quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

No lugar do próximo

Pois é, nosso país vai indo... Para onde? Cambaleante, ele vai - não sabemos para onde. Mas o país somos nós, não! Mas somos seres também cambaleantes. Não temos forças para andar nas estradas da fraternidade, do cuidado com o outro, dos discursos progressistas... Não sabemos disso! Nossas vozes se alinham apenas em discursos que fomentam interesses nossos que tememos perder. Somos especialistas em manter e criar medos! Há algum gozo masoquista nisso, quiçá...

Porém, apesar de tudo: precisamos melhorar. É um fato consumado! Mas, para isso: precisamos começar, pelo menos. Mandela disse certa vez algo como: "uma das coisas mais difíceis não é mudar a sociedade, é mudar a si mesmo". Comecemos então, já agora, essa árdua tarefa. Para solução de nossos problemas enquanto nação, enquanto filhos de Deus (aos que creem!), penso que somente da seguinte forma conseguiríamos algo. Tentarei enumerar situações e reflexões. Tenha paciência, pois é um texto grande. Boa sorte na leitura.

Quanto à matança de indígenas? Ninguém faz nada! Querem seu espaço, algo para chamarem de seu. Querem algo de terra nesse país tão grande. Mas, aparentemente, estão pedindo demais. Ninguém que saber de índios... Ensinaram nas escolas - para mim, para você e provavelmente para todos os demais brasileiros - que índios são preguiçosos. Procede? Óbvio que não. Mas, mesmo vendo a matança, mesmo vendo latifundiários - já absurdamente ricos, cheios de terras e privilégios - matando e/ou mandando matar indígenas: nenhum cidadão fica indignado e vai às ruas pela defesa deles. Esses brasileiros estão sozinhos - desde 1500 - e morrendo! Pense: e se eu fosse aquele indígena? Talvez assim comecemos a mudar.

Quanto aos alunos que saem às ruas clamando por uma discussão ampla da educação? Sim, o futuro é deles e eles são o futuro. Óbvio, não? Todos acham o clichê: "essa juventude está perdida" algo lindo de ser dito, mas, quando a juventude mostra esse sinal de maturidade, de força, de voz aos brados e punho em riste, todos viram a cara e os chamam de "vagabundos" etc. Aceitamos até ser desdenhado o movimento com o preceito de que os jovens estão fazendo "política". Que ótimo seria isso então, não? Jovens fazendo política, não nos interessa e não nos dá orgulho? Mais uma vez, desdenhamos tudo. E educação é a maior arma de transformação, obviamente. Mas esses alunos são espancados, recebem bombas, socos, maus tratos e cadeia. Você não liga, afinal: você não é aquele aluno. Afinal, também: aquele aluno não é seu filho. Então, pense: e se aquele aluno fosse você? Ou fosse seu filho? Talvez assim comecemos a mudar.

Quanto aos professores que ano após ano são deixados à míngua, morrendo de fome - quase literalmente? Fome de sonhos não conseguidos; fome de um salário e condições dignas ao trabalho; fome de esperanças que não são atendidas; fome de conhecimentos que não conseguem ter meios para passar adiante... Fome de atenção. Fome de ver a população defendendo que somente educação vai mudar nosso país. Mas você vê os professores sendo espancados nas ruas, recebendo bombas, balas de borracha, mordidas de cães monstruosos. Você, ainda assim, não liga. Afinal, você não é professor. Você não está nas ruas pelos professores. Você esquiva-se mais uma vez. Mas, pense: e se você fosse aquele professor? Talvez assim teríamos uma mudança.

Quanto aos cidadãos que oram por seus deuses e entidades em rituais, por exemplo, de Umbanda? Ah, não queremos saber. Deixamos que sejam quebradas suas casas, seus templos, suas imagens... Deixamos sob a argumentação preconceituosa de que tudo quanto eles façam seja cultura, não religião. E, como cultura não nos é lá do interesse, deixamos que ataquem seus templos, suas imagens e etc. Deixamos há poucos meses atrás uma criança ser agredida. Quem lembra? Qual jornal nos rememora o fato? Qual o motivo? Estava participando de um ritual de religião odiada por alguns "religiosos". Os "religiosos" partiram para cima e atacaram. A criança se feriu. Isso comoveu? Não. Não somos da Umbanda - ou outras dessas religiões. Não somos adeptos delas. Daí, não nos importa se pessoas morrem por isso, ou que sejam espancadas e tenham suas crenças atacadas. Mas, também aí, pensemos: e se fosse você um daqueles praticantes? E se fosse seu filho? Talvez assim teríamos alguma ação, alguma comoção e alguma mudança...

