo que brigava entre capitalismo e o diabo (o socialismo) dizem. Logo, não seria difícil entender o porquê de tudo isso que vemos ainda hoje. Ora, respeitamos sempre em inúmeras crises mundiais a ''hegemonia'' de certos países. Eis então que devemos respeitar a hegemonia de um país que quer e votou por ser de esquerda, não? Não! Não somos bonzinhos assim. Jesus ensinou a tolerância, Buda também, dentre tantos outros... Mas somos mais adeptos do poder do capital que do poder e norteamentos de Deus.

Surge então o cenário em que todos voltam-se às redes de TV, aos jornais e ajoelham-se, como habitual, pedindo: ''o que devo pensar?''. Sim, todos exercem a alegria insossa da ''liberdade'' moderna, camuflada na opressão de ideias e ideais aliados aos interesses do capital. Mas não vemos isso, afinal, o conhecimento e o despertamento surgem quando nos atentamos para aquilo que nos induzem pensar, debatemos conosco mesmos sobre aquilo e tomamos conclusões. Não se consegue, entretanto, concluir nada diferente quando engolimos as conclusões pré-prontas que nos jogam em casa pela TV e mídia no geral. Informação hoje é como uma massa pré-pronta: recebemos ela via tecnologia, aquecemos no aparelho televisor e ingerimos após. Não preparamos mais nada sobre o que devemos pensar. Apenas pegamos o que nos induzem pensar, o que nos convertem a pensar. Estamos regredindo!

Testemunhamos um real cenário de possível caos que será dado pela dificuldade das potências capitalistas em aceitar o aumento do ideal socialista por outros cantos do mundo. Sim! Há pessoas insatisfeitas no mundo capitalista mesmo com seus iPhones, TVs de 60 polegadas; algo deu errado no ''poder de compra'' das grandes hegemonias mundiais do capital. Há pessoas repensando esse poder e suas formas de agir no mundo tão desigual que temos. Algumas pessoas estão começando a pensar e entender que os avanços devem sim ocorrer, que as tecnologias nos são úteis, que as riquezas devem existir, mas estão entendendo e bradando aos berros já hoje para que haja mais igualdade, maior distribuição de riquezas e maior acesso ao conforto para mais e mais pessoas! Sim! Os mais imbecilizados dirão que isso é hipocrisia, pois os ''esquerdistas'' adoram produtos tecnológicos, como se traíssem seus ideais. Seria isso? Gargalho quanto a tamanha imbecilidade. Produtos comerciais e tecnológicos devem sim existir sempre, porém devemos repensar o enorme poder de enriquecimento que motiva as maiores dominações de mercados como vemos. Fato. Pela lógica ''embrutecida'' desses cidadãos que abominam ideais de esquerda e temem pelo seu crescimento, um cidadão adepto do socialismo ou de seus ideais não poderia então receber uma vacina, ou tomar um remédio, correto? Entendem a imbecilidade? Sim, pois celulares modernos, TVs e computadores não poderiam ser usados por eles em sendo produtos do mundo capitalista e ''blábláblá''. Correto? Vacinas e remédios também o são. Comida industrializada também... Socialistas não poderiam então se vacinar, nem tomar remédios, nem comer? Sabe-se lá. Cada um cria sua própria lógica.

Não há como não rir quando se senta para debater algo com alguém denominado de direita - daqueles que não aceitam opiniões contrárias. Não são raros os exaltados de ambos os lados, mas os de direita me causam riso. Mas, melhor rir em silêncio! O capital torna as pessoas muito dependentes de deuses novos, quais sejam dinheiro propriamente dito, ou, não esqueçamos: indústria bélica. Não? O poder armamentista dos países de direita é aparentemente negado. Apenas países ''anti-capitalismo'' são vistos como perigosos. Daí, entendo que aparentemente esquecemos de estudar história no colegial quando vimos que as duas bombas atômicas jogadas no mundo até hoje, matando mais de 160 mil japoneses na segunda guerra mundial foi jogada pelos EUA. Correto? Acho que esquecemos ou nos ensinaram errado?

Enfim, temo pelo pior. Temo por nós mesmos e mais ainda pelos nossos descendentes. O futuro nos dirá o quanto estamos regredindo. Estamos a dar passos para trás vendo passos para frente sendo dados por ideais diferentes do apregoado pelo capital. Estamos nos corrompendo cegamente pelos ideais de ódio aos ''diferentes'' hoje em dia. Vemos um anti-islamismo, um anti-socialismo... Mas defendemos como se eles, apenas eles, estivessem caçando algo. Não! Nós os caçamos. Nós destruímos também! Potências capitalistas são e foram muito más em diversas épocas, em diversos momentos. Mas, afinal, não seria então o capitalismo que nos dá as TVs de 60 polegadas? Não é o que pensam? Sim! Nada de pensar então. Aguardemos a próxima pérola tecnológica capitalista. Que dessa vez não seja outra arma de destruição em massa, peço a Deus...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.