Que triste fim é aquele que se dá aos mortos que caminham. Sim! Há seres sem vida que andam por aí. Digo isso daqueles que em nada sentem ou cumprem a vida em sua plenitude, mas simplesmente são escravos dos ofícios que lhes entregaram nas mãos, desde pequenos, lhes dizendo que aquilo, cumprindo cargas de trabalho, seria o conceito real de viver. Coitados! Tenho pena.
Tenho pena daqueles que, como todos os à sua volta, cercados de desesperança, não conseguem retirar a mácula do mecanicismo. Mácula essa que transforma todo o mundo em uma realidade "fordista", maquinal, desumana. Sim, de Henry Ford, pobre coitado. Tornou-se vil com o passar do tempo embora, aparentemente, sua ideia fosse aos olhos alheios, inicialmente, um gênio da humanidade... Pobre coitado. Foi motivo genial de desumanidade na qual nos enfronhamos.
Somos máquinas que possuem sangue ao invés de óleo; articulações e tecidos vivos ao invés de placas de metal morto. Somos fadados a sofrer pelos males que permitimos, mecanicamente... mecanicamente. Deixamos de ver a beleza das coisas, pois não temos tempo."Tempo é dinheiro" e nós somos ausência de tempo. Como haveremos de ter dinheiro? Seria essa a lógica de nossa busca incansável pela renda, pelo consumo, pela autodepreciação?
Perdemos nossa humanidade, nossa capacidade de apreciar o amanhecer, o entardecer, ou os nossos filhos que hoje crescem longe de nós e aprendem coisas que nem de longe foram nós que os ensinamos... Apreciamos apenas a chegada do salário ao início do mês tendo cumprido nossos trinta dias de obrigações. Somos aos nossos filhos muito mais provedores do que pais. Nossos filhos são muito mais consumidores de renda paternal que filhos, companheiros, amigos. Faltam-nos parceria, amizade, companheirismo e, obviamente: falta-nos amor.
Falta-nos tempo para tal? Não. Simplesmente não. Temos as mesmas vinte e quatro horas que desde séculos há. Mas o que fazemos delas? Dormimos um terço, trabalhamos dois terços. E quando resta tempo para o que há além das obrigações? Quando restará tempo para conversas com o filho que a cada dia vai ficando menos pertencente a nós - entendendo que o entregamos de mãos beijadas ao mundo? Quando restará tempo para a viagem que sonhamos desde jovens que um dia fomos? Quando restará tempo para desfrutar das belezas da natureza que, justamente pela busca nada sustentável do capital, hoje temos visto perder-se extração após extração? Quando iremos parar e repensar nossas vidas?
O medo de amanhã vir a precisar de renda maior faz com que todos passem suas vidas trabalhando, trabalhando... A morte, inevitável, eis que principia antes da hora e leva um de nós cedo demais. Choramos... Choramos... Desde esse momento, então, clamamos pelo Deus que cremos com tons de raiva dizendo que esse ente querido nos foi retirado cedo demais. Lágrimas de pura alienação, afinal a culpa foi nossa que desfrutamos pouco do tempo que tivemos com aquela pessoa. Em anda nosso Deus tem de culpa. Saibamos julgar nossas culpas.
Guardo lágrimas que ainda não caíram. Todos nós guardam as suas. E, lágrima a lágrima, dinheiro a dinheiro, acumulando ambos aos tantos, seremos ricamente pobres e infelizes sempre? Então, como, afinal, o presente é uma semente do futuro: plantemos algo novo. Quiçá ainda possamos usufruir de algo bom junto aos que amamos?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
___________________________________
Texto escrito em agosto de 2015.