Quanto aos negros cidadãos de periferia que morrem aos tantos, habitando cifras estratosféricas das estatísticas alarmantes da violência? Negros morrendo, pois estavam nas ruas e foram confundidos com marginais, é isso? Aí, vem alguém e, "defensor" da ordem pública, os mata. Fuzila. Espanca. Cria álibis falsos que justificariam na justiça uma eventual troca que tiros ou briga - que inexistiu. A morte ocorre junto ao silêncio. Ouvem-se as balas, os socos, mas não ouve-se voz alguma popular para os defender. Estão sós! Morrendo. Expostos às periferias esquecidas, sem educação adequada aos seus entes queridos, sem saúde para eles, sem cuidados ou ordem... Sem nada! Mas você se revolta quando algum governo foi e resolveu fazer cotas para negros. Claro! Ensinaram que nós não temos que pagar conta nenhuma da desigualdade e atrocidade social plantada no passado pelo nosso modelo escravagista que durou tanto, tanto, a ponto do Brasil ser o último de todos de nossa América a abolir esse mal. Isso não tem nem 150 anos, mas achamos ainda que todos os negros estão mesmo livres, prontos para enfrentar de braços abertos a meritocracia, modelo que amamos bradar pelos quatro ventos... Mas, pense: e se você fosse negro? E se você fosse aquele negro espancado na viela, solitário, e morto, sem causa ou acusação? Morto, por perder a vida, ou por saber-se sozinho, com medo de ir e vir? E se fosse aquele negro que morre a cada novo dado das estatísticas seu filho? Talvez, pensando assim e usando como premissa básica de raciocínio, poderíamos ter uma mudança.

Quanto aos homossexuais? Você não procura saber o quanto eles sofrem. Afinal, você não quer saber. São outra parcela da sociedade dentro do grupo intocável das minorias. Quem irá querer saber de defendê-los? Morrem espancados nas ruas, sob atrocidades dessa nossa sociedade elitista e machista, a cada instante. Mas ninguém quer saber disso. Quem se comove? Ora, outro dia um cidadão pegou uma lâmpada e, sem mais nem menos, quando viu um homossexual na rua: aplicou-lhe um golpe explodindo a lâmpada sobre seu corpo e depois agredindo aquele cidadão homossexual. Quem fez alarde disso? Ninguém. Comoveu o povo? Não. Ah, "foi um ato isolado", poderiam dizer. Consultem as estatísticas! Mas ninguém quer saber desse tipo de estatísticas. E, quem queira saber e defender os interesses e direitos dos homossexuais, passa a receber o ódio da sociedade, ódio nos discursos de baluartes da ética e da moral tidos por religiosos... Como não dar gargalhadas ao ver nossa confiança depositada nesses "religiosos"? Recebem dízimo de um povo já sofrido, sem dinheiro que dê conta de seus sonhos. Mais ainda: os obrigam a pagar a conta de suas atrocidades e chamam de "dízimo". Jesus vai, na história, e joga para todos as moedas que encontra no caminho; mostra a todos que o dinheiro não é e nem será o foco. Clama e brada por fraternidade. Morreu por isso! Atendeu aos chamados e atreveu-se aos cuidados de todas as minorias, mas esses "religiosos" incitam o ódio e desdém às minorias hoje. Os homossexuais sofrem isso na pele. Não podem amar. Não podem nem adotar crianças, afinal: um casal homossexual que queira adotar uma criança abandonada (dentro das tantas estatísticas de abandono) à adoção, criança essa proveniente de um exemplar de "família tradicional brasileira" (pausa para suspiro e/ou risos), não pode! Esse casal de homossexuais não pode adotar. Não pode amar livremente. Não pode existir, a bem dizer. Nem pode ir a um templo religioso. Daí, pense: e se você fosse esse homossexual? E se você sofresse tudo isso? Talvez assim possamos mudar algo. Pensemos diferente.

Quanto aos miseráveis? O que fazemos nós? Nada. Deixamos à míngua, afinal: nós temos dinheiro para pagar planos de saúde; temos dinheiro para comprar à vista nossos carros; temos dinheiro para ir e vir, quando bem quisermos, em viagens pelo mundo; temos dinheiro para ter várias e várias casas, ranchos, sítios, fazendas, apartamentos, latifúndios... Tantos privilégios às tantas, mas não aceitamos sermos tidos por "privilegiados". Não! Não queremos assumir responsabilidades. Não gostamos de cuidar dos miseráveis, pois achamos que as pessoas os tratam como "coitadinhos", mas se nos fazemos de coitadinhos, mesmo isso sendo hipocrisia, não aceitando nossa condição de privilegiados que somos: isso fica tido por normal! Aí, um governante cria alternativas de amparo como bolsas de assistência social. Você tem ódio disso! Não liga para as estatísticas de poucos anos atrás quando, sem essas bolsas, crianças e famílias não tinham nem o mínimo suficiente para isentar suas casas e estômagos da fome. Morriam pessoas secundariamente à fome, mas isso não nos comove. Não somos mais oficialmente parte do "Mapa da Fome", mas isso não é motivo de comemoração para nós. Também ficamos indignados quando um governo "exagera" dando poder de crédito aos cidadãos, fazendo com que todos possam sonhar ou mesmo ter, de fato, seus carros sonhados, seus aparelhos tecnológicos sonhados, bem como programar e pagar suas viagens pelo mundo tão sonhadas. Talvez um sonho dos seus mais antigos ancestrais que hoje, enfim, conseguem realizar, mas isso ligamos para isso e, de certa forma: isso também nos indigna. Porém, não ficamos indignados quando um governante fecha escolas, aumenta o número de presídios, mantém estatísticas de assassinato de negros, de miseráveis, de cidadãos em situação periférica na sociedade. Isso não nos comove ou gera engajamento social. Quando alguém gera alguma reflexão, temos por única resposta culpar o governante (e os seus continuadores) que criou aquelas "facilidades" aos miseráveis - bolsas, crédito, fomento à entrada nos ensinos superior e técnico etc. Lavamos as mãos para as atrocidades dos nossos governantes municipais, estaduais... Não queremos saber de ajudar ninguém! Pronto. Se recebemos no dia a dia uma série de favorecimentos por nossa condição de privilegiados que somos, em conchavos lícitos ou ilícitos: isso passa por normal. Mas quando alguém defende um miserável? Talvez, seria solução pararmos e pensarmos bem: e se eu fosse aquele miserável? E se aquele miserável fosse um filho meu? Talvez assim seríamos melhores, não? 

Ah, discutir isso tudo é hipocrisia, quando sai da boca de um cidadão. É populismo, quando sai da boca de um governante. É estar ajudando a proteger "vagabundo" quando surge de um grupo que defenda interesses desses cidadãos que sofrem. Afinal, bradamos nas ruas e nas redes: "direitos humanos para humanos direitos". Somos modestos - ironia, claro. Não fazemos nada pelo próximo a não ser criminalizá-lo quanto às suas buscas e lutas, mas ainda assim somos os "humanos direitos". Ah, pagamos nossos impostos. Sim! Pagar... Ter dinheiro... Lutar por ele ser mantido, obviamente, intocável. É o que sabemos fazer. Afinal, para nada disso discutido acima nós nos mobilizamos, mas: eis que o dólar fica mais caro, o governo não controla os aumentos de gasolina e dos nossos gastos comuns e...? Ah, aí sim: viramos leões! Matamos, se preciso! Tudo gira ao redor do dinheiro, apenas isso. Não é sermos cidadãos, sendo fraternos uns com os outros, que nos define nação, mas somente a esfera dos interesses econômicos é que nos define os padrões de comportamento e luta. 

Triste? Claro. Lavamos as mãos cotidianamente. Alguns, nem isso podem fazer. Quem? Os habitantes à jusante das águas do Rio Doce. Lavamos as mãos para a situação deles, metaforicamente, mas eles nem água têm tido para lavar, de fato, as suas próprias mãos. Ou beber. Ou se lavar. Deixamos à míngua mais essa parcela da população. Enchemos eles de metais pesados que ceifaram vidas, sonhos, casas... Uma enxurrada de destruição sob conivência e álibis bem tramados. Mas também isso não nos incomoda. A morte de ninguém nos comove, pois não nos gera prejuízos, talvez seja isso. Quem sabe no dia em que a matança de pessoas, o desdém às lutas alheias e as crises humanitárias socialmente aceitas em nosso país façam o dólar disparar, o preço da gasolina perder o controle? Ah, talvez aí teremos interesse de ir às ruas e bradar contra isso, em defesa do todo. Do contrário, resta esperar e torcer para não estar (e para que nenhum de nossos filhos um dia esteja) dentro de minoria alguma.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier