quinta-feira, 12 de maio de 2016

Sobre nós, nosso tempo, H. G. Wells e as catástrofes

É importante, em primeiro lugar: o respeito. Em segundo: respeito novamente. Tem sido um mal na era das redes sociais isso: a falta de respeito ao outro - pela sua ideia, sua etnia, pelo seu gênero, pelo seu time etc. Qualquer coisa vira motivo de ódios e discursos verborrágicos de insanidade pura. 

Achando-se fortes, postando-se de corajosos guerreiros das causas próprias e de seus "grupos", cidadãos comuns como nós saem vomitando ódios, tempestades de vômito em intolerâncias pela boca. Quase que "acéfalos funcionais", muitos saem com seus dedos a digitar atrocidades a todo canto sem nem refletir os danos que causam com tudo isso - a si mesmos, ao outro e ao futuro de nossa espécie, claro - não é exagero dizer isso. 

Ora é xingamento a uma pessoa pela etnia da qual faz parte. Ora é humilhação e desrespeito ao outro pelo gênero que assumiu para si. Ora é em assédio pedófilo a uma criança que apareceu em um programa de TV. Ora é atirando ódios através da brilhante dicotomia (ironia, claro!) às beiras de um "apartheid" entre "coxinhas" e "petralhas". Onde chegaremos com isso? Onde está a capacidade de percepção dos erros? Por qual caminho estamos indo - e ainda deixando nossas crianças a assistir nosso mau exemplo?

O ser humano, é fato: sabe exercer melhor seu ódio que seu amor. Todos têm amor, basta procurar (raras exceções - acredito!). Mas encontramos muito mais ódio e massacres na "bibliografia", "enciclopédia" (ou quase isso) de comentários contra aqui e acolá que se nos apresentam pela redes - pela vida, a bem dizer, pois a internet é parte de nossa geração.

Não sabemos conviver com a era das redes sociais e de fácil acesso ao mundo virtual? Ou não sabemos conviver, puramente, olho no olho? Ou, o que seria pior: não sabemos conviver olho no olho e daí tomamos coragem para falar atrocidades, ferir pessoas, perder amigos simplesmente por estarmos "protegidos" atrás da tela do computador? São (pessoas assim) os exércitos de "corajosos das poltronas confortáveis" - ou algo assim. Prestam serviço diário ao ódio ou - caso não consigam externar seus sentimentos ruins por algum motivo, inclusive por falta de argumentos - deletam as pessoas. Pronto! Mas na vida real as pessoas não podem ser deletadas - embora alguns, dotados de tanto ódio, achem que isso possa sim ocorrer, a depender do julgamento exercido por suas intolerâncias. Mas isso é outro tema... 

H.G Wells disse, certa vez (anos e anos e anos atrás), algo do tipo: "nos é inútil ficar sentados em meio a tantas coisas desconhecidas, tentando resolver enigmas. Você acabará um aficionado! Encare o mundo! Aprenda dele seus costumes; observe-o; não tire conclusões precipitadas. No final: você acabará encontrando todas as respostas". Mas queremos achar respostas? Acho que não. 

O mundo é confuso? Sim. Há informações demais e pouca formação, lado a lado? Sim. Porém, simplesmente queremos que as pessoas concordem conosco? Vejo que isso é cotidiano hoje. Não nos importa achar os pontos chave, as respostas e razões das coisas e argumentos alheios. Há uma grande diferença nisso: encontrar as razões e querer que nossas razões sejam aceitas. Desse ponto surgem tantos perigos para nossa época. Temos então redes sociais e raciocínios de ódio de mãos dadas, dia após dia.

Aquele mesmo Wells, noutra ocasião, disse algo semelhante a: "no futuro, haverá uma corrida entre a educação e a catástrofe". "Pronto, danou-se tudo...", pensei num primeiro momento refletindo. Não quero afirmar com certeza que a catástrofe tem ganhado. Não! Confio na educação. Mas são tantos os que lutaram por ela, no Brasil, p.ex., mas morreram colocados como parte do cenário, não como essência e protagonistas. Passaram sem muito sucesso. Paulo Freire? Darcy Ribeiro? Suassuna? Tantos... Saudosos, todos.

Educação não é meramente saber digitar o nome, ou escrevê-lo. Educação necessária para superar catástrofes é aquela que envolve o conhecimento técnico sobre coisas (sim, escrever é uma delas), mas também gentileza interpessoal, apreço à cultura de seu povo (e dos seus concidadãos), exercício de temperança diante das adversidades e da diversidade. Entende? 

Num futuro (torço para que chegue logo): quem sabe sejamos mais educados assim? Quem sabe procuremos mais a razão das coisas ao invés de tentar convencer os demais das nossas conclusões e das conclusões do grupo do qual pertençamos? Quem sabe antes de odiar, "vomitando" discursos de insanidade odiosa por aí, ou de ao invés de brigar com alguém (ao vivo, olho no olho, ou pela internet) saibamos mais conter a catástrofe que, em potencial, nós temos sido?

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"Não fui eu, não foi você quem escolheu viver nesse mundo tão frio"

"Insensível" está tocando aos meus ouvidos. Banda? Titãs. Sim, estou em casa! E estou em casa em plena quarta-feira, um dia qualquer de maio. Estar em casa em dias que usualmente você estaria trabalhando pode ser bom ou ruim. Tudo depende da visão que você carrega de si, do tempo e das coisas. Eu, particularmente, sou tentado a ficar "viajando", pensando e repassando as coisas que pensei dentro da minha cabeça. Daí, concluí hoje algumas coisas. As seguintes coisas:

- o ano de 2014 passou e eu achei ele um ano estranho. Tinha a impressão de que seria uma baderna. Depois concluí que foi mesmo uma baderna - ao meu ver. Pensei então que tudo iria melhor em 2015. Têm uns que dizem que ano "ímpar" dá sorte. Não sei se mudaram de opinião, pois achei que o ano de 2015 foi ainda mais estranho, mais chato, mais pesado e demorado - embora mantendo a mesma lógica dos 365 dias com suas 24 horas bem distribuídas.

Então, continuei repassando pensamentos, memórias e ideias na cabeça e me peguei refletindo, adiante: 

- já estamos em maio de 2016, quinto mês de doze dos esperados para o ano. Pronto! E cá estou eu vendo esse ano ser ainda mais estranho, ainda mais esquisito e totalmente "sem pé nem cabeça" dentre todos os trinta que já vivi. Por quê? Há vários motivos. Mas, enfim, pensei, repassei os pensamentos e pronto! Arrumei um norteamento: ou eu estou lascado ou é o ano que se "estrumbicou"?

Determinei que eu deveria estudar o caso mais a fundo. Isso seria um exemplo de ócio improdutivo? Sim, não tenho argumentos contra. Mas, insistindo em pensar nesses pensamentos, surgiram as seguintes hipóteses:

1) não sei se é pelo fato de ser ano bissexto.... Há os que creem nessas coisas de calendário mudando as vidas das pessoas de acordo com lua, sol, planetas etc. 
2) não sei se é pelo fato de eu estar ficando mais velho e, quem sabe, seja uma demência precoce pela qual eu esteja passando/entrando mais e mais... 
3) não sei é de nada mesmo, e qualquer hipótese em nada importa: eu que sou um chato reclamando à beira do ridículo! 

Enfim, só estou achando 2016 um ano bem confuso, chato... Esquisito? Sim! Mas esquisito eu já sou. Ou será que o ano também? Nos âmbitos social-político e/ou filosófico-antropológico: dizer o que? Todos devem concordar que há uma completa baderna instalada... 

Uma coisa é certa: ou sou eu, ou é o ano, ou é a realidade que está esquisita! Não estou entendendo bem das coisas, afinal. Mas, se for pra votar: voto mesmo é em mim como sendo o problema... Afinal: sou esquisito de carteirinha, com título registrado em cartório! 

Ah, preciso de novos óculos para enxergar a vida! Pronto! Pelo menos estou menos pessimista esse ano... Quem sabe até mesmo chegando ao ponto de conseguir ser o sonhado "realista esperançoso" (tal qual Suassuna) que eu queria.

Pronto! Acabei. Quando eu fico em casa, eu "viajo" nas coisas e tendo a estar filosofando acerca de inutilidades. Ademais, o que dizer após saber que vou postar isso num blog? Talvez a melhor coisa a ser dita se dê parafraseando algo da obra de Suassuna: "num sei... Só sei que foi [e está sendo] assim". 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Náuseas... Vômitos verde-amarelos.

Carta a Deus - de número I

Há algo a temer, Deus? Perdão! Não tenho fé suficiente para suprimir meus medos. O que aconteceu em 17 de abril de 2016 no meu país, Brasil, mais especificamente em Brasília - com respingos em todo nosso território nacional, foi desesperador. Não? Para mim foi! Entendo que o Senhor queira de nós coragem e força.. Até fé! De fato, somos uma espécie ignorante, egoísta e que em pleno século em que estamos ainda usamos religião mais para arregimentar dinheiro e status que para adquirir melhor caráter. Merecemos o que foi visto naquele domingo... Temos que superar mais esse momento histórico da nação. Mais esse humano da história humana, a bem dizer.

Mas, Deus, convenhamos: deixar tantos canalhas usarem seu nome para ganhar algum aplauso ou alguma comoção junto aos "cidadãos de bem" ou sei lá o que mais pretendiam? Tantos esses que nada fazem ou fizeram pela ampla correção de nossos males? Esses que estão (e vão) deixando um réu, sonegador e, não apenas isso, alguém que mentiu à justiça, alguém que vive ainda como Presidente da Câmara por negociatas e conchavos, alguém que prova a todos os olhos (estrangeiros ou não) que somos uma "Republiqueta de mer**" que permite gente enriquecer às custas de religião e criar "feudos"? Deixam esse cidadão, que de fato também é filho Teu -eu sei! - iniciar as votações daquele dia 17 pedindo Sua "benção"? Acho demais. Erro meu e intolerância minha, sim. Mas estou meio cansado de hipócritas. Perdão! 

Acho demais, Deus, essa bancada dita religiosa, que apregoa a si o título de "bancada evangélica" (qual Evangelho leem?) tomar discursos lado a lado de gente que eleva a voz em prol de ditadores e defensores desse regime violento... Lado a lado de pessoas que elevam vozes, punhos e dão seu voto em crédito a grupos que apoiam o atual presidente da Câmara dos Deputados que é denunciado por enriquecer-se usando "jesus" como pretexto - até dando a Ele um nome de empresa. Ah...! Colocar Deus ou quem quer que seja nesse quesito, nesse política, prefiro acreditar que há o céu para esses então e, entretanto, que há algo superior, melhor, às pessoas que de fato sejam lutadoras no bem! Pessoas estas que tenham os argumentos do Evangelho de Jesus sim como norteamento de ações e não como vemos: sendo usado por moeda de troca a depender dos olhares comovidos ou não da platéia. Deus, bem, como Jesus disse, está (em resumo) na defesa da coletividade, do repeito aos diferentes e do perdão às ofensas tudo quanto devemos nos prender enquanto cristãos. Por isso, pelos ensinamentos de Jesus: temos que perdoar, correto? Indulgência, benevolência... Sim! 

Temos, todavia, que entender que ainda somos passíveis de ter de tolerar um ex-militar elogiando um torturador em plena casa do povo brasileiro e ainda seguindo como ícone dos homens de bem da nação. Ainda somos falhos a ponto de ter que tolerar gente que cria empresas de fachada contendo o nome de "jesus" virando baluarte da ética e da defesa das famílias, de um governo idôneo e plural. Ainda merecemos ver gente que mal sabe falar a palavra impeachment crucificando com tons de superioridade e elitismo um ex-presidente desse país que não tinha curso superior e, de fato, chegou ao cargo máximo da nação (ainda) presidencialista.

Disseminar o ódio, a hipocrisia, a maledicência, as condenações prévias, nem são lá tanto pecado assim, pelo que entendo, estou certo? Pode ser só meus olhos enevoados por angústia, Senhor. Perdão. Mas, aos olhos distraídos, vendo nossa Bancada Religiosa, dita "Bancada Evangélica" não fazer nada contra o Presidente daquela Casa (pelo contrário: vê-los aplaudir e aplaudir inclusive um defensor de torturadores de humanos)... Vendo não ser feito nada contra discursos de ódio e intolerância. Vendo gente defendendo e aplaudindo torturadores (insisto nisso) de regimes anteriores, (mas recentes e vívidos ainda) nos serve para quê? Qual o ensinamento por trás disso? Confesso que apenas me serve para dar náuseas. Rememoro Fernando Pessoa e digo: "(...) tenho vontade de vomitar - e de vomitar a mim... Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o". E deixo a questão ainda rememorando Pessoa: "(...) Santo Deus, que entroncamento esta vida!". A cada esquina, a cada dia, cruzaremos com mais náusea, náusea, náusea...Até quando?

Bancada de ruralistas? Não vou generalizar, mas gente que têm visto seus latifúndios infiltrando centímetro a centímetro nossa terra com agrotóxicos, pensando apenas nos lucros da produção? Tentando vender produtos "vegetais" aceitos legalmente sem o aviso de serem "transgênicos" ao povo? E de bom grado? Qual a ética nisso? Gente que está acabando com nossas nascentes, com nosso aquífero Guarani, p.ex., enquanto ganha, ganha e ganha seu dinheiro com mãos sujas e infiltradas em agrotóxicos? Ganham. Ganham muito. Não enriquecem (apenas - pois uma coisa não exclui a outra) na forma de dízimo alheio, mas na forma da exploração da maquinaria que substituiu o lavrador... Por isso também! E os últimos lavradores ainda empregados que recebem emprego nessas imensas áreas devastadas (para plantio de soja, cana ou para virar pasto de gado) servindo ao exército de trabalho naquilo que chamam latifúndio? 

De fato, o "Funeral de um Lavrador", de Chico Buarque, ainda é tema padrão para ser cantado. Afinal, a cova em palmos medida é a conta menor que tantos, tantos miseráveis ainda seguem tirando em vida - com o suor de suas roupas e o esmigalhar de seus ossos. Enquanto perdem isso e sua autoestima, não tendo ninguém por eles, enriquecem a iniciativa privada latifundiária - o "agrobusiness". Isso é certo? Não sei. Sou só um pecados a mais do mundo - porém com náuseas por esse mundo. Mas esses exploradores sem limites da terra "trazem o progresso", irão retrucar de pronto os cidadãos de bem que concordam com tal álibi. Eu não quero discutir! Também me enoja. Entenda, Senhor: isso é apenas um desabafo... Longo desabafo, sei. Mas é que há muitas coisas entaladas como calos na garganta causando tantas, tantas náuseas.

Vendo tudo, canto em alta voz a canção de Radiohead que começa com "A heart that's full up like a landfill (...)" - "Um coração que está cheio como um aterro". Sim! Sinto-me um aterro! Tudo o que vi ontem me enoja e em nada me dá de explicações em esperanças! Os representantes do povo? Enojam-me. Os discursos em defesa do povo? Enojam-me! As vozes contra corrupção e pela idoneidade? Enojam-me. Minha imagem de meu país se contorce dentro de mim a ponto de me querer fazer vomitar. Por isso, desliguei a televisão. Já não aguentava mais ver todo aquele circo de ratos, patos etc - patrocinados, com ódio nos olhos, sangue na saliva como cães prontos a morder! Afinal, não se podendo mais patrocinar campanhas, o poder tinha que ser tomado para o grupo que vem perdendo há anos eleições (apesar dos tantos patrocínios) de alguma forma, não? Custasse quanto fosse: a hora era ali! Fez-se pato, fizeram-se bonecos infláveis, tomaram às mãos vuvuzelas. Lícito tudo isso! Mas limitado demais, aos meus olhos de pecados nauseado. De fato, a guerra oficialmente não acabou, porém, a derrota ética, moral, religiosa (inclusive) é muito maior que um resultado de processo de votação qualquer para colocar ou depor qualquer governo que fosse. 

A história há de nos julgar? Quem sabe? Espero mesmo que o Senhor esteja atento. E julgue! Há erros para todos os lados para condenações aos infernos que haja. Não somos mais como no trecho de Guimarães Rosa onde ele dizia do diabo na rua, em meio ao redemoinho. O "diabo" (não considero que ele exista como figura, mas dentro das pessoas, como coisa ruim) está por todos os lados, em todos os cargos, em todo canto - aplaudindo, aplaudindo... O Senhor mesmo disse que "nem todo aquele que diz 'Senhor, Senhor' " entrará no Reino dos Céus. Correto? Entendo que o Senhor não quer saber daquele que simplesmente fica por aí clamando "senhor, senhor...", mas quer saber de gente que age pelo bem, vencendo os males, o "diabo" interno do ser humano e da nação. Quer saber de gente que age pelo amor, pelos afetos, pela tolerância, pelo fim das desigualdades, pelo fim das torturas e ditaduras. Que age pelo fim do poder dos poderes (do dinheiro, eu digo) sobre as ações humanas e seus argumentos enviesados que compram e convencem. Entendi errado? Pode ser que sim. Sou um tolo. Sou pecador sofrendo por náuseas. Perdão!

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Carta a Deus - de número II

Ontem, Deus, foi o primeiro domingo (pelo que me lembro) em que o brasileiro esteve mais atento à política que ao futebol ou aos tradicionais programas da sua televisão dominical. Isso pode ser um avanço? Estamos ficando mais atentos? Não sei... Não tenho tantas esperanças ainda. Mas talvez seja uma forma de o Senhor nos indicar algo... Também foi uma das primeiras vezes em que o povo viu seus eleitos pelo voto "trabalhando" (atuando, achacando - ou seja lá como chamar aquilo) em pleno final de semana. Coisa rara - no que diz respeito ao trabalho deles! E foi também num domingo, apesar de tantas atrocidades que vimos (independente do resultado, pois ratos há em todo canto naquele cenário) que o brasileiro teve contato com aquilo que ele elege e viu que Poderes não são somente Executivo. Há o Legislativo... Há também, inclusive, o Judiciário. Ah... e há a mídia. Mas os dois últimos, apesar de tudo, não os elegemos.

Ao brasileiro comum, ontem foi o dia em que lhe apresentaram seus representantes eleitos na Casa do Povo! Ontem, o brasileiro comum teve acesso ao que é essa parte do poder Legislativo! Viu toda a podridão que ele (enquanto povo, enquanto eleitor) elege - mas que depois culpa apenas quem está lá, bem lá em cima e toma referência no Poder Executivo: o(a) Presidente(a). Sempre gostamos de "pegar um para Cristo". Não? Somos muito semelhantes aos nossos ancestrais, Senhor. 

