quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Conto sobre a desventura humana

Havia um lugar repleto de humanos. A raça desenvolvida era a deles! Nos livros de história, biologia etc, usavam termos como homo sapiens, essas coisas de literatura científica... Tudo naquele lugar era norteado para aquela espécie: a humana. Alguns humanos entendiam bem que, de fato, eram todos apenas uma raça de animal como outras quaisquer. Esses poucos defendiam o todo e preocupavam-se com a pluralidade dessa sua espécie, mas também com as demais, os outros animais... Porém, o que mais havia era pessoas que se achavam supra-espécie, filhos de Deus ou algo assim. Deus seria o Pai desses filhos, um ser superior e bom, que tudo sabe e tudo vê, mas poucos seguiam essa lógica e agiam descontentando um possível olhar de um Pai apesar das lindas frases e pregações que faziam...

Nesse lugar, essa espécie criou conceitos para manter sua hegemonia. Criou os conceitos de família, semente, base da sociedade. Criou religiões para manter as pessoas sempre pensando em coisas etéreas e em metafísica qualquer. Criou sociedades em prédios, casas, condomínios, fazendas, chácaras... Ambientes rural e urbano povoados! Criou também o dinheiro. Com essa criação, veio o poder - talvez o poder tenha vindo antes e dele tenha-se gerado o dinheiro, mas ambos são um essência do outro. Desde então: criaram problemas!

Dinheiro e poder não poderia ser para todos. Quem os criou não pensou nisso! Daí, uns mais fortes que outros (fisicamente, cognitivamente, historicamente...) passaram a comandar e ter mais dinheiro nas mãos, mais poder, mais posses... Um ciclo vicioso de benesses auto-perpetradas. Séculos e séculos, milênios se passaram. Mortes, guerras... Ascensão de uns, derrocadas de outros impérios. O ser humano não se via nunca plenamente feliz. 

Com o passar dos séculos, dos milênios, a organização das pessoas fez ver que havia numa análise crua apenas duas partes em que a humanidade se dividia: os poderosos e os outros, dentro deles, a imensa maioria era de miseráveis. Os poderosos não aceitavam perder dinheiro ou poder. Os outros, mais ainda os miseráveis, em maior parte, eram pacatos cidadãos comuns, quer fossem do meio rural ou urbano. Porém, alguns desses miseráveis passaram a ver que mereciam ter mais poder, mais dinheiro. O problema que surgia nesse mesmo momento é que queria ter a situação social dos poderosos. Era fato! Daí, uniram esforços nesse sonho que atravessou gerações.

Um dia, surgiu uma revolução que foi chamada de revolução industrial. Desse momento em diante, foi surgindo uma diversificação maios da pirâmide social. Dali em diante, haveria pelo menos três categorias de grupos de pessoas: os poderosos (donos das empresas), os intermediários (com algum poder nas empresas, comandados pelos seus chefes poderosos, mas que podiam comandar os inferiores a eles) e os outros (os pobres, os miseráveis em maioria, tidos alguns deles por operários, quer fossem eles daquelas indústrias, mas também poderíamos dizer dos trabalhadores das grandes plantações, ou de quaisquer instituições que gerassem capital). Os intermediários passaram a ser muito próximos, por convívio, dos seus superiores, os poderosos! Passaram a sentir um conforto bastante razoável a ponto de acharem-se dotados de poder também. Passaram a desdenhar os outros, os miseráveis em especial, os ''diferentes'' deles e dos seus amigos poderosos.

O mundo foi indo adiante como deveria ser... Criaram guerras de poderosos de um canto contra poderosos de outro canto. Os intermediários de ambos os lados digladiando entre si em guerras paralelas financeiras, políticas etc. Os outros, indo às guerras como soldados, morriam! Se não estivessem indo como soldados, estavam fadados a ficar em seus locais sofrendo com escassez ainda maior das coisas como dinheiro, comida, paz... O mundo estava em guerra! Esse sempre era um argumento dos ''superiores'' nas redes de comunicação! Isso acalmava os ânimos daqueles outros, os miseráveis, pois passavam a sensação de que tudo ficaria bem logo, pois seus ''superiores'' estavam velando por eles. 

Sim, sempre precisavam os humanos daquele lugar de algo que velasse por eles, dando a sensação de algum conforto, alguma paz. Vendo isso, alguns desses outros, alguns até miseráveis, passaram a ver nessa demanda por Deus (ou outra alguma coisa de superior do ponto de vista metafísico) uma forma de ganhar dinheiro. Daí, a religião que antes, em essência, existia com incentivos por tornar as pessoas mais reflexivas, pessoas melhores, mais altruístas e trabalhadoras pelo bem, passou a ser motivo de enriquecimento! Sim, alguns desses outros que viram esse cenário passaram a lucrar muito dinheiro vendendo um deus que prometia a ascensão de todos. Nos belos e enfáticos discursos daqueles humanos trajados de religiosos, passava-se a certeza de que todos ali, seguidores, pagadores de compromissos financeiros com seus chefes da religião, ficariam poderosos! Ascensão na pirâmide, na escalada social pautada num guindaste promissor chamado de ''deus''; o Deus anterior (puro, bom, que pregava bondade, amor, fraternidade) perdia espaço para o deus-dinheiro, o deus-poder. Corromperam a religião! Corromperam tudo...

As sociedades existiam com uns diferentes dos outros, desde sempre. Em alguns lugares, as diferenças eram mais marcantes e nítidas. Nunca os ''diferentes'' foram bem tratados. E os ''diferentes'' eram aqueles que os poderosos (e os intermediários também, classe social recente) ditavam. Daí, diferentes eram taxados por cor de pele distinta daquela dos poderosos, ou credo diferente, ou estado de saúde diferente (como por exemplo as deficiências físicas quaisquer que alguns poderiam ter), ou diferentes quanto aos padrões de comportamento ditados por aqueles poderosos, seja no que diz respeito aos comportamentos da chamada família, ou do ponto de vista sexual, ou do ponto de vista de pensar diferente, apenas. Os diferentes, por vezes, foram mortos por alguns poderosos e seus súditos, intermediários e/ou outros corrompidos. Era um cenário estranho e degradante aquele lugar...

Um dia, passaram os outros, mais ainda os miseráveis e insatisfeitos com todo aquele cenário de barbárie social, coletiva, a clamar por respeito, por mais fraternidade, por mais igualdade... Alguns usavam dos argumentos dos conceitos mais puros e bons das religiões tentando ajudar na mudança. Outros levantavam-se em grupos unidos por causas sociais, políticas e econômicas amplas, fazendo discursos contra os ditames dos poderosos e os seus próximos! Outros atentavam-se a exercer com maior afinco o bem em qualquer situação ou profissão que se vissem; achavam naquilo sua forma de mudar o sistema - costumaram a chamar o cenário de ''sistema''. 

Os poderosos não gostaram nem um pouco de ver pessoas usando de suas capacidades de pensar de forma livre! Detestaram os pensamentos e pensadores que clamavam por liberdade e por mais amor, mais fraternidade, menos exploração e menos desigualdades! Não queriam, os donos daqueles discursos, que o mundo de seus filhos fosse tão ruim quanto o que eles tinham e mais ainda quanto o de seus ancestrais! Queriam e passaram a exigir direitos e condições de serem respeitados nos direitos desde os mais básicos, como melhores condições de moradia, de alimentação etc, até direitos maiores como poder amar a quem bem quisessem e chamar de sua família aqueles, quaisquer que fossem, que mais amavam! Claro, isso não se manteria ocorrendo de forma ilesa! Caçaram líderes dos outros, dos miseráveis. Prenderam quando conseguiram! Mataram quando ninguém via - e algumas vezes até com todos vendo! Estupraram os frágeis - fisicamente ou, metaforicamente, suas mentes, ideias e ideais. Perseguiram aqueles que amavam diferente do padrão traçado pelos poderosos. Destruíram famílias as quais não julgavam família. Roubaram dinheiro (e outras coisas mais como o orgulho), na calada da noite, de muitos dos que aos poucos conseguiam crescer sem estar dentro do sistema estabelecido de fomento aos mesmos poderosos de sempre.

Em meio a tudo isso, surgiram formas de comunicação e compartilhamento de experiências as mais diversas. Os próprio poderosos desconsideram o real poder da comunicação entre as pessoas. Viram de início - e isso durou muito tempo - simplesmente como uma forma de ampliar seus poderes, ampliando a capacidade de massificar as opiniões em torno de um padrão de conceitos perpetrados favoráveis ao status quo que eles, poderosos, queriam manter eternamente. No início, com comunicações muito rupestres nas espécie humana, mas com o passar dos séculos, surgiram as mais diversas tecnologias para unir os povos, aproximar a todos e trazer para próximos também seus discursos e noções de vida! A tecnologia desenvolveu-se tanto que até os poderosos perderam o poder sobre o todo. Era o feitiço virando-se contra o feiticeiro, como poderiam dizer alguns. Tornou-se possível compartilhar com dezenas, ou centenas, ou até mesmo milhares e milhões de pessoas discursos, ideias, ideais, sonhos... As insatisfações e constatações de que muitas coisas estavam erradas, mesmo coisas que eram passadas como obviamente certas, tendo como álibi raciocínios de superioridades de raça, ou religiosos, ou outros, tudo isso passou passou a ser pluralizado, compartilhado. Os discursos que antes eram de cada ser consigo mesmo, depois passando a ser de pequenos grupos, passavam a ser discursos em debates amplos, coletivos, a céu aberto ou sob tetos em locais de portas abertas. O mundo passava a respirar diferente.

Vendo o mundo a distanciar-se do controle antes muito bem tramado e estabelecido pelos poderosos de sempre, eles ficaram indignados. Raciocínios de ódio passaram a ser cada vez mais compartilhados. Ódios às pessoas de cor de pele diferente, ou estado social diferente, ou cor de cabelo e tipo diferentes, ou gênero e opção sexual diferente, ou àquelas que não sucumbiam às instituições religiosas de coerção (sim, embora aparentemente contraditório, havia instituições de, ao mesmo tempo, religião e coerção!). Viram na ideia de usar os canais de comunicação plural para compartilhar seus discursos de ódios e espanto uma ótima e fácil alternativa. Chegavam dentro das casas das pessoas com discursos assim e, indo além disso: chegavam até dentro das cabeças e no âmago das conclusões de todos, inclusive de boa parte dos outros e de sua imensa maioria miserável! 

Convenceram parte dos outros, algo menos miseráveis que outros, que eles eram superiores e bem próximos dos intermediários e até mesmo dos poderosos. Deram à essa parte o gosto do poder, o gosto de sentirem-se parte daquele grupo privilegiado. Esses então passaram a tomar para si os mesmos discursos de ódio e espanto daqueles poderosos que os mantiveram por séculos na condição de outros, na miséria! O poder não somente corrompe, mas é confortável e convence com muita facilidade. As pessoas dessa parcela dos outros passaram a odiar em público os que defendiam a outra parcela dos outros, aqueles que viam-se miseráveis, sabiam-se muito distantes dos poderosos e tinham visão pura, ampla, real do mundo, pois viviam nele e não em devaneios! A barbárie tomou a rua pelo excesso de ódio compartilhado, mas os poderosos convenceram de que a barbárie era, na verdade, todo o discurso daqueles que lutavam contra seus ditames políticos, econômicos, morais, religiosos... Tantos, mas tantos que chega a dar dó, chegaram mesmo a esquecer de si mesmos e de suas reais condições de explorados que passaram a viver de sonhos de grandeza. Passaram a defender que o poder ela deles também! Brigaram com seus familiares, amigos etc que não caíram na falácia vendida, comprada por muitos a preço da penhora de suas mentes ignorantes ás mãos (e aos cofres, a bem dizer) dos poderosos.

Aquele lugar havia chegado a um momento ímpar. Poderosos, intermediários, os outros e as divisões dentro das esferas desses outros, estavam todos em polvorosa. O saber era possível a todos - e a sabedoria também, claro! Tudo havia tornado-se plural, exceto o poder; esse ainda era muito bem definido e tramado para as mãos dos poderosos e, no máximo, daqueles intermediários aos quais era dada outorga para usufruto de alguma parcela de poder. Os que conseguiam refletir, os que conseguiam vencer os devaneios enviesados bem como o poder de compra do poder: refletiam muito, pensavam, uniam-se! A pergunta que não calava era: qual seria o fim daquilo tudo? Ninguém sabia! Isso não estava ao alcance do poder de ninguém! Mas o mundo era melhor que antes havia sido - alguns bradavam esperançosos! Havia alguma esperança que pairava no ar, de fato. E todos os sonhadores sonharam com melhores dias a todos. Essa foi a conclusão que tive vendo e pensando sobre aquele lugar...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier