quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

As atrocidades da carência bruta

Parei e pensei: nossa sociedade está sofrendo. Estamos doentes? As redes sociais vulgarizaram com tamanha exposição as nossas morbidades afetivas - mentais, psicológicas, ou sabe-se lá qual definição dar. A exposição desenfreada de si mesmo numa espécie de grito rouco de: "eu esto aqui!". A porta aberta do mundo virtual... Beleza? Ostentação? Amor - ou falta dele? Alguém percebe o que tem ocorrido? Pode ser, entretanto, apenas uma doença dos meus olhos que teimam em enxergar errado...

A realidade das redes sociais através da ultra-exposição aos olhos alheios pode ser a etiologia desse distúrbio, creio eu. Ainda não sabemos lidar no dia a dia, na vida real com a opinião alheia, como saberíamos lidar com os olhos (atentos ou não) e opiniões nas redes sociais das pessoas com quem temos esse contato? Expressões de felicidade acabam por serem resumidas num sorriso calculado na foto (tantas fotos...) ou na imagem de casais felizes "trajados" em abraços (por vezes) aparentemente forçados em fotos premeditadas que trafegam pela rede. Seriam ou não exemplares de: "olhem para mim" ou "olhem para nós!" - cá estou eu, veja. Será? Acho que precisamos ser notados, comentados, curtidos, falados para nos sentirmos vivos... Não é que isso seja uma doença, claro, mas uma exposição da nossa carência de nós mesmos, talvez. 

Não sabemos estar sozinhos no mundo hoje, concluo. Parece causar alguma dor ou algo de desconforto a solidão testemunhada. A opinião alheia deve, de fato, causar alguma chaga no peito - pode ser isso. Porém, qual a dor que causa estar sozinho? Será tão real assim tamanho apreço dado ao fato de ter alguém do lado na foto? Esse alguém estará nas próximas fotos daí há alguns meses? Vejo uma ânsia imatura de mostrar-se "em relacionamento'', ou acompanhado de alguma forma. Há tantos casais felizes ''eternamente" que não duram nem mesmo um ano. Há também os tantos solteiros convictos que apaixonam-se perdidamente e se calam deixando a dúvida: eram tão convictos assim ou a sua solidão também doía? Há tantos rostos deformados por sorrisos falsos em fotos de perfis de redes sociais... A felicidade que não vem de dentro, mas sim da opinião alheia (de fora) para dentro de si. Entendem? Onde estará de fato a felicidade? Fora? Dentro de si mesmo? E do amor? Haverá um dia a força interna que vence os olhos alheios com auto confiança e auto estima suficientes? O que ocorre conosco? Seremos enfim donos de nossos próprios narizes ou precisaremos sempre de testemunhas para estarmos convictos ou não do que somos e temos?

Onde há felicidade em alarde, descreio do motivo do sorriso exposto na foto. Claro, sou sabidamente pessimista, mas é o que penso por vezes - teimando comigo mesmo se estou errado ou não! Será que o apreço pela beleza, ou pelo relacionar-se, ou a ostentação propriamente dita de vidas felizes está diretamente relacionado à felicidade bruta, pura, real? Será que todo esse alarde de felicidade estampado em perfis de redes sociais não seria mais uma das atrocidades do mundo que tanto nos tortura? Sim, nosso mundo não vai bem. Melhor seria ostentar algo de felicidades, mesmo que irreal? Será que criamos mais uma forma de sofrer, torturando-nos através da vida virtual? Somos carentes, percebo! Mas é parte da condição humana querer bem a alguém, querer sentir-se querido também. Todavia, há tanto amor e felicidade assim como aparentemente nos é dado pelas redes sociais? 

Penso com meus botões que tudo isso que testemunhamos pode ser parte das atrocidades do mundo sofrido que temos vivido. Porém, pelas redes sociais, hoje temos mais voz que há tempos atrás e, com isso, estamos mais disponíveis (e vulneráveis) aos olhos alheios. Atrocidades da carência bruta no mundo. Espero que eu esteja errado. Pensando assim, sorrio para a foto e me deito sozinho.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

O que influencia os brasileiros?

Os brasileiros são influenciáveis? Pelo que? Notoriamente, somos espectadores assíduos de TV, tele-jornais, novelas etc. Acompanhamos e sabemos mais da vida dos atores das novelas que os problemas de nossos filhos, esposas, maridos, amigos... Recebemos com toda pompa os jornais da TV em casa, de mesa pronta na hora do almoço, ou jantar, ou no conforto da sala por si só já confortável. Trazemos para dentro de nossas casas os mundos fictícios dos escritores de novelas - pois se fossem de livros, nem os conheceríamos. Mas não somos influenciados por nada disso, claro.

Sabidamente, nosso povo não é notório leitor de livros (embora muito leiamos quanto a fofocas em jornais, horóscopos, resenhas de novelas, esportes etc). Não valorizamos nossos pensadores nacionais - apenas quando morrem, dizendo um ''que pena'' aqui, ou ''era tão bom'' ali, ou o comuníssimo ''vá em paz'', muito embora boa parte nesses comentários apenas ache ''cult'' elogiar um renomado escritor que tenha morrido em redes sociais. O que então nos influencia?

Somos violentos? Sim. Nossas estatísticas não mentem. As redes de TV vomitam violência desde crianças (que fui!) até a idade adulta (que sou!). Filmes, séries, novelas... Tudo retrata "a realidade"- dizem os críticos de TV. Mas isso em nada tem a ver com nossos índices de violência. Claro que não! Batem o pé defendendo isso tantos e tantos...

Somos um povo que em nada valoriza nossas origens, os povos que foram maltratados e explorados nesse país. Só falamos deles quando alguém defende cotas - comentários que já ouvi me levam a dizer que não falamos bem, por sinal. Isso também ocorre na TV? Vejo que sim. Citem uma mão cheia, ou seja, 5 atores nacionais devidamente valorizados em presença na mídia que sejam afrodescendentes... Ou 5 desses que sejam descendentes de indígenas? Existem? Gostaria de conhecê-los. Desconheço por ignorância, provavelmente. Mas a mídia em nada tem a ver com isso. Não nos influencia em nada...

Nossas crianças não são mais crianças. Que tolice de frase é essa? Deixe-me explicar. Cite na sua cabeça quantas crianças você tem convívio que tenham ''tablet'', celulares ''da hora'', brinquedos eletrônicos caros, usem roupas ''da moda'' (e se preocupem em estar assim), mexam em facebook... Agora liste crianças que preferem correr nas calçadas, sujar as roupas brincando na areia, no barro, soltando pipas por aí, brincando de pique-esconde e que achem que namorar é coisa de gente adulta? Cite! Faça sua lista. 

Meu conceito de "ser criança" estaria encaixado na segunda lista pedida acima. Creio que teríamos a primeira bem mais ampla que a segunda - se houver crianças na segunda lista. Mas a TV, seus comerciais centrados no público infantil em nada tem a ver com isso e, claro, não somos influenciados...

Nossa visão de mundo político. Sim, vamos abordar essa parte do lixo social também. Alguém já viu, leu, acompanhou por si mesmo dados da história de países comunistas? Sabem listar uma mão cheia de pensadores ditos ''de esquerda''? Para dificultar: não vale contar Marx! E o que sabemos sobre socialismo e esses pensadores - queiramos ou não, sim, são pensadores recentes de nossa época e, ao meu ver, de muito valor. O que temos pelo socialismo? Medo? Raiva? Ódio? Algo próximo disso? Acho que sim. Alguém entretanto vê na mídia algo em favor de socialismo? De comunismo? Digo isso, mas dizendo em relação a falar abertamente sobre o que é, não apenas em críticas clichê que adoramos. Vemos algo como documentários sobre os moldes cubanos de formação médica? Sobre os ideais chineses de formação e educação coletivas em um sistema socialista - não socialismo puro, eu sei. Já adianto aos mais afoitos que já iriam criticar o post por isso. 

Alguém sabe de alguma notícia enaltecedora em nossa mídia a respeito de socialismo? Ah, Mujica... O ''bom velhinho''. Ele tem apelo de mídia, vende bem... É meritório, não é? O admiro muito... Ora, que bom! Pelo menos sabemos da existência e algo do pensamento dele -  será? Mas talvez alguns nem saibam que ele pensa de forma socialista. Afinal, socialismo é coisa do demônio, pode-se dizer. Bradavam isso nas épocas de ditadura, podemos pesquisar e ver. Coisa do capeta!  Não é? A mídia não tem (em nada!) nada a ver com isso, claro!

Adoramos capitalismo entretanto, comprar, vender, renovar semestralmente todo nosso aparato tecnológico... E, claro, alguém que seja(se diga isso ou favorável a isso) ou leia socialismo é idiota, hipócrita, pois socialista tem que "odiar" coisas nem pode comprar nada, não é isso? Certo dia, vi alguém criticando outro alguém por esse molde de raciocínio pronto, raciocínio "miojo": pré-moldado, pré-pronto. Ao que entendi, em sendo leitor ou admirador de pensadores socialistas, esse alguém não poderia ter celular, nem gostar de rock, nem ter TV em casa, nem assistir filmes, deveria odiar EUA e querer a morte de todos de lá etc. Aquela série retrógrada e idiota de comentários clichê... Interessante. Dessa forma, em sendo eu, por exemplo, crítico e contrário à exploração portuguesa em nosso país, não poderia eu admirar um bom vinho "Porto", nem muito menos admirar Fernando Pessoa. Claro! Lógico que não... Enfim: a mídia não tem nada a ver com isso...

Sendo assim: que diabos nos influenciam? Mídia? Não. Leitura? Não, pois não lemos. Conversas com nossos amigos? O dono do bar da esquina? O padeiro? Quem nos influencia? Tiramos nossas conclusões mediante qual embasamento teórico, prático? Não sei. Seriamos auto-didatas? 

Apenas tento influenciar a mim mesmo pensando que haverá um bom futuro para nós. Afinal, aprendi que esperança é, acima de tudo, para os que são insistentes e cegos.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de outubro de 2014; disponibilizado inicialmente em outro blog, em janeiro de 2015.

Olhos à França?

O Brasil de fato é um país interessante. Imensos são o clamor e a comoção devido aos fatos ocorridos na França. Claro, toda intolerância (religiosa, racial, política etc) deveria causar espanto, revolta, indignação. Correto!

Todavia, aparentemente, nos comovemos apenas quando os fatos nos são externos  ou quando há bombas envolvidas? É isso? Afinal, intolerância mata em nosso país! Ou não? Não vemos isso? Estamos cegos? Cegos e mudos, talvez seja a verdade.

Intolerância fomenta/permeia discursos de vários "religiosos" que, diga-se de passagem, estão a cada dia mais "podres de rico" em nossas terras - a despeito de contribuírem com a miséria de tantos devotos do "dízimo, sem falar da escravidão "moral" que se lhes impõem. 

Além do contexto religioso, como tem sido exposto mundialmente (e, não seria diferente em nosso país), nas terras brasileiras a Intolerância cria inimizades infindas, inclusive com viés racial e fingimos não ver, ou esquecemos disso, como nos é habitual - diga-se de passagem nosso processo eleitoral recente. 

Poderíamos ainda pontuar as não menos importantes intolerâncias quanto, p.ex., às brigas de trânsito, às ofensivas violentas contra homossexuais e mulheres, ou à frivolidade do futebol... Somando tudo, teríamos tantos e tantos mortos e feridos, sabe-se lá quantos milhares...!

Tanta intolerância exposta dia e noite, porém aqui estamos habituados com a hipocrisia, cegos e mudos? Seria isso? 

Enfim, que Deus abençoe a França e, antes que nos seja tarde: livrai-nos da nossa cegueira.

Amém.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

Dinheiro não se come

''Mãe, tenho fome!'' - disse o menino já um pouco desesperançado. A mãe, sem palavras, redarguiu dizendo: ''espere mais um pouco, filho''. O dia começou assim naquela casa, retrato de tantas outras casas semelhantes aquela.

O pai acabara de chegar de seu turno à noite como porteiro do prédio da zona sul daquela cidade, repleto de prédios tão imponentes, com gente tão importante. Bairro esse construído onde havia uma linda floresta que fora consumida para erguer arranha céus belíssimos aos olhos desatentos e talvez um pouco irresponsáveis...

''Pai, por que você demorou tanto?'', indagou o filho menos. O pai, cansado, mas tocado pela pergunta, não quis explicar que um dos ônibus que pega habitualmente havia quebrado no caminho de volta. Já era velho demais - não o pai, mas o ônibus, muito embora o pai já nem fosse tão jovial assim para insistir em voltar a pé como anos atrás ainda fazia. Disse apenas a seu filho que o dia havia começado tumultuado. Era costume tumultos assim passarem despercebidos das esferas superiores daquela cidade - como em tantas outras. Afinal, quem usa transporte público e dele depende, pouca voz tem nas esferas de comando social, correto? Ele nem queria pensar. Apenas pegou seu jornal comprado com alguns centavos no caminho de volta. Sim, era um jornal barato. Mais ainda eram as suas reportagens sem sentido algum, apenas sensacionalismo puro...

A campainha tocou. Era o carteiro. Trazia uma intimação ao pai que há meses estava devendo um banco no qual havia contraído uma dívida mascarada em empréstimo. Ele havia faltado uma das audiências para negociação. Sentia vergonha e medo. Mais do segundo que do primeiro. Mas temeu ler a carta. Sim, estava sendo intimado com nuanças de agressividade na carta. Ele não queria tornar-se vilão naquilo que apenas fez por querer melhores condições à sua família. Ele havia reformado a casa e construído um quarto de estudos ao seu filho mais velho que tanto sonhava com a faculdade, mas hoje era obrigado a trabalhar após a escola para somar renda ao término do mês naquela casa. O sonho não havia morrido na mente de seu pai - embora estivesse já bastante adormecido na realidade daquele jovem de 16 anos que era obrigado a trabalhar. 

Lá fora, no bairro onde moravam, caminhões e tratores levantavam enorme poeira na construção de uma nova auto-via. Sim, seria enorme passo ao progresso. Mas, pensava o pai: ''progresso de quem?''. Ele apenas esperava que não fossem desalojados, nem seus vizinhos, como desculpa de que estariam na frente do caminho das obras da prefeitura. Ele torcia em silêncio para que assim não fosse. O quintal que dava para uma enorme mata virgem, era hoje um amontoado de sucata, entulhos e materiais de construção onde passaria a nova estrada, onde ao fundo seriam construídos prédios. Diziam que aquele bairro seria promovido com construções para a classe média, em preços acessíveis. Será? Ele sabia que não.

O córrego em que havia crescido nadando nele já havia secado. O esgoto passava agora por debaixo da terra. Isso era um sucesso ao sanitarismo. Claro! Mas ele sentia tanta saudade do córrego, dos peixes, da mata virgem. Como era bom ter um quintal como antes ele tinha, com uma visão tão bela da natureza... Hoje, via pó de uma futura estrada que enevoava seu sonho de um lugar tranquilo para educar e ver crescerem seus filhos. O progresso é barulhento, pensou ele em silêncio.

Jogando o jornal de lado, bom leitor como era, não aguentava ler tudo aquilo. Uma enormidade de acusações tendenciosas e cruzadas no mais famoso esquema do ''sujo falando do mal lavado''. Sim. Em tons de superioridade, um jornalista qualquer acusava uma pessoa qualquer de uma coisa qualquer. Corrupção? Tráfico? Violências? Tudo era parte de um cenário catastrófico em que o poder a todo custo corrompia pessoas a tantas vertentes de erro. O corrupto querendo comandar; o ladrão assassino que assaltava para conquistar bens que não tinha, mas corrompeu-se acreditando serem essenciais mesmo que conseguidos assim; o traficante querendo mandar e desmandar, tendo se tornado herói em sua causa vil, em sua própria cabeça e aos olhos dos seus comandados que o temem... Ah, o progresso trouxe tantas coisas deletérias e mais ainda destruiu não apenas as coisas essenciais da natureza, como a mata e o córrego antes vistos do quintal, mas destruiu a essência própria das coisas belas e boas que ele sonhava ver perpetuarem no ser humano, mas não via mais. Como era bom quando essa realidade atroz não havia, trazendo tantos clamores por dinheiro, por poder - simplesmente por poder, em linhas gerais, ele sabia.

Disseram certa vez que: ''quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês entenderão que dinheiro não se come''. Algo pessimista essa frase? Não! Simplesmente é uma verdade resumida em traços bem sinceros. Ele pensou isso calado. Olhou para seus filhos e pensou seriamente em que rumos eles estariam crescendo. Não sabia, apenas esperava que a estrada que estava sendo construída na vizinhança trouxesse algo de bom, mas ele desconfiava que não.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de abril de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

Je Suis Stupide


Estou enfarado. Cansei de ser humano! Melhor seria ter nascido cão, animal dócil, amoroso e que consegue acreditar no amor de seu dono mesmo apanhando e sendo esquecido como animal qualquer. Há algumas semanas, atentados mataram jornalistas franceses. Vimos isso! Pessoas morreram. Claro que deve haver o luto. Mas o que fizemos? Clamores de um sentimento de revanchismo débil. Somos estúpidos até mesmo para entender nossos próprios sentimentos. Sim, é fato: extremistas islâmicos mataram acreditando defender a honra de sua religião. Esse é o fato! Matar é errado, óbvio - pelo menos deveríamos pensar assim. Mas essa máxima não se aplica a uma enormidade de acontecimentos de nossa história recente e antiga.

Aos olhos daqueles extremistas e de líderes de seu povo, suas raízes islâmicas foram pisoteadas com obscenidades tendo na liberdade de expressão seu álibi; sentiram-se de fato ofendidos! Coaduno com a dor dos familiares dos que morreram, mas coaduno também com a mágoa trazida das ofensas religiosas depravadas - obviamente não coaduno com o ato extremista.

Não há consenso nem mesmo em nosso país sobre limites (se há ou não, inclusive) para a liberdade de expressão, mas tomamos toda a liberdade junto aos clamores de ''jesuischarlie''. Como assim? A ofensiva desconstrução de ideais religiosos em traços de um desenho desdenhoso é lícita aos nossos olhos então? Os que se ofenderam estão ofendidos em vão, pelo que entendi? Queremos tornar leves as ofensivas charges dos cartunistas daquela revista francesa sem nem mesmo refletir? Triste é saber que isso faz parte do nosso desdém corriqueiro às causas ''não-cristãs'', digamos assim. A ''bola da vez'' agora é o anti-islamismo.

Aprendemos pela mídia a odiar os islâmicos. ''Não há nada disso'', dirão afoitos alguns hipócritas. ''Eles são terroristas'', irão contemporizar outros não menos hipócritas. Afinal, o que vale é que estamos construindo uma guerra contra esses ''não cristãos''. Correto? Dirão por aí: ''eles são infiéis!'' - ops, isso não, pois é termo de gente islâmica.

A mesma França que sofre ataques assim hoje, há pouco mais de 20 anos auxiliou um dos maiores massacres da história. Ocorrido na África, o conflito no país Ruanda. Alguém ouve falar? Claro que não! Inclusive, nem mesmo na época se falava - afinal, todo o mundo estava em polvorosa com a Copa do Mundo de 1994... Quem iria parar e retirar os olhos da TV, úmidos de emoção pela bola rolando, para chorar pela morte de mais de 800 mil pessoas naquela localidade? Essa mesma França participou com auxílio militar aos hutus na sua caça animalesca aos tutsis. Alguém lembra-se disso? Alguém viu? Não! Não querem que vejamos. Pior que isso: não queremos ver. Facões eram usados para matar, decapitar, decepar membros de tutsis - mulheres, crianças, idosos...

Não queremos ver? Melhor foi então ficar em casa para ver e rever a Copa do Mundo com seus desdobramentos na época. Melhor hoje também seria ficar em casa assistindo os clamores atuais de ''jesuischarlie'' e acompanhar discursos verborrágicos sem sentido algum nessa temática pelas redes sociais. Porém, triste saber que nessa mesma época inúmeros na Nigéria são mortos por psicopatas chamados de ''extremistas''. Quem defenderá agora os civis nigerianos? Não sei. Tenho pena em saber que ninguém fará nada. Mas sei que países ajudarão direto ou indiretamente os extremistas locais. Claro. Eles , assassinos, querem armas! Outros, doentes por dinheiro, querem mais poder.

Triste pensar que a realidade humana é tão vil, tão cruel com os que nos são diferentes. Abominamos os ''não-iguais'', seria talvez politicamente correto falar assim. Adoramos a hipocrisia do politicamente correto hoje! Seria bom se adorássemos servir de fato a algo superior, quer seja cristianismo ou qualquer uma das filosofias religiosas que há. Mas não! Melhor aos olhos de todos mesmo é não pensar! Dói o peito quando vemos o que somos. Dói a alma.

Quem quer ter dolorida a alma? Nada de dores! Nada se compra para curar essa dor, logo: a solução é que não doa! Se algo doer, que sejam as lamúrias de povos que desconhecemos e não temos interesse de conhecer. Penso eu: se houvesse ''torres Eiffel'' ou outras belas construções/opções turísticas europeias em Uganda na época, olharíamos melhor para aquele local? Sim, é um raciocínio imbecil, mas alguns entenderão. É uma questão religiosa tudo aquilo e tudo isso hoje? Questão de mercado? Questão desumana puramente, simplesmente? Não sei... Infelizmente não sei! Doem em mim muitas dores do mundo...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

(Traços do massacre em Ruanda numa escola infantil. Parte de uma época que ninguém viu...)

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de janeiro de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog.

Sobre construções (e desconstruções)

A vida é, na verdade, um construir-se e um desconstruir-se para reconstruções necessárias. Somos seres inacabados. Guimarães Rosa já defendia essa tese, por sua vez, já debatida por grandes mentes do passado. Verdade é, creio eu! Não posso dizer: verdade é, portanto, pois sabe-se lá o que pensariam disso. Estamos na época do ''politicamente correto'', é verdade. Penso então que nem todos acham mentes como Guimarães Rosa brilhantes... Correto? Faz parte da construção (e desconstrução) da sociedade, esse imenso organismo, aprender a quem quer reverenciar e seguir... Estamos ainda aprendendo.

Precisamos seguir rumos, mentes, ideias e filosofias. Disso tudo surgem os ideais! Tantos batem no peito com empáfia acreditando serem livres pensadores, mentes abertas às realidades cosmopolitas, desfeitos quanto a quaisquer preconceitos. Sabemos que pessoas assim são tolas, mas não podemos falar. Pessoas tolas são muito melindradas! Seguimos o mundo convivendo então com pessoas que dizem não crer em nada nem seguir nada, acreditando-se pensadores independentes, assim como há pessoas que orientam-se por filósofos quaisquer que sejam - pensadores da condição humana, pensadores religiosos, pensadores econômicos, pensadores políticos... Há esferas de pensamentos e, com elas, filosofias demais para o mundo. Isso é essencial! Estamos nos construindo. Porém, também nos desconstruindo. Vejo muito triste isso... Espero estar vendo errado!

Precisamos de mentes que pensam e refletem. Precisamos de pensadores! Quem dera todos entendêssemos sua importância e lutássemos pela sua devido valorização. Porém, coitados, morrem quase todos largados em maior ou menor grau de relevância. Decerto, nada intentam nos meandros do capitalismo chulo como quem faz-se pensador para enriquecer. Isso podemos reservar como caminhos aos pensadores do capitalismo, ou do poder econômico, ou tantos exemplos de pensadores políticos. Grandes pensadores que visam, focados, o bem estar humano acima de tudo, intentam difundir seus ideais sem trazer para si méritos exclusivos ou riquezas escusas. Não querem ''confetes'', ''serpentinas''... Quem faz o carnaval com as ideias alheias é a mídia que, em vendo valores naquilo, repassa pensamentos na medida do que lhe convém. Sim, na medida do que lhe convém! Afinal, os poderosos da mídia querem apenas ganhar dinheiro às custas de um pensamento alheio, uma ideia, uma filosofia qualquer e se apoderar deles até onde seja conveniente fazê-lo.

Estamos diante de um cenário estranho em que mentes menos favorecidas do ponto de vista do pensamento e reflexão amplos - repito, de pensamento, não disse inteligência! - estão sendo perpetuadas, mantidas na mídia, mantidas, com isso, no dia a dia e mentalidade ainda em formação de nossa sociedade. Sim, redarguirão alguns afirmando que todos podem induzir uma corrente de pensamento. Claro! Estamos eternamente em formação, é lícito e justo dizer. Mas correntes de pensamento são mais ou menos aprofundadas em benefícios ao todo. Dessa forma, vemos correntes culturais em nosso país advindas das influências externas (tantas!) trazidas desse mundo globalizado que temos estando a engolir nossas raízes a todo custo. Estamos corroendo alicerces de nossa nação sem nos atentarmos a isso, aparentemente. Mentes que difundem alguns desses pensamentos, tomadas de enorme poder dado pela mídia (e pelo capital!), atingem os mais recônditos locais do nosso país e, nisso, sufocam as manifestações definitivamente populares, nacionais que deveriam perpetuar-se, mas as desenhamos nesse processo vulgar de desconstrução. Vemos um cenário de morte à cultura nacional, estando essa realidade mortífera a ser aplaudida de pé, conosco de olhos abertos - porém cegos, é o que entendo!

Repensemos nossos gostos musicais, nossos gostos por leitura, nossos gastos intelectuais e culturais. Nossos gostos quanto à cultura estão envolvidos numa carapaça (vendida como inofensiva) de globalização e intenções de riqueza enormes, camufladas, mas - como nos é cômodo - nem mesmo se fosse cristalina tal influência nos daríamos conta dela ou nos atentaríamos. Estamos entorpecidos a cada dia mais por uma realidade que nos consome as entranhas culturais, destroçando a cultura brasileira e raízes de nosso povo, bem como deixando-se perder no tempo os pensadores brasileiros, os ideais nacionais que até a globalização ainda mantinham alguma força estável, mas vão perdendo, perdendo, perdendo rumos, força e credibilidade quanto aos discursos em defesa dessa realidade pela qual nos deixamos ser engolidos. Saibamos valorizar nossa cultura que ainda habita nosso solo pátrio perdida entre quatro paredes de pequenas localidades de diminutos, médios e grandes centros - saibamos disso! Saibamos valorizar antes que nos tornemos estrangeiros em nosso próprio país.

Diz-se que a colonização estrangeira é tida como encerrada na proclamação da república. Queria que assim tivesse sido, mas creio, pensando profundamente sobre o assunto, que está apenas começando novamente. Precisamos reconstruir a nação dos alicerces que ainda restam. Caso contrário, dentro em breve, quaisquer intenções de reerguer nossa cultura serão fadadas a agir a partir do pó, apenas do pó do que fomos culturalmente, que terá restado da desconstrução - e desserviço! - que temos perpetuado na pátria brasileira.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

A regressão humana

Ao longo da vida, aprendemos o que é crescer. Quando crianças, todos tomam decisões quanto ao que nos seja melhor; pais, parentes, amigos... Eis então que crescemos, capacitamo-nos quanto aos deveres da vida. Não é verdade? Desde então, passamos a exigir menos dos outros e tornamo-nos escritores da própria história - claro, nunca sozinhos, pois precisamos sempre de ombros amigos nas grandes decisões.

O ser humano é antes de mais nada um ser social. Precisa do entorno repleto de rostos e caras conhecidas. Tem dificuldades de embrenhar-se em mundos que desconhece. Procura sempre amizades, afins para construir passo a passo seus caminhos. Isso também ocorre quanto à sociedade como um todo. Enquanto brasileiros, por exemplo, precisamos de países amigos, colegas de ideais e não apenas para investimentos. Dessa forma, temos o conceito de uma sociedade universal que inexiste, diga-se de passagem. Caso sejamos dotados dessa ou daquela orientação político-econômica, seremos mais ou menos bem aceitos pelos países ao redor. Correto? Sim! 

Vimos esse cenário tantas vezes ao longo dos séculos do conhecimento da história humana. Apogeus e declínios, tantos. Pensadores que cresceram, divulgaram seus ideais e, dependendo de serem ou não aceitos, foram transformados em mártires vivos sob aplausos da maioria ou em cadáveres adorados por alguns. Vemos isso novamente ocorrendo sob nossos olhos. A mais recente proposta ao exercício da tolerância veio da Grécia. Após escândalos e divergências políticas internas, o país ruiu suas raízes rumo ao capitalismo e por ora clama em aplausos por esperanças no novo governante. Socialista? Nunca se sabe! Partidos são meras bandeiras para aquisição de poder. Por trás delas, nunca sabemos quais são os verdadeiros ideais. A história nos dirá - caso permitam o exercício do poder da esquerda por lá.

Preocupo-me! Ucrânia vive uma crise entre ''capitalismo x socialismo''. Europa novamente, como um todo, viverá isso agora referente ao caso: Grécia. O que será feito? Crise mundial, claro. Econômica, política, social, não podemos esquecer. Mas não nos esqueçamos e Deus nos livre dela: haverá uma crise bélica? Em pleno ano de 2015, veremos novos rumores de bombas, ataques, revanchismos infantis de outrora ainda arraigados nas mentes dos países? Não sei. Apenas preocupo-me, pois temo pelo pior. Deus salve a humanidade - e me salve do habitual pessimismo meu.

O mundo passou a criar a falácia de que o socialismo é coisa endemoniada. Claro! Não surgiu da hegemônica ''Meca'' do capitalismo: EUA. Vejo como sendo algo assim a razão dessa tamanha crítica aquele modelo de política de Estado. Quaisquer ideais ditos de esquerda serão mal vistos até sabe-se lá quando. Isso ocorreu em Cuba. Sim! Por qual motivo Cuba não podia fazer comércio com outros países? Por ser socialista? Medo do capitalismo ao ver outro país que optou pela ''esquerda''? Ahh, era só por causa da aliança com URSS na época, não é? Não creio... Há muito mais que isso! Tememos o alastramento dos ideais de esquerda. As ideias de caráter socialistas são como um todo negadas. Ninguém pára para aprender, repensar e ver se há algo de verdadeiro ou ''aproveitável'' nelas. Apenas seguimos o que os filmes, os jornais e nossos antepassados criados naquele mundo que brigava entre capitalismo e o diabo (o socialismo) dizem. Logo, não seria difícil entender o porquê de tudo isso que vemos ainda hoje. Ora, respeitamos sempre em inúmeras crises mundiais a ''hegemonia'' de certos países. Eis então que devemos respeitar a hegemonia de um país que quer e votou por ser de esquerda, não? Não! Não somos bonzinhos assim. Jesus ensinou a tolerância, Buda também, dentre tantos outros... Mas somos mais adeptos do poder do capital que do poder e norteamentos de Deus.

Surge então o cenário em que todos voltam-se às redes de TV, aos jornais e ajoelham-se, como habitual, pedindo: ''o que devo pensar?''. Sim, todos exercem a alegria insossa da ''liberdade'' moderna, camuflada na opressão de ideias e ideais aliados aos interesses do capital. Mas não vemos isso, afinal, o conhecimento e o despertamento surgem quando nos atentamos para aquilo que nos induzem pensar, debatemos conosco mesmos sobre aquilo e tomamos conclusões. Não se consegue, entretanto, concluir nada diferente quando engolimos as conclusões pré-prontas que nos jogam em casa pela TV e mídia no geral. Informação hoje é como uma massa pré-pronta: recebemos ela via tecnologia, aquecemos no aparelho televisor e ingerimos após. Não preparamos mais nada sobre o que devemos pensar. Apenas pegamos o que nos induzem pensar, o que nos convertem a pensar. Estamos regredindo!

Testemunhamos um real cenário de possível caos que será dado pela dificuldade das potências capitalistas em aceitar o aumento do ideal socialista por outros cantos do mundo. Sim! Há pessoas insatisfeitas no mundo capitalista mesmo com seus iPhones, TVs de 60 polegadas; algo deu errado no ''poder de compra'' das grandes hegemonias mundiais do capital. Há pessoas repensando esse poder e suas formas de agir no mundo tão desigual que temos. Algumas pessoas estão começando a pensar e entender que os avanços devem sim ocorrer, que as tecnologias nos são úteis, que as riquezas devem existir, mas estão entendendo e bradando aos berros já hoje para que haja mais igualdade, maior distribuição de riquezas e maior acesso ao conforto para mais e mais pessoas! Sim! Os mais imbecilizados dirão que isso é hipocrisia, pois os ''esquerdistas'' adoram produtos tecnológicos, como se traíssem seus ideais. Seria isso? Gargalho quanto a tamanha imbecilidade. Produtos comerciais e tecnológicos devem sim existir sempre, porém devemos repensar o enorme poder de enriquecimento que motiva as maiores dominações de mercados como vemos. Fato. Pela lógica ''embrutecida'' desses cidadãos que abominam ideais de esquerda e temem pelo seu crescimento, um cidadão adepto do socialismo ou de seus ideais não poderia então receber uma vacina, ou tomar um remédio, correto? Entendem a imbecilidade? Sim, pois celulares modernos, TVs e computadores não poderiam ser usados por eles em sendo produtos do mundo capitalista e ''blábláblá''. Correto? Vacinas e remédios também o são. Comida industrializada também... Socialistas não poderiam então se vacinar, nem tomar remédios, nem comer? Sabe-se lá. Cada um cria sua própria lógica.

Não há como não rir quando se senta para debater algo com alguém denominado de direita - daqueles que não aceitam opiniões contrárias. Não são raros os exaltados de ambos os lados, mas os de direita me causam riso. Mas, melhor rir em silêncio! O capital torna as pessoas muito dependentes de deuses novos, quais sejam dinheiro propriamente dito, ou, não esqueçamos: indústria bélica. Não? O poder armamentista dos países de direita é aparentemente negado. Apenas países ''anti-capitalismo'' são vistos como perigosos. Daí, entendo que aparentemente esquecemos de estudar história no colegial quando vimos que as duas bombas atômicas jogadas no mundo até hoje, matando mais de 160 mil japoneses na segunda guerra mundial foi jogada pelos EUA. Correto? Acho que esquecemos ou nos ensinaram errado?

Enfim, temo pelo pior. Temo por nós mesmos e mais ainda pelos nossos descendentes. O futuro nos dirá o quanto estamos regredindo. Estamos a dar passos para trás vendo passos para frente sendo dados por ideais diferentes do apregoado pelo capital. Estamos nos corrompendo cegamente pelos ideais de ódio aos ''diferentes'' hoje em dia. Vemos um anti-islamismo, um anti-socialismo... Mas defendemos como se eles, apenas eles, estivessem caçando algo. Não! Nós os caçamos. Nós destruímos também! Potências capitalistas são e foram muito más em diversas épocas, em diversos momentos. Mas, afinal, não seria então o capitalismo que nos dá as TVs de 60 polegadas? Não é o que pensam? Sim! Nada de pensar então. Aguardemos a próxima pérola tecnológica capitalista. Que dessa vez não seja outra arma de destruição em massa, peço a Deus...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

O lado negro da forca

Fiquei habituado a pensar. Sou chato! Insisto comigo mesmo nesse ideal, embora tanto nos ensinem a não pensar muito hoje. Digo isso sobre as redes de mídia no geral, também sobre os governos (mantidos em maior ou menos relevância pela ação da mídia). Digo isso pelos cenários que vejo ao olhar para qualquer lado hoje. Somos educados a não pensar demais. De preferência, nem mesmo pensar, é lícito dizer. Afinal, pensar gera conclusão sobre um tema, ou vários, e de conclusões surgem novidades, por vezes, ideias e ideais novos. Ninguém que tem poder nas mãos quer coisas novas, novidades quais sejam e em qualquer temática. Não pensar é a moda da mídia.

Vivemos em um mundo que nos ensina a querer sempre mais e mais coisas. Sim, computadores revolucionaram. Mas não querem apenas computadores puro e simplesmente: todos querem a cada parcela de meses trocar, trocar, trocar por novos e mais novos produtos tecnológicos. Em tantos exemplos, nem mesmo a pessoa precisa daquela novidade, mas sente que precisa daquilo para ser feliz. Sente que sem aquilo não estará inserida na realidade do mundo. Sente-se à deriva, sabe-se lá. O advento das coisas sendo produzidas em tão grandes escalas e com tantas novidades por minuto fez o homem não saber mais o que quer. Ele quer tudo quanto haja, não valoriza o que já tem, não quer saber de poupar, guardar as coisas que lhe são úteis. Quer trocar por novos itens que por inúmeras vezes nem sequer os irá usar ou saber pra que comprou - mas ele precisa comprar.

Esse lado obscuro do mundo capitalista ninguém vê. Criaram um mundo em que a todo tempo e a toda hora coisas devem estar sendo vendidas, produzidas para no dia seguinte estarem à venda. Pessoas no mundo todo estão ansiosas pelas novidades assim como a criança espera com fome a mamadeira próxima. Sim, estamos famintos por novidades assim como se houvesse um vazio em nós a ser preenchido, porém eis que logo ele esvazia de novo e precisamos comprar mais... O que sustenta isso? Quem enriquece com isso? Nós é que não somos! Somos meros compradores de elite ou comuns, mas todos vivem de comprar, comprar e querer sempre mais além do que o vizinho já possui, correto? Estamos às avessas.

Já disseram que rico é aquele que precisa de pouco. Ou seja: seria rico aquele que chamamos de pobre, mas que olha para seu entorno e não sente falta de nada. Pode haver isso? Pode! Mas nossa cabeça embriagada com necessidade de entupir prateleiras e armários com novos utensílios da modernidade não consegue ver a doença que lhe consome as entranhas. Somos uma sociedade doente que quer sempre mais, clama sempre por mais e mais coisas, quer tudo ao tempo e à hora que deseja. Sim, logo ali. Geração ao estilo ''fast-food''. Consumir produtos como se houvesse uma fome deles a preencher o vazio que mencionei acima. Quem quer olhar para si e saber-se vazio? Ninguém! Mais fácil e comprar e vencer o vizinho na busca por mais e mais ''posses''. Correto?

Enquanto nos entupimos de produtos para manter o status quo de promessas sadias do capitalismo que somos, tantos sofrem pelo mundo explorados em empregos (ou como dizem hoje: sub-empregos) sucateadores da condição humana. Sim! Tantos que, aos moldes de nossa cultura ocidental, poderíamos dizer estarem sendo escravizados caso trabalhássemos como eles e sob aquelas condições. No mesmo tempo e em mesma intensidade que eles trabalham, estaríamos revoltados - mas não nos revolta a condição que criamos para manter o mundo capitalista aos moldes de tamanho consumismo.

Somos, digamos assim, atentos? Não! Não queremos saber do sofrimento alheio. O que nos faz sofrer é, ver nas propagandas já anunciados novos aparelhos ultra-modernos e qualquer outro novo artefato de importância (duvidosa, tantos deles!) e ainda não possuí-los! Correto? Criamos uma forca na qual nós mesmos nos enforcamos sedentos por consumir. Forca essa que nos mantém sempre na necessidade absurda de gastar e vencer a competição social de quem possui mais. Nisso, vamos nos matando num processo de consumir que na verdade nos consome. Imaginamos estar subindo alto nas escalas humanas da vaidade, porém, chega a hora que caímos e nos vemos enforcados com o padrão desenfreado que criamos. Estamos então, digo e repito: sendo enforcados aos poucos!

Apesar disso, somos cegos demais para ver e voluntariamente ignorantes demais para entender o lado negro dessa forca! Sim, há o lado negro da forca e estamos nos matando - e matando pessoas - com isso! Habitamos a ditadura do capital! A ditadura do comprar sempre mais e não medir esforços para ter maior poder de compra possível. Coitados de nós! Coitado do futuro para além de nós.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog

Você já liberou seu ódio hoje?

O título desse texto, será parte do início de seu corpo: "você já liberou seu ódio hoje?". Quem anda perguntando-se isso? Sabe-se lá... Afinal, eu sou um cara estranho. Dessa forma, em sendo estranho, dou-me o direito de fazer perguntas estranhas, decerto. Eis a minha de hoje quando olhei os noticiários e observei o comportamento humano através das ruas e mais ainda das redes sociais. Além de estranho, sou pessimista, valho-me daqui para dizer. Ainda bem que minha estranheza ainda me permite trazer algo de bom humor enquanto olho as coisas, caso contrário meu pessimismo que é bastante grande tomaria conta de mim e de meus olhos, Eu estaria de olhos ardendo ou cego caso não me deixa-se ter essa parcela de bom humor diante do mundo em que me insiro.


Vejo o mundo em total destempero e despreparo para a convivência social. Sim, isso não é novidade nem uma descoberta da minha estranheza ou de meu pessimismo. Sempre fomos seres violentos, pouco cooperativos diante da desgraça alheia e cruéis, é fato. Decerto, entendi observando: com o advento da internet e das redes sociais, com essa ultra-exposição em tempo real, vinte e quatro horas por dia, nessa corriqueira e incessante divulgação de ideias e ideais que se assemelham ou divergem do que temos por fato social, conforme conceitos de Durkheim, vejo que estamos nos atrevendo a adentrar territórios antes já percorridos. Territórios esses que já deram muito errado e muitos morreram. Sim, falo dos totalitarismos, das incapacidades de reconhecer o diferente e aceitá-lo, do radicalismo torpe e intolerante. 

Quanto ao conceito de fato social citado, em linhas gerais, eu definiria, pelo que entendo (e desculpem-me os estudiosos do assunto se me equivoco), como a inserção de "normas" em maneiras de agir, sentir e pensar que temos por socialmente aceitas e que exercem, por isso, sobre nós um poder de coerção - consciente ou inconscientemente - enquanto indivíduos sociais que somos, inevitavelmente. Aceitar a nós todos enquanto fadados ao convívio com o outro e, por isso, ter também que aceitar as diferenças, seria necessidade premente, mas ainda não aprendemos isso e, o que é ainda pior nisso tudo: estamos refinando a disseminação de intolerâncias e métodos de violências perpetuadas, sob nosso silêncio, sob nossa aceitação pacata - afinal, concordando ou simplesmente não impondo forças contrárias para frear o processos em si nos torna coniventes

Vi por diversas vezes recentemente discursos de parlamentares incitando, sim, incitando intolerâncias, violências, estupro, sim, estupro e até mesmo agressão física. Está para todos verem nas redes sociais, redes de arquivos em vídeos pela internet etc. Vi isso difundido na mídia, vomitado nos jornais sem uma ampla discussão ou alarde quanto aos discursos mediante os quais me vejo pasmo. Testemunhei, ademais, assustado, o discurso ser endossado, defendido por tantos brasileiros. Todos leram? Ouviram? Não sei. Como disse: sou estranho! Posso ter ouvido, lido e entendido tudo errado de todos os discursos, de toda aquela, para mim, incitação de intolerâncias e violências. Além disso, parlamentares, sim, parlamentares - representantes do povo e das leis que tomam ou hão de tomar rumos - com discursos agressivos contra pobres, nordestinos, menores de idade caídos mediante a "bandidagem", contra homossexuais... Também vi isso. Viram? Nem sei o que pensar.

Claro, há riscos de erros e surgimento de discursos agressivos quando qualquer conjunto de humanos reúna-se para debater qualquer tema, ainda mais quando seja polêmico, mais ainda: quando ultrapassa os limites impetrados do fato social de Durkheim em nós. Mas o que será desses discursos e dos atos de agressividade que temos a cada dia mais aflorados e vulgarizados, pluralizados? Serão mesmo assim tolerados, impunemente? Sabe-se lá o que irei eu acreditar de expectativa de mundo para os meus filhos - filhos esses que hoje nem mesmo mais penso em tê-los, pois já os amo e quero a eles o bem.

Ora, temos por normais, corriqueiras, atitudes de agressividade e violência no trânsito, na prática de esportes (vide nosso futebol), nas retratações ora mais, ora menos reais das tele-novelas... Tudo é tido por "normal". Talvez o seja. Mas assim será? Conviveremos nesse mundo que lava as mãos frente à delinquência desenfreada de todas as esferas? O cidadão comum (exposto à educação precária que temos e à violência e impunidade que habituamo-nos a conviver nessa terra aparentemente sem lei) agir com destempero, despreparo diante das adversidades e discursos contrários com agressividade e despudor, de certa forma, até me permito tentar entender... Mas aceitar parlamentares, representantes do povo dentro do Estado, sob aplausos, defenderem seus discursos de ódio e intolerância, incitando ódios? Não consigo. Não consigo. Mas, é fato: sou estranho e mal entendo das coisas...

Porém, nas mesmas redes sociais e de mídia como um todo, vi clamores de ódio quando, em mais de uma região do país, tivemos pobres sendo achincalhados, espancados, amarrados em postes após delitos, a despeito da lei vigente que naturalmente tomaria parte nos acontecidos... Aquele ladrão qualquer (não foi apenas um, mas vamos em frente), aquele, melhor dizendo, ladrão pobre qualquer (nascido e criado em meio às dificuldades das periferias, exposto às violências e injustiças diárias às populações menos favorecidas - fato que logicamente não justifica, mas entra em questão) quando roubou, teve contra ele todos clamando por "justiça" e querendo punição, prisão, violência contra o mesmo. Quiseram também condenação - mesmo que ele fosse "menor de idade". E os "maiores de idade" representantes do Estado? E os discursos de ódio? Incitam algo? Atrapalham em algo? Devemos agir de alguma forma? Em resumo: apenas devemos culpar, bradar contra e criminalizar o ladrão "comum" que, numa rua comum, roubar coisa comum - qualquer que seja? Seremos intolerantes apenas com esse fato, decerto... 

Enfim, eu já esperava. A intolerância e as "violências" não serão todas elas punidas. Afinal, os parlamentares que estão a dizer coisas, agitando bandeiras de intolerâncias, violências e radicalismos, todos eles, foram entregues à representação do povo por nossa conta, por nós próprios: o povo! Que assim seja então - ou em vão , quiçá. De tudo, apenas sei que sou mero ser estranho tentando me adequar. Concluí, algo desanimado: é mais fácil odiar que tentar entender e, com isso, mudar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 
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de maio de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O brasileiro comum e suas ''caixinhas'' de conceitos

O brasileiro e suas caixinhas... Ah, pensei e não concluí direito. Como escrever me ajuda, numa espécie de catarse e auto-encontro e auto-ajuda, tento nessas linhas trazer pautas e dialogar - nem que seja apenas comigo mesmo, meramente. Tentarei explicar, sendo claro. Embora a proposta seja a de um enorme texto, tentarei ser o mais objetivo possível. No mais, relevem qualquer exagero e ignorância. Mas ainda é útil poder usufruir do direito e liberdade de expressão. Vamos então...

É praxe: brasileiro gosta de ganhar! Brasileiro gosta de estar na frente das coisas! Nessa lógica, se dá todo o emaranhado de atitudes intrincadas que fomenta o ''jeitinho'' brasileiro. Essa terminologia que muito nos denigre, é amplamente aceita. Recebe até algumas tonalidades límpidas e coloridas como se fosse algo cômico e, não raro, útil. Mas não! Somos vis conosco próprios quando exercemos nossa capacidade de infringir a lógica e os discursos progressistas e coerentes para ganhar algo com isso. 

Nem que seja meramente para estar com a razão e dizer-se ''o correto'', o brasileiro não sabe perder! Nem numa discussão, nem num jogo de futebol. O problema atual é que colocamos a lógica do futebol dentro da lógica das discussões. Logo, não sabemos debater mais de forma produtiva, ouvindo e aprendendo com os argumentos trocados no debate. Partimos de ''times'' argumentativos e pronto! Tudo aquilo que não seja do nosso time - ou seja: tudo aquilo que não seja e esteja do nosso lado - torna-se alvo de nosso ódio, de nossa capacidade de achaque e violência. Quando digo ''violência'', não digo meramente das questões físicas, mas uma forma ampla de violência que vemos hoje ressurgir nas páginas diárias dos jornais e nas esquinas. Um incentivo ao ódio que vai desde o ódio vulgar, simplista e cotidiano nas pequenas coisas, ao ódio fascista, agressivo, intolerante e destrutivo.Tempos difíceis os nossos - novamente!

Quando optamos por colocar tudo em ''times'', esse lado contra aquele lado, adotamos a postura mais imbecil que poderíamos ter. É como se colocássemos tudo em ''caixinhas''. Se há algum argumento posto, comparamos ele diante de nossas ''caixinhas de conceitos''. Daí em diante, tomaremos como ação discursos de ódio refinado ou amor ingênuo a despeito da lógica - não raro. O famoso ''ou oito ou oitenta''. Temos de dicotomias rasas bem cristalinas, vendidas em toda esquina, habitando qualquer roda de conversa e grupo de pessoas. O interessante é que nossa posição quanto às coisas seja a vencedora! Pronto! Vencer nos debates. Isso não é mais coisa de tempos eleitorais e não mais se limita a questões políticas. É assunto diuturno e deve ser motivo de reflexões urgentes, caso contrário educaremos uma geração ainda mais intolerante que a nossa tem conseguido ser. A questão é melhorar? Então precisamos seguir por outro caminho que não esse que temos visto servir aos passos de muitos nas suas travessias respectivas da vida.

Política? Assunto sempre tido por chato e quase intocável. Isso sempre nutriu muitas benesses aos mandantes de nossa pátria, afinal: pouco ou quase nada era do interesse do brasileiro quanto a política até os tempos recentes - aparentemente. ''Política, futebol e religião não se discute''. Quem inventou isso fez um enorme desfavor ao nosso país. Hoje, sem entender de política, nem de futebol, nem de religião, passamos a querer discutir, pois se discute tudo hoje. Daí, os argumentos mais descabidos surgem. E tomamos essa ou aquela postura de acordo com nossas ''caixinhas''. Sim! Esse é o problema. Como debater assuntos assim - e tantos outros - tornou-se questão diária com o advento das redes sociais, torna-se premente a demanda por aprendermos a romper nossas ''caixinhas'' e abrir nossas cabeças. Do contrário, muito ódio será jogado, muitas violências serão cometidas e muitos mortos, inclusive, poderão ser realidade para os próximos tempos. Assim, nessa véspera do ano novo de 2016, após um chato e odioso ano de 2015 (com tanto ódio perambulando o dia a dia social dos cidadãos brasileiros), acho útil ampliar nossos debates, nossas argumentações. nossos norteamentos - por consequência.

Hoje, dia 23 de dezembro de 2015, é o dia seguinte à noite em que Chico Buarque, expoente da nossa cultura e do nosso intelecto artístico nacionais foi quase agredido por um grupo de jovens com posturas fascistas numa rua qualquer do Rio de Janeiro. O fato não causa - até o momento - alarde devido e reflexão! A discussão tem sido ainda atrelada às pautas que saem de dentro das ''caixinhas''. Quem faz parte da ''caixinha'' dos que odeiam (essa é a palavras, infelizmente) as posições políticas verbalizadas pelo artista, incentiva, adora, aplaude a postura dos jovens equivocados pela ditadura de ignorância que seguem e seguiram nos argumentos de agressão do caso em questão. Os que fazem parte da ''caixinha'' dos que amam (essa é a palavra) as posições do artista, limitam-se a debater sobre a defesa do poder executivo nacional que está nas mãos do partido citado na briga o qual é admirado pelo artista. O ódio toma conta da postura fascista dos jovens! E, sim, a postura dos jovens assusta! Deve causar alarde. Mas a discussão não pode e não deve se limitar ao debate partidário levantado pelos jovens, caso contrário estaremos adotando a mesma ignorância deles por postura. E isso não nos trará aprendizado útil algum. Tudo nessa questão, do que é colocado nas ''caixinhas'', é defendido como lei! Com fervor! Tudo o que sai delas é odiado! Numa lógica de amor e ódio, simples assim. Ideias fascistas então ganham, sim, força! Temerário é permitir isso! Precisamos superar logo essa realidade. É urgente quebrar as barreiras que nossas ''caixinhas'' e ampliar horizontes bem como nossas argumentações.

Quando Chico Buarque foi achincalhado simplesmente por suas posturas e ideias, não foi o artista, o intelectual quem saiu ferido. Não! Foi a liberdade de pensar, de agir, de esperar algo das coisas quem se feriu! Deixa sequelas e estamos desatentos à elas. Limitaram o debate ao partidarismo imbecil ditado pela mídia (que por sua vez é norteada pelo dinheiro que lhe nutre as entranhas!). O raciocínio raso é mais fácil. Fácil que é, facilita que coloquemos coisas dentro de nossas ''caixinhas''. Logo, a ''caixinha'' que mais se entope de coisas hoje é a ''caixinha'' do ódio pautado em posições políticas. O ódio partidário, limitado à essa malfadada questão partidária e tola, é o que nos limita no devido aprimoramento intelectual e social nossos, seja quanto ao país em si ou meramente no aprimoramento das argumentações que tomamos por postura. Precisamos urgentemente rever!

Quando alguém diz a palavra ''partido'', atrelamos automaticamente ao conceito às coisas ruins que indivíduos daquele tal partido. Limitamos o todo a atitudes específicas. Ora, partido é um resumo e um todo! Cair nesse raciocínio raso de ser ''anti-isso'' ou ''anti-aquilo'' é atestar a si próprio ignorância e capacidade rasa de concluir coisas. Partidos são emaranhados de ideais, ideologias, raciocínios e pautas que norteiam (ou deveriam nortear) a condução da vida política daquele grupo. Sendo isso, tornam um emaranhado de pessoas, um grupo. Logo, não são as pessoas que fazem os partidos, mas os ideais e etc com os quais eles se identificam e norteiam. Fato? Para mim é... Espero que eu esteja sendo claro e que não esteja despertando ódio a quem até aqui insistiu em ler meu texto. Enfim, vamos seguir.

Nosso Brasil, desde que os portugueses iniciaram a destruição do país que éramos, tem sido um refinado atentado aos conceitos de igualdade, humanidade e coletividade. Tivemos o massacre contínuo dos povos indígenas - ainda atual... Tivemos nosso holocausto na questão da escravidão (de povos negros e indígenas também, diga-se de passagem) que passou impune... Tivemos os privilégios de classes e hierarquias seculares passando como normais e norteando nossos rumos políticos... tivemos regime militar que, tentando ''orientar o progresso'', destruiu vidas, causas, movimentos, famílias e deu tantos passos para trás em nossa evolução coletiva - e, a despeito disso, ainda nos dias de hoje recebe apoio e adeptos, infelizmente, Isso tudo é real. Talvez nem todos estejam atentos, mas isso ainda nos cai na realidade hoje diretamente em nossas cabeças! Sequelas que são do país que construímos até então - país que permitimos que fosse construído. Porém, algo precisava ser feito e um novo país precisava ser iniciado em sua construção. Pessoas entenderam isso - de forma oportunista ou objetiva, mas concluíram isso! Desse momento em diante, os ódios e discursos políticos enviesados contemporâneos que temos surgiram. Cansa, mas tentarei falar e ser transparente. 

Até pouco mais de uma década, nosso país atrelava-se ao ideal alheio de ser colônia de alguém. Inicialmente de Portugal, fomos passando de mão em mão até, mais recentemente, termos sido colônia de interesses norteamericanos - resumindo toda uma realidade, pois não é tão simples assim! Houve então uma tentativa de novos rumos. Sair do modelo de distribuir o capital a partir da meritocracia pura e ingênua. Iniciaram projetos de redução das desigualdades. Tomando o miserável nas mãos, o Estado tentou reduzir as sequelas históricas nossas. As minorias passaram a ser ouvidas. e tornaram-se pauta definitiva das argumentações ainda incipientes, mas existentes - antes tarde do que nunca, decerto! Indígenas, homossexuais, trabalhadores urbanos e rurais, negros, mulheres (embora não sejam minoria, há conceitualmente essa abordagem para com esses dois últimos grupos). Todos esses grupos passaram a ter suas bandeiras nas ruas. Marchas de todos os lados, ou quase isso! Passaram e ser parte, inclusive, do poder público. Negros, mulheres, indígenas no poder. Homossexuais e trabalhadores comuns também! Isso, logicamente, não agradaria aos grupos majoritários, donos do capital em massa e com tanta força na (de)formação da opinião pública. Não passaria despercebidas essas conquistas desses grupos, mas sorrateira foi e é a reação dos grupos majoritários de sempre. 

De tão sorrateira a reação desses grupos (latifundiários, grandes empresários, brancos de sangue nacional ou de descendência estrangeira, de origem cristã ocidental - todos) passou a convencer até mesmo parte dos grupos minoritários. Daí, discursos de ódio enviesado passaram a ser parte da formação das ''caixinhas'' inclusive desses grupos. Fomentados por ódios obscurecidos, diários, nas redes de mídia, por ignorâncias trajadas de bons preceitos, cotidianamente, partes desses grupos minoritários passaram a concluir que avanços de suas pautas, avanços das ideologias que tentam reduzir as sequelas do nosso passado que lhes acomete (mesmo que não percebam de forma tão óbvia hoje) são menos relevantes que a questão partidária simplista, cega e horrenda. Pouco conhecedores das questões políticas, bastou reduzirem na mídia e, com isso, nas publicidades ideológicas e rodas de conversa todos os avanços coletivos à atrocidade do despreparo de líderes corruptos para que os avanços obtidos fossem esquecidos. O novo país que víamos esperançosos sendo plantado aos poucos, começou a ruir - frágil que infelizmente ainda é, embora não devesse ser.

Assim como no passado, quando um golpe militar surgiu por civis servis às causas torpes, vemos novamente discursos semelhantes tomando força, forma e rumos. Naqueles tempos idos da década de 1960, tendo permitido hipocrisias elitistas tornarem-se discurso padrão, limitando a inimigos (de forma simplista e ingênua assim) os que punham-se contra os ideias que se fortaleciam, vimos serem criados rumos (em décadas que seguiram-se) que deram força aos discursos que cortavam na raiz mudanças efetivas visando a coletividade. Temos, novamente, visto pessoas defendendo os discursos de que: ''é preciso mudar tudo para que tudo permaneça do jeito que sempre esteve''. Há de ser cortada essa, sim, essa raiz! As demais precisam continuar crescendo, tomando força e gerando frutos coletivos, não particularistas e elitistas. Precisamos construir um país. Para isso temos e precisamos muito das leis. Precisamos aprimorar nossas formas de lidar com a democracia e de exigir dos nossos representantes melhores rumos para nós. Mas, antes de qualquer outra coisa: precisamos estar atentos e não mais cegos por esse ódio difundido, horrendo e odioso. 

Por dias melhores a partir de 2016. E, embora tenha o número seis no seu final, que em nada isso nos remeta a lembranças da década de sessenta.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Enquanto não chega o Natal

Quando o Natal desse ano chegar, quero estar menos mesquinho. Quero dedicar à data aquele tão apregoado espírito de amar. Com isso, peço desde já: levem para longe de mim qualquer apreço por um "presentinho".

Somos habituados a estar cegos. Cegueira e tolice, é o que temos. De tanto sonhar em sermos cristãos, inflando egos nessa mesmice, vejo: diante da mensagem de Jesus, somos todos tão pequenos.

Quem de nós quer de fato salvar outrem? Salvar poderia ser visto como dar-se a um destino cruel, a despeito de tornar-se mártir. Ir à alcova, mas deixar livre aquele que salvamos e, por ora, a salvo, para a vida, parte. 

Quem quer isso ou assim faria? A atitudes e verdades como essa, digo eu: habituados não estamos. Queremos na jornada as vitórias e sucessos que havia. Mas dar a outrem quaisquer louros? A quem enganamos?

Se Deus, de fato, a tudo vê, deve Ele estar um tanto chateado. Não é de hoje que deve estar a benzer-se. Afinal, enviou seu filho, que a nós foi dado para perder-se, mas sem ver com isso Sua mensagem entendida? Coitado.  
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Nunca contem sobre o mundo às crianças

Ninguém quer ser digno de pena. Ninguém! Mas às vezes, vejo isso ser possível. Claro! Somos humanos e sujeitos às intempéries da vida, quer sejam vindas do mundo externo ou do nosso mundo interno. Tenho pena, em linhas gerais, de nós: humanos! Em tantas medidas, somos algozes de nós mesmos, afinal: construímos nossos mundos interno e externo.

Em meu mundo, conheci certa vez uma pessoa. Era uma pessoa feliz e que irradiava energias pelo bem. Claro, era jovem - diziam na época! "Qual jovem não é assim" - em primeiro momento, pelo menos? Foi sendo formado um cidadão em meio aos sonhos de galgar conquistas coletivas. Não pensava muito em si, em seu destaque pessoal, ou atrair olhares dos outros. Ajudar? Sim! Era um sonho, uma meta maior para ele. Mas quem disse que a vida ajuda quem quer ajudar? Há algo por trás dos interesses - dos anjos, quiçá (ou quem quer que seja) - por apoiarem ou não os que sonham mudar algo. Há de se merecer muito mais que simplesmente sonhar, talvez fosse isso. Mas ele não entendia nada sobre tais merecimentos embora os buscasse - em vão, em vão....

A cada dia, a vida foi convencendo aquela pessoa de que era cansativo e seria difícil pensar em mudar as coisas, mudar rumo ao bem. Árdua tarefa! Ele já suspeitava, pois não era tolo, mas não entendia que seria tão complicado e tantas lhes seriam as intempéries. Quase desanimou em inúmeros momentos. Ele era calado, pacato e um tanto solitário, a bem dizer. Pensava receber um "empurrão" cedo ou tarde em insistindo naquilo - como se diz no linguajar popular. "Empurrão" esse de Deus, de anjos, de alguém qual fosse... Mas ele lutava. Sabia que teria de habituar-se a conviver com a imensa maioria ao entorno desacreditando seus sonhos, desdenhando seus ideais, ironizando sua gana pelo bem. Não via em lugar algum gana por fazer aquilo de bem que está além do habitual conforto burguês que via ter-se por realidade nas suas paisagens diárias. Ele as vislumbrava com tons de reflexão aos moldes a cada dia mais pessimistas, ou realistas, ou algo assim. Como poderia ele definir seus olhos com o tempo passado? "Nietzscherianos"? Ele tentava ver-se como Fernando Pessoa e trazer para si algo dele. Mas nem era mais tão adepto ou digno de poesias...

Ele foi confiando a si a responsabilidade de conviver bem com isso por um longo tempo. Fez-se e refez-se em meio às intempéries as quais foi ultrapassando, mas enquanto elas passavam por ele e ele por elas, algo de si foi sendo perdido. Energia? Algo de essência primeira da alma? Algo de esperança pueril? Não sabia entender. Mas foi perdendo-se, perdendo-se... Viu-se como o vaso furado, com vazamento, que, gota a gota, tornou-se seco.

Aquela pessoa ainda sonhava. Era insistente! Ainda bradava (mesmo que com voz rouca e agora tímida) sobre sonhos, ideais, mas habituou-se a ver que não havia conseguido mudar nada e a entender também que nada mudaria. Desacreditado, viu-se apenas mais um em meio às rotinas do dia a dia, do cotidiano monótono da vida alienada que habituamo-nos ter por realidade. Ninguém quer tomar para si as rédeas da mudança. Sozinho então? Coitado... Triste, ele lembrava dos tempos em que acreditou ser possível fazer assim, mesmo que só. Hoje, ou acompanhado, ou só, ou a dois, ou aos montes: ele não acreditava mais. Via barulho demasiado em sua volta de pessoas que diziam querer mudar o mundo, mudar as coisas - insatisfeitas que estavam com o mundo - mas eis que, era notório: nada faziam. Apenas barulho. Muito barulho.

Olhando o jardim da praça em que habituou refugiar-se, sentado e a refletir, pensou: feliz é o caramujo que esconde-se e se compraz dentro da lentidão de sua caminhada na casca endurecida que, desde cedo, habituou-se e aceitou ter. Ali dentro - dentro de si mesmo, alheio ao entorno que o observa com desdém, ele não liga estar lento diante da velocidade de ações que o mundo exige... Caramujos não preocupam-se, entendeu! Muitas pessoas aprenderam essa lição com os caramujos. Seguem seu caminho mesmo que não as leve a nada, não mudem nada. Continuou refletindo e percebeu: triste é o peito que abre-se com esperanças de um dia ver o mundo melhor do que vê-se... Mas eis que o mundo mostra-se fazedor de pesadelos, desfazendo sonhos e secando coragens - mesmo daqueles que com tanta força sonharam, dormindo ou acordado, jovens ou nem tão jovens assim...

A chuva começou a cair com ele ali, sentado na praça. Levantou-se. Percebeu que as gotas caídas deixavam-lhe com os pés enlameados, deixando por sua vez, passo a passo, um rastro preguiçoso em meio àquela lama toda que, naquele caminhar reflexivo, já ia tomando parte do passado que ia ficando para trás, para trás em mais uma jornada de reflexões vãs que ele teve. Ele via-se um caramujo qualquer agora. Entregou-se! Deixava um rastro na lama... Suas memórias livres, já por ora acobertadas pela falta de esperanças, não mais tomavam frente a nada nem impunham-lhe recomeços. Ele apenas caminhava como outro qualquer! Um mero caramujo lento, pegajoso quiçá, envolto numa casca dura que o alienava. 

Sob chuva, sob sol, o caminho era aquele. Para onde? Em que importava? O importante é mostra-se seguindo, caminhando. Rastejar é uma forma habitual de caminhar - afinal, ele também era agora um caramujo como quase todos os que via no entorno. Concluiu enquanto tentava chegar em casa sob a chuva: "É o que todos querem ver: passos sendo dados!". Mais nos medem pelos passos que damos que pelos sonhos e esperanças que temos - ou trouxemos. O mundo há de nos secar um dia, deveria ele ter percebido antes, mas não se arrependia. Nunca contem isso às crianças. Nunca!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto escrito em maio de 2015.

Reflexão existencial, moral ou sabe-se lá a que se presta

Enquanto esperava o dia passar e minha cabeça acalmar diante de certas coisas, li: "Aqueles que dizem: Senhor! Senhor! não entrarão todos no reino dos céus; mas somente entrará aquele que traz a vontade do meu Pai que está nos céus. Vários me dirão naquele dia: Senhor! Senhor! não profetizamos em vosso nome? não expulsamos demônios em vosso nome e não fizemos vários milagres em vosso nome? E então eu lhes direi claramente: retirai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade" (São Mateus, cap. VII, v. 21, 22, 23).

Refleti após isso conforme já vinha refletindo há anos na minha caminhada a partir do que já vi e convivi - já não sou tão novo quanto antes. Pensando aos moldes do filho de Deus da era cristã e no "Pai que está nos céus": defendia-se e era pregado que amontoássemos riquezas e as proliferássemos para nosso mero desfrute ou ainda para ostentação aos olhos alheios, inclusive em canais de TV? Queria que fechássemos os olhos aos carentes e expostos aos reveses da vida comum - coisa que boa parte de nós nunca teve a falta de sorte de sofrer? Queria que defendêssemos um sistema de funcionamento social - digamos assim - que baseia-se na chamada "meritocracia"? E, se nesse último item haja um "sim" como resposta: meritocracia não era, para Ele, muito mais um testemunho de elevação espiritual e moral que uma maior adequação ao sistema de produção de riquezas para si próprio - e para o Estado? Ademais, ainda sobre a última frase e progredindo a reflexão: "Zaqueu"(personagem na Bíblia, vide São Lucas, cap XIX, v. 1 a 10) não foi tido por "salvo" quando disse: "se causei dano a alguém, no que quer que seja, eu lhe retribuirei em quádruplo..."? Retribuição essa não tida por financeira, saiba-se ler. 

A história do "muito se pedirá ao que muito recebeu" talvez seja mal interpretada por mim quando vejo o que o mundo é hoje, o que as pessoas almejam e idolatram e mais ainda vendo o que defendem tantos religiosos ditos "cristãos". Sou um confuso, eu acho! Entendo pouco do mundo e menos ainda da religião cristã, percebi, pelo que descubro vendo da obra de Deus nesse planeta o que bradam em nome dEle. 

Ao final das minhas contas, ainda esperando o tempo passar e uma definição conclusiva naquela tarde em que estive avulso do mundo, entendi que, apesar de já passados 2015 anos da era tida por cristã, com tantos cristãos que bradam por aqui e acolá sobre suas riquezas e benesses a si mesmos (pois os que bradam pela defesa dos direitos dos menores pouco ou nada bradam aos ouvidos de forma vã - vide Gandhi, Madre Tereza, Chico Xavier etc), com tantos que se dizem escolhidos e tal: eis que nada aprendemos e o chamado inferno (aos que creem nele) estará cheio de gente conhecida... Para além disso, uma última passagem me vem à mente: "o homem não possui de seu senão aquilo que poderá levar deste mundo". 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto de maio de 2015.

Que Deus nos ajude

E aquela história em que os tempos de outrora eram mais belos e fáceis que os dias de agora? Quem mais nele vivia que não nossos antepassados que na época havia? O hoje é produto de seus atos, inclusive, e disso haveremos de lhes ser gratos. Mas há o que mais por ser dito que não, no máximo, "obrigado" ao somatório dos fatos?

O hoje é sim esse somatório de atos e fatos, ações produzidas e reproduzidas, de tempos longínquos e recentes. Atitudes honradas bem como atos indecentes: tudo quanto havia (e fizeram: ontem ou hoje) fez-se no tal somatório que nos é o todo que temos. O presente, tal qual agora vemos, é um passo além dado já desde antes. Assim tem que ser! Somos espíritos, seres errantes, e seguimos esse passo já dado rumo ao próximo que será iniciado adiante - sempre adiante.

A história há de nos condenar ou absolver, independente dos esforços que façamos pelo nosso conforto de agora. Os julgamentos que fazemos por ora, nada valem, pois com eles caminhamos pela vida atual que há lá fora. Devemos aguardar o retorno de nossos antepassados e seu reencontro conosco. Quem sabe assim eles possam ver se de fato fizemos o mundo melhorar, tornando a realidade um horizonte cristalino e não mais o vislumbre disforme por detrás de um vidro fosco - que ainda por ora temos.

Assim, quando todos puderem ter ido e vindo, atingido na Terra seu maior potencial, talvez sejamos dignos de agradecer a Deus e tal, mas antes de mais nada Ele também há de nos agradecer, a saber. Cabe então lutar para, dia após dia, fazermos com que mude - na nossa realidade ainda fria - aquilo que mata e consome em dores os tantos que sofrem - já desde antes, mas sem que ainda alguém os ajude. 

Quiçá no futuro, além do hoje que nos aturde, onde todos de novo nos encontraremos mais ou menos radiantes, possamos de olhos novos nos honrar por aquilo que fizemos! Mas antes de tudo, antes de reclamar agora, cabe-nos atentar - já desde hoje - ao que fazemos. Vamos embora então trabalhar, atuar plantando o bem. E que assim o mundo mude! Basta começar por isso: que nos atentemos - e, assim sendo: que Deus nos ajude!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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Texto escrito em maio de 2015.

Alma não tem cor

Alma não tem cor. Se houvesse de ter, qual cor então teria Deus, se alma Ele tivesse? Se o céu, que é azul, é onde Deus habita, que falaríamos nós da terra, marrom que é, ou das matas, verdes que são, que, em suas cores, do céu diferem? São menos de Deus (ou para Deus) que qualquer outra coisa? Nem mesmo o céu, tal como é: casa de Deus, sabe escolher sua cor, afinal é claro de dia, escuro à noite...

Quiçá houvesse nas anotações de Deus um privilégio dessa ou daquela cor, mas, caso Ele tenha diferenciado em seus julgamentos umas das outras, guardou para si seu próprio referendo. Não quero aqui adentrar em temáticas amplas, ou quaisquer polêmicas que haja. Quero apenas dizer que alma não tem cor, nem amor verdadeiro tem dissabor ou credo ou pudor. Nem tampouco há espaço (ou contextos) para que eu e tu de nós mesmos nos afastemos. Ademais, de eu e tu, o mais real que há é: somos meramente dois pronomes. Nem mesmo a gramática nos diferencia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
Mais uma vez, tive a oportunidade ímpar de aprender algo com o mestre Paulo Freire. Li: "ninguém liberta ninguém. Ninguém liberta-se sozinho: os homens libertam-se em comunhão". Essa linda frase consta na obra dele intitulada: "Pedagogia do Oprimido". Desperta reflexão importante, afinal, brasileiros que somos, sempre estivemos à espera de um mártir que nos corte as amarras e traga um bom futuro a todos nós e, daí em diante, aos nossos descendentes. Quase que um conceito religioso, digamos assim, de um redentor comum como nós. Muito ingênuas, entretanto, são essas nossas aspirações e esperanças. 
de Quino, cartunista argentino

Estamos habituados ainda ao fato de esperar, terceirizar as aspirações de melhoras a alguém - um qualquer que seja. Quando esperamos, somos apenas expectadores - isso nos é confortável. Eis então que haverá entre nós sempre os defensores dos mártires e serão habitualmente poucos os defensores do real motor de mudanças que é: a educação que fomente e incentive uma contribuição geral pela mudança. Sempre esperamos algo melhor que se inicie em nosso entorno e para além de nós - não necessariamente passando por nós, o que é nosso maior erro e causa de total insucesso até hoje. 

Reformular a sociedade e mudar o país passa - necessariamente - por um fomento a novas vivências, novos comportamentos, numa auto-análise constante do que estamos fazendo, do que estávamos fazendo e a que nos propomos fazer. Sim! Em nosso sonho antigo de sermos "europa", um mundo dito "desenvolvido", esquecemos que para alcançarmos melhores padrões de "país", antes precisamos, necessariamente, modificar nosso padrão de povo que somos, refazer nosso comportamento enquanto sociedade.

Eis que:

- há corrupção? Há! Mas não apenas no presidente, nem muito menos exclusivamente nesse ou naquele partido. Há corrupção na estatal que "vende" interesses, mas também no dinheiro que você deixou de devolver, dado como troco para mais na padaria da esquina - com o qual você ainda saiu contente, gabando-se de seus lucros e da "inocência" do balconista;

- há violência na barbárie que muitos "menores de idade" têm feito pelas ruas, desprovidos que são de educação (intelectual e moral, não raro), mas há também nos gritos e ofensas punitivas, mal direcionadas, ao filho que errou ou deixou de fazer seu dever, bem como nos canais de TV que você assiste, nas novelas que mantém discursos alienantes você incentiva e que, querendo ou não, geram padrões de comportamento coletivos; 

- há impunidade e/ou desinteresses pela ordem geral vistas nossas leis, nossa justiça comum ou em nosso funcionalismo público? Há! Mas há também desordem e desinteresse quando o pai ou a mãe nem mesmo se levantam para saber do filho quando ele chega em casa tarde da noite, sem ser sabido por onde estava, ou o que fez, ou com quem esteve. Desinteresse também e "impunidade" há quanto aos pais que expõem seus filhos a "desfrutarem" de "músicas" obscenas, de reprodução de discursos "sexualizantes", sensualizantes, discursos esses que contribuem apenas para a desconstrução de ideais progressistas ou adequados à idade daquelas crianças, mas apenas estão dando fomento à tantas banalidades que são plantadas na cabeça, ainda tão jovem e imatura, daquele(a)  cidadão(ã) - adulto(a) do futuro - que ainda é uma simples e vulnerável criança;

Para tantos exemplos, não há espaço nem tempo hábil para escrever. Mas cabe então a todos nós refletir! Sempre! Achamo-nos muito pouco providos de capacidade de mudar por nossas próprias mãos. Sim, é a noção padrão! Fomos educados a pensar assim. Somos oprimidos por um sistema que nos convence e perpetua nossa "autodesvalia". Paulo Freire já nos alertava também quanto a isso. Segundo palavras dele: "a autodesvalia é outra característica dos oprimidos. Resulta da introjeção que fazem eles da visão que deles têm os opressores". 

Saibamos todos: não há interesse nenhum por mudança que não interesse esse que surja do próprio povo, perfaça o povo, transpasse convicções imaturas atuais de sociedade e nos mova a algo melhor. O poder do exemplo que deve ser a cada dia mais adaptado, melhorado, superando todos nós nossos erros e vícios. Somente assim, um dia, olharemos para nosso cotidiano e saberemos que algo de bom surgiu, mas esse algo de bom deve, antes de mais nada, começar. E que comece então. Começando, que seja dentro de todos. Somente assim surgirá mudança. 

Comece os próximos dias pensando em novos dias. Assim, habitue-se a perguntar a si mesmo: "o que eu fiz hoje que poderia melhorar algo na vida de alguém?". Ou: "o que deixei eu de fazer hoje (enquanto pai, ou mãe, ou responsável - direto ou indireto) para que uma criança seja desde hoje um alguém melhor que eu amanhã?". Passe também por: "o que eu contribuí hoje à cultura minha e do meu entorno?" ou ainda: "a que tipo de cultura eu doei meu tempo e incentivei, seja na TV ou em outros meios de propagação de conhecimento, de comunicação quais sejam?". 

Precisamos repensar e acreditar mais na nossa contribuição às melhorias e prejuízos diante do todo. Afinal, trazendo algo do pensamento de Eduardo Galeano para essa reflexão, concordo: "pessoas pequenas [comuns como nós], fazendo coisas pequenas, em lugares pequenos, podem sim mudar o mundo".
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier