O brasileiro e suas caixinhas... Ah, pensei e não concluí direito. Como escrever me ajuda, numa espécie de catarse e auto-encontro e auto-ajuda, tento nessas linhas trazer pautas e dialogar - nem que seja apenas comigo mesmo, meramente. Tentarei explicar, sendo claro. Embora a proposta seja a de um enorme texto, tentarei ser o mais objetivo possível. No mais, relevem qualquer exagero e ignorância. Mas ainda é útil poder usufruir do direito e liberdade de expressão. Vamos então...
É praxe: brasileiro gosta de ganhar! Brasileiro gosta de estar na frente das coisas! Nessa lógica, se dá todo o emaranhado de atitudes intrincadas que fomenta o ''jeitinho'' brasileiro. Essa terminologia que muito nos denigre, é amplamente aceita. Recebe até algumas tonalidades límpidas e coloridas como se fosse algo cômico e, não raro, útil. Mas não! Somos vis conosco próprios quando exercemos nossa capacidade de infringir a lógica e os discursos progressistas e coerentes para ganhar algo com isso.
Nem que seja meramente para estar com a razão e dizer-se ''o correto'', o brasileiro não sabe perder! Nem numa discussão, nem num jogo de futebol. O problema atual é que colocamos a lógica do futebol dentro da lógica das discussões. Logo, não sabemos debater mais de forma produtiva, ouvindo e aprendendo com os argumentos trocados no debate. Partimos de ''times'' argumentativos e pronto! Tudo aquilo que não seja do nosso time - ou seja: tudo aquilo que não seja e esteja do nosso lado - torna-se alvo de nosso ódio, de nossa capacidade de achaque e violência. Quando digo ''violência'', não digo meramente das questões físicas, mas uma forma ampla de violência que vemos hoje ressurgir nas páginas diárias dos jornais e nas esquinas. Um incentivo ao ódio que vai desde o ódio vulgar, simplista e cotidiano nas pequenas coisas, ao ódio fascista, agressivo, intolerante e destrutivo.Tempos difíceis os nossos - novamente!
Quando optamos por colocar tudo em ''times'', esse lado contra aquele lado, adotamos a postura mais imbecil que poderíamos ter. É como se colocássemos tudo em ''caixinhas''. Se há algum argumento posto, comparamos ele diante de nossas ''caixinhas de conceitos''. Daí em diante, tomaremos como ação discursos de ódio refinado ou amor ingênuo a despeito da lógica - não raro. O famoso ''ou oito ou oitenta''. Temos de dicotomias rasas bem cristalinas, vendidas em toda esquina, habitando qualquer roda de conversa e grupo de pessoas. O interessante é que nossa posição quanto às coisas seja a vencedora! Pronto! Vencer nos debates. Isso não é mais coisa de tempos eleitorais e não mais se limita a questões políticas. É assunto diuturno e deve ser motivo de reflexões urgentes, caso contrário educaremos uma geração ainda mais intolerante que a nossa tem conseguido ser. A questão é melhorar? Então precisamos seguir por outro caminho que não esse que temos visto servir aos passos de muitos nas suas travessias respectivas da vida.
Política? Assunto sempre tido por chato e quase intocável. Isso sempre nutriu muitas benesses aos mandantes de nossa pátria, afinal: pouco ou quase nada era do interesse do brasileiro quanto a política até os tempos recentes - aparentemente. ''Política, futebol e religião não se discute''. Quem inventou isso fez um enorme desfavor ao nosso país. Hoje, sem entender de política, nem de futebol, nem de religião, passamos a querer discutir, pois se discute tudo hoje. Daí, os argumentos mais descabidos surgem. E tomamos essa ou aquela postura de acordo com nossas ''caixinhas''. Sim! Esse é o problema. Como debater assuntos assim - e tantos outros - tornou-se questão diária com o advento das redes sociais, torna-se premente a demanda por aprendermos a romper nossas ''caixinhas'' e abrir nossas cabeças. Do contrário, muito ódio será jogado, muitas violências serão cometidas e muitos mortos, inclusive, poderão ser realidade para os próximos tempos. Assim, nessa véspera do ano novo de 2016, após um chato e odioso ano de 2015 (com tanto ódio perambulando o dia a dia social dos cidadãos brasileiros), acho útil ampliar nossos debates, nossas argumentações. nossos norteamentos - por consequência.
Hoje, dia 23 de dezembro de 2015, é o dia seguinte à noite em que Chico Buarque, expoente da nossa cultura e do nosso intelecto artístico nacionais foi quase agredido por um grupo de jovens com posturas fascistas numa rua qualquer do Rio de Janeiro. O fato não causa - até o momento - alarde devido e reflexão! A discussão tem sido ainda atrelada às pautas que saem de dentro das ''caixinhas''. Quem faz parte da ''caixinha'' dos que odeiam (essa é a palavras, infelizmente) as posições políticas verbalizadas pelo artista, incentiva, adora, aplaude a postura dos jovens equivocados pela ditadura de ignorância que seguem e seguiram nos argumentos de agressão do caso em questão. Os que fazem parte da ''caixinha'' dos que amam (essa é a palavra) as posições do artista, limitam-se a debater sobre a defesa do poder executivo nacional que está nas mãos do partido citado na briga o qual é admirado pelo artista. O ódio toma conta da postura fascista dos jovens! E, sim, a postura dos jovens assusta! Deve causar alarde. Mas a discussão não pode e não deve se limitar ao debate partidário levantado pelos jovens, caso contrário estaremos adotando a mesma ignorância deles por postura. E isso não nos trará aprendizado útil algum. Tudo nessa questão, do que é colocado nas ''caixinhas'', é defendido como lei! Com fervor! Tudo o que sai delas é odiado! Numa lógica de amor e ódio, simples assim. Ideias fascistas então ganham, sim, força! Temerário é permitir isso! Precisamos superar logo essa realidade. É urgente quebrar as barreiras que nossas ''caixinhas'' e ampliar horizontes bem como nossas argumentações.
Quando Chico Buarque foi achincalhado simplesmente por suas posturas e ideias, não foi o artista, o intelectual quem saiu ferido. Não! Foi a liberdade de pensar, de agir, de esperar algo das coisas quem se feriu! Deixa sequelas e estamos desatentos à elas. Limitaram o debate ao partidarismo imbecil ditado pela mídia (que por sua vez é norteada pelo dinheiro que lhe nutre as entranhas!). O raciocínio raso é mais fácil. Fácil que é, facilita que coloquemos coisas dentro de nossas ''caixinhas''. Logo, a ''caixinha'' que mais se entope de coisas hoje é a ''caixinha'' do ódio pautado em posições políticas. O ódio partidário, limitado à essa malfadada questão partidária e tola, é o que nos limita no devido aprimoramento intelectual e social nossos, seja quanto ao país em si ou meramente no aprimoramento das argumentações que tomamos por postura. Precisamos urgentemente rever!
Quando alguém diz a palavra ''partido'', atrelamos automaticamente ao conceito às coisas ruins que indivíduos daquele tal partido. Limitamos o todo a atitudes específicas. Ora, partido é um resumo e um todo! Cair nesse raciocínio raso de ser ''anti-isso'' ou ''anti-aquilo'' é atestar a si próprio ignorância e capacidade rasa de concluir coisas. Partidos são emaranhados de ideais, ideologias, raciocínios e pautas que norteiam (ou deveriam nortear) a condução da vida política daquele grupo. Sendo isso, tornam um emaranhado de pessoas, um grupo. Logo, não são as pessoas que fazem os partidos, mas os ideais e etc com os quais eles se identificam e norteiam. Fato? Para mim é... Espero que eu esteja sendo claro e que não esteja despertando ódio a quem até aqui insistiu em ler meu texto. Enfim, vamos seguir.
Nosso Brasil, desde que os portugueses iniciaram a destruição do país que éramos, tem sido um refinado atentado aos conceitos de igualdade, humanidade e coletividade. Tivemos o massacre contínuo dos povos indígenas - ainda atual... Tivemos nosso holocausto na questão da escravidão (de povos negros e indígenas também, diga-se de passagem) que passou impune... Tivemos os privilégios de classes e hierarquias seculares passando como normais e norteando nossos rumos políticos... tivemos regime militar que, tentando ''orientar o progresso'', destruiu vidas, causas, movimentos, famílias e deu tantos passos para trás em nossa evolução coletiva - e, a despeito disso, ainda nos dias de hoje recebe apoio e adeptos, infelizmente, Isso tudo é real. Talvez nem todos estejam atentos, mas isso ainda nos cai na realidade hoje diretamente em nossas cabeças! Sequelas que são do país que construímos até então - país que permitimos que fosse construído. Porém, algo precisava ser feito e um novo país precisava ser iniciado em sua construção. Pessoas entenderam isso - de forma oportunista ou objetiva, mas concluíram isso! Desse momento em diante, os ódios e discursos políticos enviesados contemporâneos que temos surgiram. Cansa, mas tentarei falar e ser transparente.
Até pouco mais de uma década, nosso país atrelava-se ao ideal alheio de ser colônia de alguém. Inicialmente de Portugal, fomos passando de mão em mão até, mais recentemente, termos sido colônia de interesses norteamericanos - resumindo toda uma realidade, pois não é tão simples assim! Houve então uma tentativa de novos rumos. Sair do modelo de distribuir o capital a partir da meritocracia pura e ingênua. Iniciaram projetos de redução das desigualdades. Tomando o miserável nas mãos, o Estado tentou reduzir as sequelas históricas nossas. As minorias passaram a ser ouvidas. e tornaram-se pauta definitiva das argumentações ainda incipientes, mas existentes - antes tarde do que nunca, decerto! Indígenas, homossexuais, trabalhadores urbanos e rurais, negros, mulheres (embora não sejam minoria, há conceitualmente essa abordagem para com esses dois últimos grupos). Todos esses grupos passaram a ter suas bandeiras nas ruas. Marchas de todos os lados, ou quase isso! Passaram e ser parte, inclusive, do poder público. Negros, mulheres, indígenas no poder. Homossexuais e trabalhadores comuns também! Isso, logicamente, não agradaria aos grupos majoritários, donos do capital em massa e com tanta força na (de)formação da opinião pública. Não passaria despercebidas essas conquistas desses grupos, mas sorrateira foi e é a reação dos grupos majoritários de sempre.
De tão sorrateira a reação desses grupos (latifundiários, grandes empresários, brancos de sangue nacional ou de descendência estrangeira, de origem cristã ocidental - todos) passou a convencer até mesmo parte dos grupos minoritários. Daí, discursos de ódio enviesado passaram a ser parte da formação das ''caixinhas'' inclusive desses grupos. Fomentados por ódios obscurecidos, diários, nas redes de mídia, por ignorâncias trajadas de bons preceitos, cotidianamente, partes desses grupos minoritários passaram a concluir que avanços de suas pautas, avanços das ideologias que tentam reduzir as sequelas do nosso passado que lhes acomete (mesmo que não percebam de forma tão óbvia hoje) são menos relevantes que a questão partidária simplista, cega e horrenda. Pouco conhecedores das questões políticas, bastou reduzirem na mídia e, com isso, nas publicidades ideológicas e rodas de conversa todos os avanços coletivos à atrocidade do despreparo de líderes corruptos para que os avanços obtidos fossem esquecidos. O novo país que víamos esperançosos sendo plantado aos poucos, começou a ruir - frágil que infelizmente ainda é, embora não devesse ser.
Assim como no passado, quando um golpe militar surgiu por civis servis às causas torpes, vemos novamente discursos semelhantes tomando força, forma e rumos. Naqueles tempos idos da década de 1960, tendo permitido hipocrisias elitistas tornarem-se discurso padrão, limitando a inimigos (de forma simplista e ingênua assim) os que punham-se contra os ideias que se fortaleciam, vimos serem criados rumos (em décadas que seguiram-se) que deram força aos discursos que cortavam na raiz mudanças efetivas visando a coletividade. Temos, novamente, visto pessoas defendendo os discursos de que: ''é preciso mudar tudo para que tudo permaneça do jeito que sempre esteve''. Há de ser cortada essa, sim, essa raiz! As demais precisam continuar crescendo, tomando força e gerando frutos coletivos, não particularistas e elitistas. Precisamos construir um país. Para isso temos e precisamos muito das leis. Precisamos aprimorar nossas formas de lidar com a democracia e de exigir dos nossos representantes melhores rumos para nós. Mas, antes de qualquer outra coisa: precisamos estar atentos e não mais cegos por esse ódio difundido, horrendo e odioso.
Por dias melhores a partir de 2016. E, embora tenha o número seis no seu final, que em nada isso nos remeta a lembranças da década de sessenta.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier