quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Sobre gaiolas, os pássaros, as liberdades, as tiranias e sobre nós

Os pássaros são sempre o clichê vigente nos discursos sobre liberdade. Eles podem voar! Mas pássaros, no final das contas: "passareiam". É a condição deles voar! Voam por que sabem e precisam fazê-lo. É o meio de locomoção deles: voar! Eles simplesmente exercem sua função de pássaros e "passareiam", assim como os demais animais exercem suas funções respectivas como, por exemplo, digamos: os sapos. Esses, mesmo que não inspirem tantas paixões, mas sim algo de asco: "sapeiam" - como diria Clóvis de Barros Filho! Assim por diante, a natureza exerce suas condições de existência a cada instante, de forma singular em cada canto e de forma especial em cada ser e coisa. Inseridos na natureza, cada um serve-se de si mesmo com as ferramentas que tem para existir e alcançar seus objetivos, sempre, mesmo que não gostem: coexistindo com outros seres que lhes são mais ou menos semelhantes - seres conscientes, sapientes, ou não, a depender do animal! De nossa parte, humanos, temo-nos por seres conscientes! 

Disso tudo, poderíamos entender de certa forma nosso fascínio pelos pássaros, pois, de fato: voar deve ser lindo. Atravessar as nuvens e as longas margens entre dois pontos no horizonte, rapidamente... Entenderemos também, sem muito esforço, que ser livre não é sinônimo de voar, entretanto! Na verdade, os pássaros são tidos por "livres" uma vez que podem mudar facilmente sua rota. Podem, de pronto, percorrer rapidamente amplos caminhos assim que entendem-se no caminho errado! Logo: são rápidos e facilmente adeptos (e adaptáveis) às mudanças, radicalmente. Penso dessa forma, pelo menos! Um pássaro pode estar indo rumo ao norte, todavia, de súbito, entendendo que seu melhor caminho seria ir ao leste, ele põe-se apto diante de sua realidade a ir pelo novo caminho em igual ou até mesmo maior velocidade - a depender dele e de sua motivação para tal!

Nós, também, poderíamos e deveríamos ser livres assim - embora caminhando com duas pernas que nos inferiorizam diante das asas dos pássaros... Porém, tememos seguir rumos amplos e dominamos a nós mesmos pelos medos. Acima de nós: há o Estado e nossos demais superiores. Os culpamos em alto e bom som por nossas privações. Um tirano "tiraniza" por uma cascata de tirania, decerto. Mas nós somos cúmplices e seguidores desses métodos! A liberdade do outro, não raro: incomoda e nos apequena. Quanto mais, enquanto "tiranizados", aceitamos "tiranizar" nossos "inferiores", mais legitimamos e mantemos o poder do tirano superior de todos e, com isso, mais cerceamos nossos direitos e sonhos de liberdade! Esse é um mal trazido por Etienne de La Boetie há séculos atrás que ainda não nos atentamos. Quem é controlado, luta por exercer, ao seu turno, algum controle sobre algo ou alguém! Se vinga controlando mais aqueles que lhes são, por algum motivo, inferiores em alguma hierarquia social, burocrática, institucional, governamental e, não raro: familiar! É a realidade que temos pluralizada e crua - embora ainda não estejamos atentos devidamente a isso. Tiranos se reproduzem nos altos cargos do Estado ou nas instituições, assim como na menor família, no menor recôndito do mundo qual seja. 

Esse raciocínio também nos foi trazido, de certa forma, por Paulo Freire. Ele nos alertou sobre isso, ao seu modo educado e sutil! Não formamos, em termos de educação e estratégias plurais de formação enquanto sociedade, cidadãos reflexivos. A mentalidade que temos é: quanto mais sou reprimido, mais oprimo os "inferiores" imediatamente ligados a mim! E assim por diante, seguimos numa realidade opressora - submetidos a ela e lhe exercendo. Somos mentores e testemunhas desse crime que cometemos a nós, à nossa liberdade e às consequências de nossas ações no hoje! O sonho do oprimido é, de fato, ser o opressor! Dessa forma: não evoluímos e não plantamos um melhor futuro aos nossos sucessores! Não nos libertamos para ser livres! Não coletivizamos o acesso à pluralidade e à liberdade! É um triste fato, um triste e cruel crime...

Precisamos urgentemente nos reeducar, criando novos métodos de ensino. Basta de auto-ajuda barata e tragam para si mais reflexão pura e ampla! Educação que nos mostre o que é ser livre, é o que precisamos. Tornar as pessoas aptas a mudar seus rumos, mudar suas rotas e, de pronto, seguir rumo aos sonhos e ideais! Sempre, sempre refletindo e lutando para que ninguém, ninguém nos oprima enquanto sonhadores, enquanto seres humanos dotados dessas liberdades de escolha! A união contra a tiranida é a solução! Mas a união na tirania, usando dessa mesma tirania enquanto cúmplices, é a perpetuação e, por si mesma: todo nosso atraso!

No fim, seria tudo, enquanto solução e alternativa, algo em torno do pensamento "freireano" de: "Educação como Prática de Liberdade". Seria isso aquilo que precisamos para nos salvar dessa rota de colisão que mantemos para com as frustrações e para com os altos índices de suicídio! Talvez sim, seja isso! É um belo e coerente norteamento refletir e educar com esse foco: prática da liberdade! Entender o que de fato é liberdade e que, voar, enquanto questão metafísica: pode-nos ser lícito.

Todavia, estamos todos confortáveis, infelizmente, em habitar gaiolas! Sim! Ser livre, em certa análise: é assustador! Ter múltiplos caminhos, por vezes, pode ser mais traumático e impactante que ter uma única trajetória reta para seguir - mesmo que essa reta nos leve ao matadouro! Ainda sobre as gaiolas: sendo a nossa gaiola de ouro, com veludo por todos os lados (ou algo assim) e alguma forma de estofado nos nossos poleiros que nos passe qualquer sensação de conforto: ficaríamos eternamente gratos aos nossos líderes, aos nossos tiranos, mesmo que todos nós estivéssemos impossibilitados de voar! Ver outros em gaiolas menores, menos confortáveis, nos convenceria de que somos especiais de alguma forma! É essa nossa servidão voluntária ao sofrimento, à tirania, que tanto nos mata adoentados (após anos e anos sucateando nossa saúde para buscar uma felicidade que não vem) ou através do voluntarioso tiro na própria cabeça que, cedo ou tarde, tomamos coragem para fazê-lo.

O que me impede de ser livre, feliz e convicto de estar vivo e não somente existindo? Apenas uma pessoa. Essa pessoa sou eu! E das asas? Quem há de me dar os poderes dos pássaros? Eu também! Que então eu passe a ser tirano de mim! Talvez assim eu me obrigue ao exercício da liberdade que me é lícita, alcançável, rompendo esse cárcere confortável demais que, sofrendo nele, me mantém visível aos olhares alheios (incluindo os de Deus) de pena.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier