quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Ensaios

"Nasceu cedo demais a criança". Sim, os pais não estavam prontos nem para ser adultos - quanto mais estariam para serem pais? Ninguém saberia responder, decerto, mas fato é que nascera o rebento naquele lar que nem mesmo sabia-se vocacionado para ser mais que uma casa qualquer. Estavam os pais ansiosos, talvez menos que a avó preocupada. Sim, carinhosa e atenta! Falhou como mãe? Não se pode afirmar. Esse medo repercutirá no seu papel de vó ainda por ser exercido? Quem dirá algo? Como culpar uma mãe pelo deslize ou atropelo do tempo cometido pelo filho? Vemos cenas assim diante de nós e em nossa memória com muita frequência, não? Precisamos refletir sobre nós mesmos e como ensaiar um mundo melhor para as futuras gerações.

A criação de um ser humano é um verdadeiro ensaio. Sendo ensaio, ora foca-se num aspecto, ora noutro. A peça da vida vai sendo desenrolada, enquanto ensaiamos os passos para as cenas seguintes, desde o momento da cena atual, vigente, presente... Percebe? Dessa forma, ficam responsáveis os pais ou cuidadores a ensaiar a peça do amadurecimento ao lado daquele ser que ali põe-se como filho. Por vezes, ensaiamos poucas áreas dentre todas da enorme gama de aspectos necessários para o desenvolvimento de um adulto pleno, maduro, apto para os papéis que a peça da vida irá impôr. Eis então que: focando o ensaio em uma área em detrimento de outras, podemos estar criando um problema que, efetivamente, será colhido pelo aluno - muito mais que pelo professor. Compreende?

Criamos filhos hoje focando muito, pelo que vejo, em prepará-los para a vida adulta, mas esquecemos de prepará-los, antes de tudo, para que sejam adultos! Há uma diferença nisso! Afinal, amadurecer demanda tempo! Claro, mas não apenas isso. Pensemos nos exemplos da natureza ao nosso redor: assim como a fruta no galho requer tempo para amadurecer, requer também clima adequado no entorno, um tronco forte fonte de seiva benfazeja... Não se plantam e nem colhem-se frutos com seiva amarga, chuva ácida, tronco frágil, com azedume arraigado. Mesmo que tal cenário seja trajado como natural naquele ambiente. Isso aplica-se também ao processo de ser pai e mãe! Filhos são, antes de tudo: como frutos! Saibamos ser tronco, galho e dar a seiva necessária para seu desenvolvimento!

Muitos pais passam a vida discutindo entre si, desrespeitando-se mutuamente diante dos filhos, mas quererem que aprendam a amar sem medidas. Tantos pais passam anos sem conversar com suas crianças, sem orientá-las adequadamente por acharem difícil tal tarefa de, verdadeiramente, grande responsabilidade. Mas querem que elas exerçam maturidade e "juízo" em suas decisões. Ora, desde a adolescência, momento em que o ser humano mais se atenta e intensifica seu poder de fazer escolhas, uma criança mal conduzida pode e muito cometer erros graves, por vezes irremediáveis. Terão, decerto, toda uma vida pela frente para tentar corrigir, mas, por tantas vezes, sem qualquer sucesso ou possibilidade de recuperar os danos surgidos das escolhas ruins.

Crianças soldado? Há? Sim! Não digo apenas na África, continente em guerras quase contínuas. Digo isso de nossas ruas de grandes cidades! Crianças jogadas sem lar, sem escolas, sem acolhimento nenhum no mundo! Crianças soldado atuantes pelo tráfico. Cena comum? Sim! E crianças modelo? Sim, há! Crianças que são colocadas de mostruário de peças de propaganda para satisfazer os sonhos paternais de notoriedade enquanto dedos apontam-nas dizendo: "que lindo" ou "que linda", num manancial de elogios vazios que mitificam a beleza como padrão único a ser seguido na mente (e na vida) daqueles seres ainda em formação, vulneráveis às más escolhas, maus exemplos. E o que dizer das crianças terceirizadas? Sim, há às tantas! Pais que, usando por álibi a necessidade de trabalhar, colocam suas crianças em escolas, creches etc, permanecendo o mínimo de tempo possível com eles.Ossos do ofício? Pode ser que sim, mas quem não sabe listar pais que, mesmo em casa, estão longe? Chegando em casa cansados, tentando manter o discurso de que estão trabalhando para um futuro digno aos filhos, perdem os primeiros passos deles, as primeiras sílabas ditas, os primeiros acertos e, mais grave ainda: os primeiros erros... Qual o preço disso? Difícil saber. 

Num mundo tão consumido em necessidades de ostentar, ostentam crianças também. Percebe? Ostentam crianças no geral, não apenas enquanto filhos, mas também enquanto afilhados, ou primos etc. Sim? Passam a ser moeda de troca de publicidade auto-induzida de bons padrinhos, boas madrinhas, bons primos e primas, bons pais à elas... Não? Mas não são nada disso em boa parte das vezes! Crianças, antes de qualquer outra coisa, precisam de presença das pessoas! Precisam do carinho delas, da atenção e acolhimento! Não precisam de presentes, mas de presença, correto? Não parece ser claro isso. Formamos uma sociedade de consumo que consome-se! Entende? Ninguém mais tem a presença real do outro. A presença física não basta! É necessária a presença afetiva, familiar, acolhedora, até mesmo presença religiosa e moral - embora sejam termos amplos demais e, por isso, discutíveis! Porém, hoje, pais trocam mais olhares com a tela do celular que com os olhos dos filhos e filhas que, diante deles e a despeito deles: crescem! 

Somos uma geração de imaturos! Não soubemos aprender a ser adultos? Foi isso? Com isso, somos maus pais, maus padrinhos e madrinhas, maus primos e primas... Somos maus exemplos às crianças! Deixamos todas elas expostas às intempéries desse mundo sem dar a elas um abraço carinhoso que passe a mensagem: "estou aqui do seu lado e tudo ficará bem". Não! Não temos exercido o necessário papel de bons exemplos às nossas crianças - não meramente aos nossos filhos! Com isso, os pequenos que nascem hoje precisam mesmo ter espíritos mais evoluídos que nós, sendo "auto-didatas", digamos, em tantas coisas quantas sejam possíveis de ser. Do contrário, no futuro, seremos pais através de tecnologias, não mais através do contato humano, alma a alma, coração a coração - pois é assim que temos, em muito, agido!

Que as redes sociais no futuro, a partir dos nossos descendentes, sejam novamente sociais! Sejam, p.ex., retratadas nas mesas da copa cheias de risos, fartas em comida e papo saudável na presença do calor humano puro, cristalino. Que superemos nossos tempos de mundo meramente informatizado e distante! Que nossas redes de contato social não mais sejam esses atuais, frios, entre fotos programadas para esbanjar alegrias falsas na internet com os quais ensinamos nossos filhos a péssima mensagem de que: mostrar ao mundo algo bom ou feliz é mais importante que sê-lo!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier