Os brasileiros são influenciáveis? Pelo que? Notoriamente, somos espectadores assíduos de TV, tele-jornais, novelas etc. Acompanhamos e sabemos mais da vida dos atores das novelas que os problemas de nossos filhos, esposas, maridos, amigos... Recebemos com toda pompa os jornais da TV em casa, de mesa pronta na hora do almoço, ou jantar, ou no conforto da sala por si só já confortável. Trazemos para dentro de nossas casas os mundos fictícios dos escritores de novelas - pois se fossem de livros, nem os conheceríamos. Mas não somos influenciados por nada disso, claro.
Sabidamente, nosso povo não é notório leitor de livros (embora muito leiamos quanto a fofocas em jornais, horóscopos, resenhas de novelas, esportes etc). Não valorizamos nossos pensadores nacionais - apenas quando morrem, dizendo um ''que pena'' aqui, ou ''era tão bom'' ali, ou o comuníssimo ''vá em paz'', muito embora boa parte nesses comentários apenas ache ''cult'' elogiar um renomado escritor que tenha morrido em redes sociais. O que então nos influencia?
Somos violentos? Sim. Nossas estatísticas não mentem. As redes de TV vomitam violência desde crianças (que fui!) até a idade adulta (que sou!). Filmes, séries, novelas... Tudo retrata "a realidade"- dizem os críticos de TV. Mas isso em nada tem a ver com nossos índices de violência. Claro que não! Batem o pé defendendo isso tantos e tantos...
Somos um povo que em nada valoriza nossas origens, os povos que foram maltratados e explorados nesse país. Só falamos deles quando alguém defende cotas - comentários que já ouvi me levam a dizer que não falamos bem, por sinal. Isso também ocorre na TV? Vejo que sim. Citem uma mão cheia, ou seja, 5 atores nacionais devidamente valorizados em presença na mídia que sejam afrodescendentes... Ou 5 desses que sejam descendentes de indígenas? Existem? Gostaria de conhecê-los. Desconheço por ignorância, provavelmente. Mas a mídia em nada tem a ver com isso. Não nos influencia em nada...
Nossas crianças não são mais crianças. Que tolice de frase é essa? Deixe-me explicar. Cite na sua cabeça quantas crianças você tem convívio que tenham ''tablet'', celulares ''da hora'', brinquedos eletrônicos caros, usem roupas ''da moda'' (e se preocupem em estar assim), mexam em facebook... Agora liste crianças que preferem correr nas calçadas, sujar as roupas brincando na areia, no barro, soltando pipas por aí, brincando de pique-esconde e que achem que namorar é coisa de gente adulta? Cite! Faça sua lista.
Meu conceito de "ser criança" estaria encaixado na segunda lista pedida acima. Creio que teríamos a primeira bem mais ampla que a segunda - se houver crianças na segunda lista. Mas a TV, seus comerciais centrados no público infantil em nada tem a ver com isso e, claro, não somos influenciados...
Nossa visão de mundo político. Sim, vamos abordar essa parte do lixo social também. Alguém já viu, leu, acompanhou por si mesmo dados da história de países comunistas? Sabem listar uma mão cheia de pensadores ditos ''de esquerda''? Para dificultar: não vale contar Marx! E o que sabemos sobre socialismo e esses pensadores - queiramos ou não, sim, são pensadores recentes de nossa época e, ao meu ver, de muito valor. O que temos pelo socialismo? Medo? Raiva? Ódio? Algo próximo disso? Acho que sim. Alguém entretanto vê na mídia algo em favor de socialismo? De comunismo? Digo isso, mas dizendo em relação a falar abertamente sobre o que é, não apenas em críticas clichê que adoramos. Vemos algo como documentários sobre os moldes cubanos de formação médica? Sobre os ideais chineses de formação e educação coletivas em um sistema socialista - não socialismo puro, eu sei. Já adianto aos mais afoitos que já iriam criticar o post por isso.
Alguém sabe de alguma notícia enaltecedora em nossa mídia a respeito de socialismo? Ah, Mujica... O ''bom velhinho''. Ele tem apelo de mídia, vende bem... É meritório, não é? O admiro muito... Ora, que bom! Pelo menos sabemos da existência e algo do pensamento dele - será? Mas talvez alguns nem saibam que ele pensa de forma socialista. Afinal, socialismo é coisa do demônio, pode-se dizer. Bradavam isso nas épocas de ditadura, podemos pesquisar e ver. Coisa do capeta! Não é? A mídia não tem (em nada!) nada a ver com isso, claro!
Adoramos capitalismo entretanto, comprar, vender, renovar semestralmente todo nosso aparato tecnológico... E, claro, alguém que seja(se diga isso ou favorável a isso) ou leia socialismo é idiota, hipócrita, pois socialista tem que "odiar" coisas nem pode comprar nada, não é isso? Certo dia, vi alguém criticando outro alguém por esse molde de raciocínio pronto, raciocínio "miojo": pré-moldado, pré-pronto. Ao que entendi, em sendo leitor ou admirador de pensadores socialistas, esse alguém não poderia ter celular, nem gostar de rock, nem ter TV em casa, nem assistir filmes, deveria odiar EUA e querer a morte de todos de lá etc. Aquela série retrógrada e idiota de comentários clichê... Interessante. Dessa forma, em sendo eu, por exemplo, crítico e contrário à exploração portuguesa em nosso país, não poderia eu admirar um bom vinho "Porto", nem muito menos admirar Fernando Pessoa. Claro! Lógico que não... Enfim: a mídia não tem nada a ver com isso...
Sendo assim: que diabos nos influenciam? Mídia? Não. Leitura? Não, pois não lemos. Conversas com nossos amigos? O dono do bar da esquina? O padeiro? Quem nos influencia? Tiramos nossas conclusões mediante qual embasamento teórico, prático? Não sei. Seriamos auto-didatas?
Apenas tento influenciar a mim mesmo pensando que haverá um bom futuro para nós. Afinal, aprendi que esperança é, acima de tudo, para os que são insistentes e cegos.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
de outubro de 2014; disponibilizado inicialmente em outro blog, em janeiro de 2015.