Vejo um país sedento por vinganças, revanchismos, intolerâncias infindas. É o cenário de meu Brasil, país que sempre defendi como um sonho possível de tornar-se ideal, mas enganei a mim mesmo. Acho que a juventude nos cega com sonhos. Será?
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| trecho da obra de Eduardo Galeano |
Achei que poderíamos todos bradar pelas melhorias coletivas, mesmo que isso rompesse a situação confortável de, como se diz, membros da elite secular da sociedade. Situação de conforto essa que tantos detém, mas me enganei redondamente. Todos esperam que quem é pobre trabalhe, mesmo que as condições sejam de exploração, mas baseando-se na premissa de que apenas consegue-se ascensão social pelo trabalho... Sim: que trabalhem o máximo que conseguirem, mesmo que não façam nada além disso. Quem sabe um dia a meritocracia os avalie como dignos de algum conforto? Os pobres estão à mercê da própria sorte.
Acreditei por muito tempo que os menores abandonados, pela falta dos pais (seres imaturos e perdidos, por vezes, nos vícios da vida) e do Estado, seriam tidos como responsabilidade da sociedade, sendo então clamor público estratégias de resolução das mazelas às quais eles são obrigados a estar expostos. Mas enganei-me novamente. A sociedade quer que essas crianças abandonadas sejam cidadãos de bem, vençam as intempéries do seu dia a dia e a situação de total abandono que estão expostas por si mesmas. As crianças abandonadas estão abandonadas então não apenas pelos pais e pelo Estado, mas pela sociedade como um todo. Que sejam resignadas e corajosas para venerem sozinhas, é a esperança.
Achei que as desigualdades que temos e a marginalização da pobreza, a condição dos negros que há menos de 150 anos tiveram sua liberdade e hoje ainda alguns acham que eles têm condições idênticas aos demais de "crescer na vida", poderiam fazer parte das estratégias e ajuda do Estado, tentando resolver os males de cicatrizes sociais que geraram nos séculos anteriores quando apenas os exploraram de forma desumana. Mas não, enganei-me novamente. As pessoas querem que os negros deem conta de si mesmos e parem de se achar minoria explorada.
Tentei me convencer de que era possível solucionarmos as divergências, as desigualdades seculares que ainda nos permeiam. Olhei a questão dos homossexuais e da mulher. Os primeiros, sempre fadados à marginalização quase criminal, sendo obrigados a se esconderem. Casamento? É coisa de homem e mulher, não coisa para quem se ama... Sabe-se lá o que pensam as pessoas. Não é em vão que em vários países a homossexualidade é crime. Aqui, não recebe essa denominação explícita, mas e a condenação velada? Tenho pena dos homossexuais. Que eles aceitem transformarem-se em heterossexuais ou então serem eternamente marginalizados. É a condição que se lhes impõem.
Tenho pena das mulheres também. Não conseguem atingir cargos públicos elevados senão por extrema insistência e competência enorme, mesmo assim, atingindo cargos de comando, ganham menos que homens naquela mesma posição. Mas as mulheres que aparecem nas redes de mídia são apenas feitas para serem admiradas como produtos de sensualização e sexualidade sociais, nada mais. Tenho pena das mulheres. Elas que aceitem a condição de um dia retornarem para a condição do lar.
Pensei que poderíamos ser um povo unido pelo bem comum, a bem dizer. Que as manobras de políticos nos roubando dinheiro público serviriam para revoltas populares, levantes de ordem e progresso sociais. Mas não. Aguardamos sempre o posicionamento da mídia para crucificar esse ou aquele em específico, não o todo. Afinal, caso queiramos aceitar que é necessário condenar todos os erros, a mídia será uma das primeiras a ser crucificada. Não é interessante que ela, a mídia, e seus patrocinadores, outros algozes dos interesses do capital, saiam rebaixados à condição de vilões. Melhor então continuarem vendendo nas redes os vilões da vez. Adoramos isso e queremos cadeia para eles... Ah, sei... Quão tolos somos!
Enfim, pensei nos índios. Hoje, quando aparecem indígenas nas ruas, são olhados com alarde, temor, algo assim. Estratégias do governo para ajudá-los? Foram massacrados, humilhados, tendo seus ancestrais, assim como os escravos afrodescendentes, mortos e explorados até o osso, mas hoje cremos que nada temos de dívidas do passado para com eles. Eles, assim como os pobres, negros e demais marginalizados pela condição passada de nosso processo de colonização, que se dediquem por si mesmos a serem abraçados pelos braços da meritocracia e, assim, um dia possam nos olhar nos olhos de igual para igual.
Perdão, pobres, crianças abandonadas, homossexuais, mulheres, afrodescendentes, indígenas... Um dia haverá um povo melhor que os aceite como irmãos e haverá também menos ódio em nossos corações. Afinal, pelo que entendo, o medo de perder conforto estabelecido transforma as pessoas em cidadãos mesquinhos e passíveis de aceitar atrocidades contra essas minorias - quer seja como coniventes ou como juízes, propriamente, da causa. Temo pelo pior a todos vocês, digo desde já. Se possível, saiam todos daqui e busquem a felicidade em melhor lugar. Em especial aos índios: peço que nos perdoem! Peço perdão desde Cabral até os dias de hoje. Quem sabe um dia essas terras possam ser novamente algo de suas?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto escrito em julho de 2015