Podemos trazer algo disso como aprendizado, Senhor? O brasileiro ter deixado de lado futebol para acompanhar política? Ou o brasileiro ter tido acesso ao conceito de Poder Legislativo, coisas que raramente se debatia por aqui? Ou talvez ter podido entender das consequências e atrocidades que surgem quando se elegem humanos de más intenções e caráter para tais cargos de tamanho poder - inclusive o de sonhar com retirar um(a) presidente(a)? Será então que, sabendo agora dos poderes do Poder Legislativo, vamos cobrar leis que fomentem melhoras amplas, coletivas, combatendo corrupção, combatendo irregularidades que minam nossa saúde e educação públicas de má qualidade há anos? Ou será que vamos achar que Poder Legislativo apenas deve ser "usado" para retirar quem quer que seja?

Ah, Senhor, sei que não merecemos muito crédito em tantas coisas, menos ainda na nossa capacidade de agir como cristãos. Enriquecemos tantos falsos-profetas com dízimos e etc. Aplaudimos tantos messias que em nada têm a ver com tudo quanto foi deixado como em sua Bíblia - e em textos de outros homens de bem que trazem em si e em seus discursos uma religião. Tomamos a preço de deuses os ganhos do capital sonhados na espera das "vitórias" ditadas como se fossem dadas pelo Senhor. Enriquecer hoje é mais importante ainda que agir de forma correta. E isso hoje em dia dá muito mais do que 30 moedas como no caso de Judas... 

Então, temos mesmo que sofrer, mas que, desse sofrimento causador de náuseas, surja algo bom enfim. Ver sempre triunfando a catástrofe e o poder nas mãos de gente que em nada carrega consigo os ideais de fraternidade, de bem comum, ou da indulgência ou da benevolência etc dói, cansa e, sim, faz querer vomitar todo o universo após comê-lo aos goles de lágrimas.

sábado, 16 de abril de 2016

Sobre nossa democracia, sobre nós, sobre vacas e carrapatos - data de 16/abril/2016

Certa vez, compararam vaca com democracia, carrapatos com políticos. Eu entendi. Quis deixar um resumo escrito. Pensar algo e refletir. Saiu então um texto. Quem sabe alguém leia? Quem sabe alguém concorde?

A democracia é uma vaca. Uma vaca recém criada, vistosa, que está dando ainda pouco leite, mas dá leite forte! E tem forças em suas entranhas para dar muito, muito mais leite. É admirada aqui e acolá por tanto leite (e do bom) que dá. Leite, muito leite. Para prover muito bem os cidadãos. De leite precisam! Precisam da vaca! 

A democracia, sim, pode ser vista como uma vaca. Os ganhos através dela podem sim serem vistos como o leite. Metáforas à parte, se bem entendem. Amemos nossa vaca, então, não? Prezemos por nosso leite? Não é óbvio? Aparentemente não é simples assim. Tenho acompanhado nosso povo e nossas redes de informação - televisão, internet etc. Ah, amo nossa vaca e o leite que ela dá. Queria poder fazer algo. No desespero: escrevo. Serve-me de catarse! Pronto.

Antes, por séculos, o país não teve vaca! Nem leite! Teve outras formas de alimentar seu povo. A imensa maioria ficava à mercê de uns que comandavam e comiam de tudo. O povo era provido por migalhas quaisquer caídas no chão - dadas ou que sobrassem... Uns tinham de tudo. Dominavam, mandavam e desmandavam nas leis, nas punições, nas solturas. Detinham todo poder e venciam juntos apesar de amplos fracassos... Viviam bem na harmonia de uma aristocracia que engenhosamente construiu um país repleto de plutocratas. Tempos idos? Não sei. Mas hoje temos nossa vaca que nos provê com seu leite. Precisamos lutar por ela! O povo não se contenta mais com migalhas. Estou certo?

Voltemos à vaca. Afinal, o período do parágrafo acima era de "vacas magras" para o povo. Não havia liberdades individuais, ou promessas e sonhos de ascensão social. Pobre? Era necessário apenas para ser mão de obra ou vir "do interior" para trabalhar nas casas como serviçais ou nas indústrias e construção civil como operários. Não? Negros? Eram resquícios do regime escravocrata que em nada teríamos a ver com ele nos dias de hoje... Certo? Desde que tivemos a ideia de termos uma vaca, termos um país amplo e uma nossa (aos nossos moldes) democracia, algo na cabeça das pessoas foi sendo construído. Conceitos de pluralidade... De benefícios aos desprivilegiados etc. Seria lindo se todos sonhassem juntos com um país menos desigual... Seria lindo.

Um dia, resolveram ver que a vaca estava grande e que havia leite bastante. Viram que o leite não devia ir para fora do país mais, mas sim para nosso povo mesmo! Nutrir em sua fome toda nossa nação faminta e largada às migalhas ainda. E assim foi feito. Através de nossa "vaca", foi-se dando um pouco, mas uma quantidade respeitável de leite, leite, leite... Ah, que coisa linda ver o povo deixando de ser faminto de muitas coisas... 

[ Voem metáforas... Voem ... ]

Mas, como toda boa vaca, atraíram-se vários carrapatos que quiseram (e querem) sugar a saúde da vaca. Carrapatos de vários tipos, tamanhos. De famílias de longos tempos de "carrapatices"  ou, também, carrapatos de vida recente, mas que sabiam desde logo sugar, sugar... Nada de serem comensais, algo assim, e contribuir de forma benéfica, lícita, respeitosa...! Sugavam... Sugavam...

Outros carrapatos cresceram às custas das sombras de seus carrapatos familiares, por vezes já falecidos. Outros carrapatos, em conchavos, ganharam espaço aos trancos e barrancos, minando nossa vaca leiteira daqui ou dali. Listas inteiras de carrapatos foram se acumulando, mas ninguém quis ver. Nossa vaca era grande demais para olharmos os detalhes dela. Olhávamos o todo e só. Era uma vaca. Pronto! E dava leite. Ponto!

Chegou então um tempo em que os carrapatos caíam por si mesmos. Sua ganância por sugar nossa vaca leiteira foi tanta que eles, preocupados em sugar, lavavam as mãos, digo, largavam as mãos - ou patas. Carrapatos caiam, caiam...caim... À esquerda, à direita, da cabeça ao tronco e aos pés: carrapatos gordos caindo aos montes, mas não vimos todos. Eram muitos e nem olhávamos de perto nossa vaca. Nos contavam dos carrapatos. Mas eram carrapatos de todos os tipos... De todas as cores. Em Listas, em grupos... Vimos com nossos próprios olhos alguns que nos traziam para perto dos olhos.

Daí, entendi: nosso leite indo para nutrir o povo incomodou muitos. Será que pensavam que o povo deveria voltar a viver de migalhas? Resolveram então culparam os carrapatos que estavam na cabeça da nossa vaca! Esqueciam-se por completo de que todo o resto do corpo era puramente carrapatos sobre carrapatos. Por todos os lados, sugando o sangue de nossa vaca tão produtiva. 

Nossa vaca passou a sentir-se fraca. Foi-nos sendo mostrado isso. A olhos vistos ou em números... Eram carrapatos demais em todo o seu corpo e a vaca sofria. O leite era difícil de ser furtivo, uma vez que a vaca estava sendo sugada e sobrevivia corajosamente sendo vilipendiada, sugada. Ah, coitada da vaca: tão jovem, com tanto leite já dado, ainda mais leite por ser dado e produzido, mas com maus cuidadores, tantos, relapsos - todos... Nossa vaca sofria. Carrapatos ficavam gordos e fortes. Sentiam-se fortes. Não tínhamos conhecimento de todos eles e nos era confortável pensar que eram poucos, um grupo só. Pronto! 

Enfim, todo o grupo de carrapatos se uniu contra os carrapatos que estavam na cabeça. Queriam estar naquela cabeça da vaca a incomodar os olhos dela e orientar novos horizontes à nossa vaca - ou levá-la ao matadouro, quiçá? Quem sabe isso? Sinto que alguns carrapatos ficariam felizes se voltássemos a dar migalhas ao povo, não? Iriam alguns carrapatos, sem a vaca, ser carrapatos em outras bandas... Eles ficariam bem, decerto, confiantes que estavam.

Tentaram, não conseguiram chegar à cabeça. Carrapatos então passaram a espalhar a notícia de que a vaca estava podre de carrapatos e mais carrapatos. Uns tantos esconderam-se por debaixo dos pelos para não serem vistos sugando. Diziam também que o leite não merecia receber nossa valorização, nem dar nosso  autoprestígio e nossa autoestima... Convenceram muitos dos cuidadores de que a vaca estaria perdida, danada, entregue, pronta e posta para morrer. 

Pronto, tudo caminhava bem! Decidiram ser viável então acabar com os carrapatos na cabeça da vaca. Como queriam fazer isso? Convencendo os cuidadores de dar um tiro na cabeça da vaca. Sim... E seria assim? 

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Até onde fiquei sabendo, a história da vaca era essa. Qual seria o fim da nossa vaca? Não sei dizer. Sei que há os carrapatos - na cabeça e, mais ainda, em todo o corpo. Sei que nossos cuidadores da vaca estão desatentos, indecisos, raivosos, desunidos, desinformados... 

A vaca nem tem dado tantos lucros mais assim, correto? Mas sei muito bem da força e da beleza de nossa vaca - de sangue forte, de entranhas firmes, de leite farto! Vaca de raça! Não quero que matem nossa vaca. Nem quero que nossa vaca tenha carrapatos, entretanto! Quero os carrapatos fora, um a um - estejam ou não escondidos debaixo dos pelos.

Quero nossa vaca sã e quero, acima de tudo, melhores cuidadores de nossa vaca. Assim, somente assim, teremos vaca, leite e cuidadores bons e fortes o suficiente para nunca mais haver carrapatos ou quaisquer que queiram vilipendiar nossa vaca (e nós mesmos!) de alguma forma. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sertão maior não há.

Sim, novamente estou refletindo. Nossa cabeça nunca para, não? E nesses últimos tempos, pensando, refletindo, em andanças pelos canais da televisão, pelos jornais, pela internet - com suas redes sociais: tenho pensado um pouco no nosso país - mais do que gostaria, até. 

De tudo: restou-me na mente um trecho de João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas: "...Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem estão é em quem faz; não é no efeito que dão. O senhor seguinte, me entende...".

E, nisso, vem outro pensador e sussurra. Fernando Pessoa, em trecho de poema seu: "...Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta (...) Que náusea no estômago real que é a alma consciente!"

Onde estará o fim desse atraso? Onde estará o ponto de onde partiremos para o progresso? Eita, país nosso! Sertão maior não há. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

1/4/2016

"Nunca se mente tanto quanto: numa guerra, em vésperas de eleição e após uma caça [ou pesca?!]". Já disseram certa vez... Também é jargão dizer: "numa guerra, a primeira que morre é a verdade".

Como é triste estarmos em guerra nesse Brasil dos anos idos de 2016... Mentiras por todos lados ainda! Ódio nas ruas... Vantagem atual? De um lado há investigação... De um lado há. 

Quem sabe a marcha pelo fim das mentiras se junte às contra corrupção e, acima de tudo, atinjam todos os "lados"? Investigações amplas que coloquem todos os mentirosos no seu devido lugar: longe do poder público e dos holofotes. 

Não é mesmo? Eu confio na justiça... Feliz Dia da Mentira.

Precisamos de um projeto de nação

Não há debates quanto a um projeto de país. É bem difícil, de fato, criar algo com unanimidade. Porém, é plausível construir algo aceitável aos olhos de boa parte ou da maioria. 

Qual país queremos? Eis a questão. Uns defendem um país que insista no combate às desigualdades com incentivos através de bolsas, através da inclusão (PROUNI, FIES, PRONATEC)... Debates com as minorias e empoderamento delas. Liberdades individuais inclusive para ascensão social. Em resumo tosco, poderia ser assim. 

Outros não creem nisso. Creem que país forte é país com empresas fortes, mandatários de grandes empreendimentos e fortunas com isenções e liberdades para que possam investir e gerar capital que irá circular. Sim? Não? Vejo isso.

Eu penso com a primeira hipótese. Até porque a segunda hipótese, mais amplamente difundida, perpetuou o mundo onde hoje temos 1% das pessoas tendo a riqueza de todas as 99% restantes e onde 62 pessoas, sim, 62 pessoas têm aquilo que metade das pessoas do planeta detém. Isso me causa alarde e acho que precisamos mudar essa realidade. Aos poucos, sim. E essa mudança inicia-se na educação crítica e reflexiva necessária, aos moldes de Paulo Freire e outros estudiosos, que culminará com debates e argumentações cada vez mais uníssonas e progressistas ao todo. Mas desde já: vamos iniciar nossos debates e cobrar uma educação em melhores moldes.

Enfim, qual país queremos? Qual modelo se identifica conosco? É preciso sim pensar e debater isso em casa, com amigos, na escola, faculdade, trabalho. Parar de apenas discutir se esse ou aquele governante é bom ou ruim, pois governantes passam, mas o país e a realidade não. O projeto de país que vai sendo construído é o que fica. E que haja justiça, sempre, para todos! Sem pessoas isentas de investigações por fazer parte desse ou daquele grupo. Basta disso e basta de conivência!

Precisamos debater! Embora haja tanto ódio nos argumentos hoje - secundário à visão messiânica que temos de política e atuação de setores de mídia/informação, no geral: cabe insistir em debater, ouvir, argumentar e aprender. Uns com os outros! Do contrário, estaremos sempre fadados a romper estruturas e recomeçar do zero, pois nunca conseguiremos ver coisas boas que possamos já ter achado, uma vez que nunca exercemos o dever de procurar saber o que buscamos, de fato. Somos formados para ser coniventes com projetos de poder, mas não com projetos de país. 

Quem não sabe o que procura, não entende o que acha. E, do que acha, não entendendo, desfaz-se facilmente. Daí, nunca teremos um "arranhacéu" como país, mas sempre "construções diminutas", de andares baixos, um ou dois, acostumados que estamos a sempre vir alguém para desconstruir os alicerces e recomeçar com outros moldes e novos norteamentos. Basta disso! Precisamos de um projeto de nação. 

quinta-feira, 31 de março de 2016

"And it makes me wonder" / E isso me faz pensar.

Há pessoas que pensam sim que tudo o que brilhe é ouro! Aceitam qualquer premissa. Qualquer coisa dourada é tida como verdadeira raridade incontestável de riqueza e superioridade. Qual riqueza? Qual superioridade ou em quê? Pouco importa! Somos uma aristocracia equivocada e morta em significados ou representatividade real. 

Para essas pessoas, não importa nem mesmo se é ouro aquilo, de fato. A questão é ostentar "raridades" brilhantes, douradas. Precisamos nos sentir especiais e únicos. Precisamos ter uma placa em nós, ou em nossas paredes, que nos configure algum valor, autoridade...Admiráveis, respeitáveis aos olhos dos outros! Sim, dos outros. Com isso, pouco sabemos de nós e de nossas trajetórias! E percebemos que, às vezes todos os nossos pensamentos são inquietantes - mesmo que não tomemos consciência deles, inicialmente. 

A vida é uma travessia, sim! Temos que trilhar, passo a passo, mesmo que nossos pés doam. E há pés calejados e que sangram em tantas pessoas. Geração após geração, tentam alcançar algo de bom para seus rebentos, seus descendentes. Há séculos muitos tentam caminhar e ter algo do paraíso prometido para si. Sonham encontrar a escadaria que os leve ao paraíso! Aceitam qualquer discurso, qualquer promessa. Aceitam até mesmo raridades douradas a serem colocadas no peito. Raridades essas que as tornarão mais especiais aos olhos de um deus qualquer conforme diz o padre ou o pastor ou outro qualquer dono da fé vigente. 

Nesse mundo de insanidades e crueldades, de tantas desigualdades desumanas, o que as pessoas mais querem é conseguir alcançar suas escadarias que as levarão ao paraíso. Sim, escadarias para o paraíso! Qualquer caminho ou atalho serve? Não. Há toda a travessia. Nessa travessia, somos obrigados a cruzar uns com os outros. Cruzamos nossas histórias. Cruzamos nossos olhares. Não raro, entretanto, cruzamos os braços para tudo de errado e cruel que vemos. 

Ah, a dor alheia não nos comove. Desviamos o olhar tentando não cruzar com ela e desconhecê-la. Mas, mesmo de braços cruzados às atrocidades reais, seguimos ostentando raridades de ouro no peito, com empáfia religiosa qualquer, que nos servem de distintivo numa ordem qualquer de um deus quiescente. 

Ah, sabe-se lá o que Deus pensa disso. Ele deve estar pouco preocupado em lavar as escadarias do céu - ou construí-las. Afinal, o que mais há é gente que clama por ele é tem alma podre, suja, má e, mesmo assim, querendo "subir". Digo isso da alma dessas pessoas! E muitos dos que têm os pés sujos, mãos calejadas e roupas maltrapilhas há gerações nessa Terra têm a alma limpa, leve, clara como a aura das pessoas de bem prometidas a Deus. E isso me faz pensar. Realmente me faz pensar.

Sujeira, beleza, pureza, bondade... Metáforas! Por vezes, as palavras são ambíguas. Mas o importante é a essência, não o que está escrito em si. Não? Assim é também para as ações. Muitos agem aos olhos alheios lindamente e são cruéis dentro de casa e com os mais humildes quando ninguém os vê ou os possa punir. Isso também se aplica aos textos: a essência! Mas há mais de um texto na cabeça de quem lê do que na cabeça de quem o escreveu, não raro. Daí, depende da leitura, de quem lê, da intensidade dos argumentos que tocam o leitor, da vontade desse de entender também, não somente da capacidade de transmitir em letras e sentenças. 

O mundo é feito de ações, mais ou menos claras e puras. Assim como os textos, as pessoas são ora mais, ora menos transparentes. Isso é um problema. O pior é que mais fácil é corrigir um texto que uma pessoa... Mais difícil ainda é corrigir o mundo!

Apesar de tudo, de todo ódio, de toda crença, de toda descrença: haverá um novo amanhã. Faremos leituras melhores do mundo futuro! Ouviremos novos sons, um vento que ressoe e tempere com alegria nossa alma. E isso nos guiará aos dias melhores. Você já consegue ouvir algum vento soprar? Chegados esses dias dias, seremos pessoas melhores e almas melhores. Chegaremos lá.

Nesses dias, não mais teremos que nos esforçar tanto com dogmas impostos, ou nos banhando em ouro, ou doando dízimos, ou jogando com promessas, ou ostentando fé para que haja alguma escadaria que nos leve ao paraíso. Não haverá necessidades socialmente aceitas de se parecer bom, ostentando bondade, ou caridades. Seremos bons, fraternos, solidários e humanos em todo o tempo! E toda a humanidade será para cada um como um nosso pai, uma nossa mãe, um nosso irmão e uma das nossas pessoas mais amadas, quais sejam. Tudo será um e esse "um" será tudo!

O paraíso estará dentro de nós e já teremos subido todos os degraus da escadaria que nos guiará à eterna plenitude, numa espécie de redenção que desde hoje - e desde sempre - almejamos nessa travessia humana tão aparentemente desamparada. E tudo isso me faz pensar... "And it makes me wonder". Ouço ser cantado. É Led Zeppelin. Stairway to heaven... 

Seremos todos por um. Um por todos! Humanidade. Irmãos. Seres bons! Seremos uma constante de união, não mais povo errante e aberrante como hoje ainda somos por tanto ódio e insanidade. Mais amor! Assim, subiremos as escadarias rumo ao paraíso, um dia.

O que há?

É 31 de março. Corpo? Em 2016. Memória? Está em 1964. Tempos difíceis. Os de antes... Os de agora... Como seguir? Como agir ou reagir? O que virá? Tempos de incertezas, sim. Muitas! Falsos mártires. Hipócritas em cada esquina. Cores pelas ruas e discursos pelos ares. Somos um enorme recipiente vazio de conteúdo, pois não somos os donos da situação. Não! Quem comanda poderes (quais sejam) pouco quer saber de nós em tempos como os nossos. Cabe a nós ter nossas pernas firmes. Temos tentado ter isso nesse mundo insano. Mas elas fraquejam... Não pensemos somente no Brasil então. Somos cidadãos do mundo. Deus nos proteja, então.

São muitos problemas para dentro de nossa geografia regional, territorial. São outros tantos além-mar, além, além... Mortes, atrocidades, discursos de ódio, fascistas e intolerantes por todos os cantos do globo. Grosseiras em plena luz do dia em banhos de sangue reais ou em metáfora. E nosso futuro? Agonizando, como sempre. E agoniza aos olhos de todos hoje, vinte e quatro horas por dia com o advento das telecomunicações e tantos avanços tecnológicos como, p.ex. - e principalmente - a internet.

Crianças morrem por todos os lados! Num canto, morrem com bombas amarradas ao corpo - p.ex., na Nigéria. Outras morrem em pleno mar, afogadas em águas geladas....geladas... Para serem encontradas numa praia esquecida. Praia que passa. Criança que passa. Morte que passa... Tudo passa! 

A morte passa bem debaixo de nossos olhos. Mas não as vemos. Mortes, não raro, são símbolos. Retratam de tudo quanto haja de ruim no entorno delas. O que está por trás delas? Precisamos pensar. Mas não estamos ávidos por pensar. Temos pressa! Corremos logo ao acordar para o trabalho. Trabalhamos. Cansados, voltamos pelo trânsito até nossas casas. Jantamos assistindo algo na TV. Enchemos nossa mente de frivolidades e vamos dormir. Onde entrará algum momento de refazimento moral, ético ou filosófico que nosso mundo precisa? 

Tantas mortes! Tantas crianças... Inocentes civis baleados, tendo suas casas invadidas, explodidas aqui e acolá. Mortes, mortes, golpes, golpes, violências... A insanidade toma os palanques e ganha aplausos. Ocas são destruídas nas aldeias que capangas assassinam indígenas. Casas são arrebentadas em cidades tomadas pelas guerras... Morrem tantos. E o silêncio é uma bomba atômica jogada em nossa alma. Com ele, parece que nada em nós restou. Indignação? Capacidade de se resignar? Capacidade de amar ao próximo em sua dor e defendê-lo? Não. Somos recipiente oco. Terra vazia. Pedaço de corpo sem nada mais que matéria frágil e não pensante.

Um índio morreu, pequeno que era, com uma lâmina que cortou-lhe o pescoço. Morreu sangrando no colo da mãe indígena que passava despercebida como uma artesã qualquer em meio à rua da cidade brasileira... Noutro canto do mundo, Taiwan, outra criança morreu com seu pescoço cortado por uma lâmina fria. Quantas lâminas mais matarão nossas crianças e nossas esperanças? Cortaram a cabeça da humanidade e, sem cabeça, perdemos a razão. Pode ter sido isso. Mas não pararam por aí! Enfiaram em nosso peito a mesma lâmina fria e cega. Mataram nossa razão e nosso sentimento. 

No mais, restaram na Terra corpos inertes. Todos aguardando, ao seu modo, que as escadas do céu se abram e que seus atos sejam perdoados. E assim, que possam todos subir aos braços de um deus qualquer que defendem - mas nada fazem em nome daquilo que defendem. Deuses esses que nada mais são, vejo hoje, que o refinamento dos depósitos que fazemos de esperanças num banco etéreo! Assim, depositada nossa esperança numa conta no céu que imaginamos, poderemos um dia comprar algo de realidade para nós que não seja essa que temos, tão torpe, cruel e desumana.


terça-feira, 8 de março de 2016

Feliz Dia da Mulher

Ainda hoje, ano de 2016, uma mulher que se diga feminista recebe olhares de escárnio. Por qual motivo somos tão ignorantes? Penso, reflito... As conclusões que chego são difíceis de resumir. Vou tentar abordar parte delas. 

Há menos de um século foi quando mulheres receberam (sim, tiveram de brigar por isso!) o direito de votar e serem votadas. Também há poucas décadas foi quando as mulheres passaram a parar de ter de aceitar casamentos arranjados - pelo menos no Brasil, pois tal realidade ainda ocorre em outros países. Sim, jovens de hoje, talvez não saibam nem entendam o que era isso, mas até há poucas décadas atrás as mulheres recebiam a determinação de com quem iriam se casar - ter filhos e para quem cozinhariam, costurariam e varreriam a casa. Sim! Afinal, foi também há menos de poucas décadas atrás que as mulheres passaram a poder sair dessa rotina da casa, "do lar", podendo cursar ensino superior, inclusive, e podendo sair daquele que era fado eterno e secular que lhes era determinado: serem esposas e servas do "seu homem"!

Até há poucos anos atrás, a violência contra as mulheres nem recebia atenção suficiente. Somente nos últimos anos foram criadas leis e delegacias específicas em nosso país para esse fim, para o controle desse mal. Até há poucos anos atrás, debater a beleza das mulheres que não fossem loiras, de olhos claros e pele branca era mito, algo quase impensado. Hoje, as mulheres e a sociedade começam a entender que belas são todas - quer sejam magras, gordas, baixas, altas, negras, brancas, pardas, loiras, morenas, de cabelos quais sejam em tipo e estilo... Beleza é algo que vem de dentro - começamos a entender! E a beleza maior que há é o respeito! Hoje, iniciamos processos de aprender a respeitar a beleza e os direitos alheios. Ainda estamos rastejando, mas que nossa caminhada nunca seja encerrada! Que não permitamos isso. Precisamos estar atentos, todavia. São tempos difíceis os nossos onde defender o óbvio passou a ser quase ilegal, socialmente.

Mulheres ainda hoje recebem escárnio quando se dizem feministas. Fato! Uma pensadora feminista ser tema de prova recente no nosso exame nacional para os estudantes foi motivo de ódios e não nos atentamos para a atrocidade de ter sido permitido todo aquele ódio que reverberou na TV, nas redes sociais etc. Aceitamos? Acho que sim...  Triste isso! Ademais, apenas há poucos anos atrás deram às mulheres o direito de registrar seus filhos sem a presença de um pai. Sim! O aborto feminino ainda é polêmico, mas não discutimos (e tornamos aceito!) o abortamento masculino. Afinal, um homem que escolhe "não ser pai" comete qual ato? Abortamento! Sim! E deixamos isso passar... Mas não percebemos e nem queremos debater isso. É direito do homem se esquivar. Às mulheres? Que fiquem com seus fados impostos e olhares de escárnio? É isso? Triste... Também foi há poucas décadas apenas quando as mulheres passaram a poder se divorciar sem receber olhares de desdém nas ruas - nas Igrejas, na própria família etc. Hoje, elas podem sair de relacionamentos e recebem certo apoio reconfortante - ainda há olhares de esquiva, mas são menos intensos. Avançamos um pouco em certas coisas.

Mulheres ainda em nossos dias recebem salários inferiores do que homens nos mesmos postos. Homens que exercem as mesmas funções que elas! Aceitamos isso! Faz parte das atrocidades socialmente aceitas? Acho que sim... Inclusive, um parlamentar nosso (que já ofendeu oficialmente uma mulher com palavras como "não te estupro, pois você não merece") já disse que mulheres devem receber salários menores mesmo, pois "elas engravidam". Esse parlamentar recebe aplausos e ganha voz nas ruas, nas redes sociais etc. Recebe apoio de outros parlamentares da bancada "religiosa" que tentam, inclusive, criar projetos que criminalizam o atendimento à mulher em casos de estupro, fazendo o profissional que prescreve anticonceptivo de emergência ser enquadrado como criminoso por isso. Aparentemente, isso é outra coisa que não vemos e nem damos atenção. No mais, parlamentares que pensam assim, ainda em nossos dias, viram "mito". Simone de Beauvoir, entretanto, ela que era (e segue sendo) inimiga e deve ser eliminada - inclusive das provas do ENEM. Viva nós!

Pensando, refletindo, observando e absorvendo as coisas do mundo, acabamos com certo tom de desamparo e tristeza. E olha que eu sou um homem que está pensando nesses temas. Imagine uma mulher pensando tudo isso? Mas não pode ser assim mais! Basta! 

Que sejamos fortes e que todos, homens e mulheres, estejamos a cada dia mais unidos pelos direitos alheios - os das mulheres, inclusive! Pensando isso, quando encontrarmos alguém com tom de escárnio para uma mulher que se diga feminista, saibamos responder: "guarde seu escárnio para si, companheiro, afinal quem o merece é você"!

Feliz Dia da Mulher. E que dias das mulheres sejam todos!

Dia da Mulher. Quer dia mais importante?

O dia de hoje é um dia em que temos que pensar muito. Nossa sociedade está em amadurecimento. Precisamos aprender a refletir e engolir menos argumentos pré-fabricados. Debates amplos e claros.

Mulheres ganharem menos que homens? Ainda é fato! Fazendo as mesmas funções e etc? Isso ainda é socialmente aceito? Vejo que sim. Não há mobilização suficiente para criar o devido alarde para isso e corrigir esse mal que é sequela de nossa sociedade machista. Um pretenso candidato, agora pelo PSC, à presidência já divulgou seu pensamento norteado da seguinte forma: mulheres deveriam ganhar menos, pois engravidam. Esse cidadão é aplaudido ainda. É parte dos modismos pseudo-idôneos que temos em nosso modelo messiânico de política...

Aparentemente também, não sabemos dos índices de vitimas de estupro e outras formas de violência contra as mulheres. Caminhamos a bons passos (não sei se passos largos, mas bons passos) para a criminalização efetiva desses tipos de violência e maior atenção, bem como maior facilidade às denúncias. Além de nossa ignorância voluntária sobre assuntos quanto aos chamados "direitos humanos" (que hoje em dia insistem em queimar enquanto conceitos), vemos parlamentares tidos por "religiosos" que defendem abertamente medidas de coerção e limitações ao sexo feminino, a ponto de postularem ideais de criminalizar profissionais de saúde que façam atendimento em casos de estupro, orientando o uso de medicação anticonceptiva de emergência. Isso é outra coisa pavorosa que temos sendo criada em nossas bancadas que passam incólumes, vomitando preconceitos e ódios diariamente enquanto enriquecem às custas do dízimo alheio, enquanto dizimam ideais progressistas de uma sociedade mais justa que merecemos ter.

Aparentemente também, esquecemos do nosso acervo de atrocidades televisivas. Recentemente, um grande canal de TV, em um programa de modinha sobre culinária, teve o fato pavoroso da pedofilia tomando corpo. Assédio e insulto com caráter agressivo e criminoso, em tom aberto de pedofilia, em redes sociais a uma participante daquele show! Todos viram. Deu certa repercussão, mas ínfima perto da gravidade do fato. Era uma criança! Criança que foi vítima de criminosos, pedófilos, despudorados, imbecis, que tomaram corpo nas redes sociais agredindo a criança com suas ofensas. Aquilo já foi esquecido! Não demos atenção? Não nos importa? Achamos que aquilo foi algo "isolado"? Não. É comum. É corriqueiro. É um mal e uma sequela de nossa sociedade de machismo e impunidade que reverberam um conceito sobre o outro.

O que mais precisamos pensar? Precisamos lembrar que tomou corpo campanha contra racismo quando uma repórter da maior rede de TV de nosso país foi vítima de comentários racistas em redes sociais. Tomou corpo o debate. Durou até um certo tempo aquele despertar do assunto... Mas morreu também. Mais ainda, morreu sem nos darmos conta de que aquela mulher teve sua defesa pela oportunidade de trabalhar na TV. Mas e as mulheres negras que sofrem preconceito e violências outras diariamente em periferias, nas ruas comuns do nosso dia a dia? Não fizemos uma reflexão ampla... Aparentemente, julgamos ser coisa "isolada" também tudo aquilo.

O que falar então dos padrões de beleza? A insinuação diária, diuturna, de que mulheres bonitas devem ser loiras, de corpo escultural e pele clara? Isso passará sempre incólume? Toda mulher é linda. Toda beleza é bela, ao seu modo peculiar e sem padrões! Não há padrões de beleza. Há padrões de argumentos torpes, isso sim. E quanto à beleza, os argumentos torpes são imensos, diários, e convencemos inúmeras mulheres lindas, aguerridas e fortes, de que elas não fazem parte dos "padrões". Deixamos essas mulheres à mercê de processos de destruição da auto-estima de todas elas quando não se inserem nos padrões pré-moldados de beleza. Faremos algo a respeito? É preciso!

No mais, o Dia da Mulher é um dia sublime. A presença da feminilidade nos faz ter um mundo mais leve, mais humano e, com sorte, há de ser vencido o machismo usual dos nossos padrões de pensamento, de beleza, de argumentação. Venceremos todo e qualquer mal da sociedade, um dia. O machismo é um desses males. Já é passada a hora de valorizarmos mais as mulheres e estarmos mais atentos ao caos que damos à elas ainda. 

Por dias melhores ao mundo e, em especial: por dias melhores às nossas mulheres.

Como perder as esperanças num momento onde a esperança é essencial?

O país está repleto de corrupção. Para alguns, é coisa recente. Descoberta aguda. Para outros, é uma infeliz realidade que, finalmente, começa a ser investigada e, aparentemente, há indícios de que podem haver punições. Coisa rara em nosso país - historicamente.

Porém, nosso povo quer mudar. Penso: mudar o quê? E como? Ainda não entendi. A infelicidade em ver que um governo de base popular como o petista que corrompeu-se é notória, autêntica e justa. Desanimador é pensar que gente proveniente do âmago do povo, eleita por base popular, sucumbiu a essa atrocidade secular em nossas terras que é a corrupção. Em nada diferiram esses eleitos dos plutocratas de sempre! Mas, como ponto positivo recente em nossa história: nunca tivemos Procurador Geral da República livre para atuar, independência e atuação efetiva de Ministério Público Federal nem, mais ainda, atuação efetiva de Polícia Federal e independente.

O que, em contrapartida, vemos? Vemos povo nas ruas querendo que ditadura militar volte. Nunca leram livros de história? Não viveram aquela época? Quem investigava e condenava eram os poderosos, logo: óbvio que naquela época ninguém investigou nada de errado do governo. No período pós-ditadura, mantivemos mais de década sem nada ser investigado. Escândalos guardados a sete chaves, na gaveta. A justiça fazendo olhos cegos. Um ex-presidente nosso da era democrática, inclusive, em seu livro de autobiografia deixou claro que sabia de escândalos de corrupção em nossa pátria, que havia sido alertado, mas nada fez. Um antigo jornalista famoso por seus comportamentos excêntricos, de nome Paulo, perdeu sua vida em meio a um processo no final dos anos noventa após afirmar que nossa Petrobrás era um antro de corrupção. Como não havia investigação, como ninguém apurava nada, ele morreu sem conseguir provar seus argumentos e, mais ainda, tendo recebido um processo em que perdeu e seria obrigado a pagar multa de cem milhões aos "ofendidos". Viu sua morte certa por um mal súbito...

Ora, como podemos ser tão cegos? O que  mais me revolta é ver, de fato, um governo de origem em base popular ter sido eleito, eleição após eleição, e não ter feito reformas de base profundas (mais ainda na educação que seria alicerce para superarmos nossa ignorância secular) e mais ainda não ter banido de seu partido os líderes e sub-líderes com comprovado envolvimento em corrupção. Seria um alento e tanto à sociedade sedenta por justiça tal postura. Mas não. Tal partido ter sido mantido no poder, em si, não me preocupa ou incomoda. O que me preocupa e decepciona é ver que pouco ou nada foi feito por aquele partido para banir e dar voz aos insatisfeitos com a atrocidade da corrupção que viu-se ocorrer sob a égide daquele Governo Federal vigente, de base popular sabida. Um governo de base popular deveria ter mais força para honrar seu povo, inclusive, rompendo com seus partidários que caíssem em atos ilícitos. Mas não foi o que vimos. Isso gerou mais ainda insatisfação e permitiu espaços para ódios...

Sim, vimos, como dito, reforço aos mecanismos legais para investigação de crimes do Estado nos últimos anos - passando pela PF, MPF e PGU mais efetivos. Isso foi um enorme ganho! Decerto, daí em diante, os erros do partido mandante perdem um pouco de espaço para os erros do povo. Sim, do povo. Passamos a ver que diferença enorme faz quando temos investigados um governo. Passamos a ver surgirem denúncias de toda espécie, a todos os partidos com suas bandeiras sempre pautadas em idoneidade. Vimos Estados e Governo Federal envolvidos em escândalos e mais escândalos. Mas, o que o povo fez? Aceitou a premissa de que hoje havendo denúncias e, enfim, investigação, seria por existir corrupção somente hoje. Ignorância voluntária? Ledo engano? Qualquer brasileiro em sã consciência sabe do nosso passado sórdido de nunca haver investigações nem muito menos punições aos altos escalões por atos ilícitos. Mas, o que pedem nas ruas? Fim do partido atual no governo para colocar outro. Esquecem, ignoram todo o histórico dos partidos que tomam voz na oposição de maneira oportunista. Esquecem tantas coisas...

Ótimo, mudar sempre é bom quando estamos decepcionados, mas mudar para quem? Engolimos os discursos de idoneidade de nossos partidos de oposição? Pedimos mudança e clamamos apoiando partidos sabidamente envolvidos em escândalos que, pasmem, não são investigados nunca? Que atitude patriótica ou heroica é essa? Conseguem ser barrados processos quaisquer em esferas inferiores todas as investigações de certos partidos. Vemos claramente que nunca tomam vulto denúncias e suas respectivas investigações a certos partidos, mas isso não assusta o povo? Como podemos criar isso dentro de nossos ideais de melhorias? Alimentamos uma cobra que pode, enfim, nos dar mais um bote sórdido e derradeiro, quiçá...

Enfim, consigo entender que o brasileiro gosta não de arrumar a casa. Ele gosta de varrer a poeira para debaixo do tapete, pois, assim, pode deixar sua vassoura de lado, inocentemente, pensando não haver sujeira mais a ser limpa. Dá menos trabalho quando nos convencemos de que problemas reais não existem. Porém, na verdade, pisamos nessa sujeira escondida diariamente e não deixamos que ela desapareça. Somos coniventes! Um mal que não vemos é um mal que inexiste? Aparentemente , alguns pensam uns. E não são poucos.

Eu temo! Temo pelo pior. Temo pelo poder retornando às mãos dos plutocratas de sempre. Temo por partidos e atos ilícitos que nunca são investigados. Temo pela justiça que inocenta pessoas que fazem um crime "X" e não investigam outras supostamente criminosas pelo mesmo crime "X". O que queremos? Não sei. Mas o que querem os poderosos? O poder. E ele, de fato, nunca foi e, aparentemente, nunca será nosso. Aparentemente, somos contra os crimes de pessoas que temos por inimigos, mas não contra os crimes em si. Aos nossos "amigos", o perdão. Aos nossos inimigos, todo o rigor da lei. O que dirão os livros de história no futuro? O que nos dirão nossos descendentes? Temo! Estou atento, entretanto. Quero lembrar bem desses momentos decisivos da história do meu país.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O que eu gostaria?

Ah, o que eu gostaria? Gostaria de muitas coisas. Sou um homem sonhador, brasileiro, nascido no século passado e que, por ora, atingiu seu degrau dos trinta anos de idade. Penso e sonho, mas isso tem sido um problema nos nossos dias. Talvez sempre tenha sido assim. Acho que a tendência é que todas as gerações tenham acreditado que suas épocas eram sempre as piores de todos os tempos. Não tenho a pretensão derrotista de me achar no pior momento da história, mas nem por isso sou otimista a ponto de sorrir gratuitamente a tudo e a todos.

Sou brasileiro, como disse. Nasci numa época de transição. Acabava um regime assassino que tantas pessoas matou em ditadura sórdida e iniciavam novo período onde, em teoria, o povo teria mais acesso aos cargos políticos - seja votando ou, até mesmo, montando seus partidos e se candidatando a algo. Pronto! Eram ventos promissores os que recebi enquanto nascituro. Elegeram-se presidentes, um após outro. Um deles caiu, já de início. Escândalos? Ah, sim... Sempre houve tantos. Vários! Apenas um caiu, decerto. Acho que nunca saberemos os reais motivos de apenas um ter caído, mas o fato histórico é esse. Mas ele reergueu-se. Tomou cargos para si novamente no processo democrático. Aparentemente ele tendo sido um presidente deposto, fracassado, não levou seus possíveis eleitores a mudar de opinião. Concretizaram seus votos nele novamente e novamente Brasília passou a ter aquele ex-presidente deposto desfilando pelos seus corredores.

Ele caiu. Veio outro. Trouxe uma moeda nova e seu topete famoso ao público, à nação brasileira. A moeda Real trazia uma realidade nova. E trouxe. Veio outro presidente em seguida. Assumiu para si  os louros da moeda de seu antecessor. Conseguiu manter-se no poder aprovando a proposta de reeleição. Entregou empresas nacionais ao mercado externo. Aparentemente, aos olhos da sua base de apoio, não somos aptos ou competentes o suficiente para manter nossas próprias empresas sob nosso comando. Talvez fosse por saber que nosso povo corrompe as coisas. Melhor seria ter criado investigações ou incentivado leis mais punitivas a corruptos e corruptores, não? Não. Decidiu não investigar nada. Tivemos anos de inércia jurídica como sempre foi. Presos eram os ladrões de galinha, os índios ou sem teto que invadiam territórios tentando ter algo para si... Sabe-se lá quem mais. Mas figurões corruptos? Corruptores? Nada disso. Passamos oito anos e nada... Sabe-se lá por qual motivo. Talvez a esperança de manter mais quatro anos nas mãos do seu partido fizesse com que não fossem levantadas possíveis corrupções naquele governo. Pegaria mal para a credulidade quanto à chapa idônea que se montava para o pleito eleitoral. Eis que o tal pleito veio e um barbudo antigo rival tomou o poder. Retirou o "doce" da boca dos que pensaram que se manteriam com o poder nas mãos. Algo ocorreu... Mais do que o resultado de uma eleição, iniciou um novo tempo em nossa história.

Aquele sucessor iniciou reformas interessantes. Foi eleito pelo clamor dos movimentos sociais, decerto. Mas nunca tomou para si reformas de base, reformas amplas na estrutura hierárquica eu autoperpetuadora que sempre houve. De certa forma, tentando colocar eixos e taxar (como adoramos fazer), o governo daquele homem foi, no máximo, de centro-esquerda. Pronto! E, nesse modelo modesto de mudanças, algumas foram belas, de fato. Muitas pessoas e regiões que nunca foram vistas pelos olhos do poder público passaram a ter algo nas mãos. Programas de inserção em universidades, em cursos técnicos, em projetos de alfabetização, ampliação dos mecanismos de geração de saúde via Sistema Único de Saúde, bolsa família. Muita coisa ocorreu e aquele presidente tomou para si um messianismo que foi levado adiante como nenhum outro recente exemplar do cenário político plutocrata havia sido levado. Em meio a esse poder que teve nas mãos, viu-se surgir a derrocada. Corrupção que sempre existiu, que sempre se manteve e se perpetuava ad eternum foi deixada. Investigações surgiram. Punições também. Mas ninguém veio a público salientar que o partido estaria tomando providências e que o próprio presidente tomaria atitudes. Fingimos, como sempre, que tudo ficaria bem. Mas nunca ficaria. Nunca ficou.

Os setores fortes do mercado, as grandes corporações e a liberdade das instituições jurídicas foram arregaçando as mangas. O mundo passou por uma enorme crise financeira. Na esperança de que nosso milagre seria maior do que se imaginava, não muito foi feito. Não tomaram medidas coercitivas para proteger o Estado e, mais ainda, a economia para que os pobres, sempre maiores vítimas, não sofressem. O tempo passou. O bolso passou a ter menos dinheiro. Dos grandes empresários? Não. Do povo. Mas com o incentivo da mídia, sempre aliada aos poderes conservadores do nosso país, o medo da pobreza voltou a tomar parte nas rodas de conversas. A classe média, sempre amedrontada pelo medo de perder espaço pela ascensão das classes inferiores - e essa ascensão ocorreu - tomou para si novamente discursos de décadas passadas. A plutocracia tomou para si bandeiras de idoneidade, de amor à pátria e a ignorância tomou corpo. Ideais de ódio, à beira do fascismo, preencheram cartazes e discursos. As leis não mais eram amplas e para todos. Traçaram bem as jogadas em um jogo de xadrez em que o país perde, mas os poderosos ganham, sempre. O tido por rei, em questão, precisava cair. Ele era - como todos os presidentes e chefes de Estado - outro peão, pois as grandes corporações são reis e rainhas. Mas não, criaram o culpado, o anti-herói e o inimigo do Estado. Fecharam os olhos para o fato de corrupção ter de ser investigada desde os mais antigos períodos que conseguíssemos para que pudéssemos punir de forma exemplar todos, todos, todos... Mas não. 

Não era interessante consertar o país e arrumar os alicerces da corrupção arraigada em nosso Estado. O interessante era destituir um partido, uma classe que se sentia com poder agora e retornar ao modelo antigo de poder pautado em manutenção de privilégios aos mais abastados e, com sorte, torcer para um dia esses privilégios serem espalhados caso a meritocracia falaciosa fosse utilizada pelas classes majoritárias, pobres. Os culpados sempre deveriam ser investigados e punidos. Fossem tidos por "de direita", ou "de esquerda". Afinal, bandido não tem lado, tem culpa. Pronto! Mas não. O povo foi convencido a fechar os olhos para tantas barbáries suspeitas e até mesmo confirmadas que nunca foram investigadas, pois não eram dos coligados ao partido que recebia por ora o ódio. Sim, dependia da atenção do ódio as ações da mídia e, logo, do povo - comandado pelos clamores ditados. 

E fez-se assim um país imaginário, onde o povo mantém voluntariamente os privilégios dos que dizem que vãos os proteger, mas estão saqueando como todos os culpados da vez fazem e fizeram. O povo, sem agir com lógica e até mesmo sem agir com idoneidade, aplaude ações tendenciosas e parciais. Com isso, a justiça segue cega com uma balança tendenciosa como o próprio povo passou a ser. 

Eis a questão. É hora de mudar tudo para que tudo seja mantido como sempre foi. A plutocracia deve manter-se no poder - o povo aceitou isso! E o mesmo povo que achava ter conseguido algo de poder com a limitada evolução recente aos povos dos degraus mais baixos da sociedade é o que assiste televisão babando de alegria com as novas peças que se movem no tabuleiro. Perdendo apenas peões, eis que as regras mudam e o cheque-mate é dado com o rei mantido protegido por rainhas, cavalos, bispos... Somos um povo habituado a ver seus peões morrendo enquanto os reis abanam lenços brancos em despedida falsamente comovida. Pronto. Todos pela pátria, e a pátria pelos poderosos - sempre.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mudanças?


"Só há pessimismo. Não há esperanças!". Ouço declarações assim desde que nasci! As pessoas de nossa espécie atendem muito facilmente aos ataques de pessimismo. Isso ocorre também aos ataques de outros sentimentos ruins como ódio, preconceito etc. Somos uma espécie dotada de grande capacidade de adequação às sensações auto-destrutivas e nada progressistas como todas essas.

Há motivos para desanimar? Sim. Sempre houve. Por anos, séculos ou milênios ainda haverá muitos motivos. Somos humanos. Somos dotados de uma infinidade de vícios e falhas. Somos muitos. Tantos quanto nunca havíamos conseguido ser. Ainda além do alto teor numérico de pessoas que temos em nossa espécie em nossos tempos, temos acesso aos atos de tantos (sejam pessoas em específico ou de povos, como um todo) através da internet e, com ela, pela mídia. A distribuição da informação hoje é rápida como um tiro. Sim. 

A questão sobre nossos dias é: rediscutir o pessimismo? Não! É adaptar nossos olhos ao otimismo! É incentivar o bem e que ele, enfim, se perpetue. Uma atitude boa feita hoje, em qualquer lugar, pode tomar os olhos de gente em todo o mundo. Sim, graças ao advento das tecnologias e da internet. Daí, a questão é: o que você procura na mídia? O que você vê pela internet? É fato, nossos jornais (perdão pela palavra, mas não encontro outra melhor) vomitam em nossas casas temas incentivando preconceitos, interpretações enviesadas dos nossos reais problemas - sem falar de um incentivo diário, diuturno, para que desanimemos e para que tenhamos medo, medo, medo. Ódio também, adoram incentivar.

Enquanto nos odiamos, enquanto tenhamos medos de agir, nada mudaremos. Nada ajudaremos. Nenhum progresso poderemos impetrar em nossa realidade. Afinal, ódio e medo servem a quem? À desunião. Desunidos, inimigos uns dos outros, somos fracos enquanto seres, enquanto grupo, enquanto nação, enquanto espécie. Somos presa fácil aos interesses de quem lucra com nossos medos e ódios, nossos preconceitos de desânimos. Como vencer isso? Mudando padrões!

Jesus, Sócrates, Confúcio... Tantos pensadores, religiosos ou não, passaram e deixaram lindas mensagens pela Terra. Perpetuaram suas boas ações e belos discursos? Sim! Por algum motivo, conseguiram ter seus escritos e ideais perpetuados. A arte da escrita, nas mãos de gente com interesse em compartilhar ensinamentos adquiridos, foi o fator motivador daquilo. Hoje, com a internet, não precisamos ser um Jesus ou um Sócrates para ter algo de bom para compartilhar. Podemos compartilhar amor, fraternidade, tolerância e paz. Sim! Em ações ou palavras. A qualquer momento. Em frases ou atitudes. Em escritos ou em vídeos. Estamos prontos? Estamos dispostos? Melhor seria apenas insistirmos em odiar e manter nossos preconceitos? Espero que não. Precisamos mudar. 

Nossos descendentes tem a tão palpável chance de receber um mundo com grande otimismo, promissor para melhorias relevantes serem perpetuadas. Basta de gente com ódios mantendo-se forte nos altos cargos e liderando grupos de domínios quaisquer sobre nós, reles cidadãos comuns em meio a esse mundo onde mandamos pouco, mas podemos tanto. Seremos dotados dessa capacidade de mudar? Tomados por essa responsabilidade para com nossos filhos e netos? Espero que sim. 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sem nome

O excesso de conhecimento deveria ser responsável pelo excesso de responsabilidades automaticamente atribuíveis, não? O mesmo deveria ocorrer para o excesso de riqueza, excesso de qualquer outra coisa... Mas não! O conhecimento não nos tem tornado responsáveis. Ou melhor, a culpa não é do conhecimento, mas de nós. Então, a frase correta seria: nós não temos nos tornado responsáveis com o conhecimento.

obra de Eduardo Marinho
Ótimas escolas formam ótimos jovens? Formam jovens preparados para fazerem boas provas para boas instituições de ensino superior! Não? Sim! Passamos por pelo menos 12 anos de escola, da pré-escola ao ensino médio completo, para estarmos aptos a fazer uma prova de ritual de passagem. Ritual esse para entrar em uma universidade e dizer-se no ensino superior. Superior? Em qual sentido? Há tantos formados em ensino assim que em nada são superiores a ninguém. Afinal, ninguém, a bem dizer, é superior a ninguém! Então, na minha forma de ver, ensino "superior" é uma farsa!

Uma vez que eu consegui atingir degraus dessa escalada da denominada "meritocracia", paro e penso: qual mérito eu tenho? Dirão: "você se formou. Teve boas notas. Hoje tem sua profissão!". Então, por essa lógica, eu estou de "parabéns", não? Não! Nunca passei fome, sede, frio. Nunca tive necessidade de trabalhar para ajudar no meu próprio sustento, ou de meus familiares ou em outras circunstâncias. Tive a sorte de poder ter privilégios desde que nasci. Daí, fui bem alimentado, tive acesso a cultura, a livros, ao conhecimento. Depois disso tudo, fui indo de ano em ano na escola, formando em cada grau (ou degrau) da ascensão escolar e hoje sou formado pelo ensino superior sonhado por tantos. Que mérito eu tenho? Nenhum! Era obrigação minha ter algo se essa fosse minha opção de vida! Meritocracia? Falácia.

Quem tem méritos? Méritos tem o pobre, o miserável, o exemplar de qualquer parte menos favorecida dentro dos conceitos sociais que temos. O pobre que ano após ano vive uma vida de exploração, trabalhando duro, em profissões pouco valorizadas, humilhado - não raro - diariamente, obrigado a pegar condução esgueirando-se dentro de ônibus lotados de gente infeliz que vem ou vai para seus trabalhos. Sem condições de se dedicar a estudos, ao ganho de conhecimentos. Sem condições de ter acesso a boas escolas, pois as boas escolas são caras, são pagas. Sem condições nem de adoecer, afinal, o direito de adoecer é uma condenação aos corpos cansados desses cidadãos. Ficam em filas enormes; esperam atendimentos que muitas vezes se dão por profissionais que nem gostam de estar atendendo pessoas "como eles". Sem condições de sonhar com melhorias, afinal, as classes dominantes não se regozijam com estratégias de redução das desigualdades! Querem seus privilégios mantidos mas não entendem a necessidade (e responsabilidade) de expandir privilégios para os que não são dotados de nenhum! Como são as classes dominantes que dominam tudo - obviamente - incluindo a política, nenhuma esperança de melhorias sociais é aos miseráveis desprivilegiados como direito, afinal: os humildes sabem que não deixarão estratégias pelo bem comum irem adiante... 

Méritos tem o negro que nasce sabendo-se descendente de um povo que foi maltratado, humilhado, assassinado, destruído, usurpado, esquecido e que, ainda assim, insiste diariamente em lutar com dignidade pelos seus méritos! Mérito há nisso! E negro esse que ainda hoje é obrigado a conviver com pessoas que acham que dizer sobre os danos sociais que a escravidão ainda repassa aos nossos dias é balela. Pessoas que insistem em fingir que todos têm as mesmas chances de ascender nos degraus da "amada" meritocracia. Falácia quase que cômica - para não ser trágica. Méritos tem o pobre que ano após ano perde suas casas e sua história com enchentes, por exemplo. Que dia após dia perde seus filhos, amigos e outros entes queridos pela violência gratuita e comum do Estado e de quaisquer milícias nas periferias - mas nem mesmo tem o direito de ter sua segurança virando parte do clamor social em defesa deles. Esses sim têm méritos! Os privilegiados têm somente privilégios. Méritos? Quais?  

Nascer com boa saúde, com casa, comida, roupa lavada, com acesso às boas escolas e à cultura, ao conhecimento e, ao final de tudo, dizer-se "bem sucedido" não é mérito algum para ninguém! É consequência. É sim um privilégio mantido que, através da inércia que se aplica aos corpos e às coisas, tende a manter tudo no mesmo estado. E privilégios mantém-se! Quem ergue, ergueu e erguerá tudo quanto temos são os pobres. Desde os tempos mais antigos até nossos dias! Sempre foi e é assim. Desde a rua asfaltada, ao poste colocado, ao alimento colhido e vendido, à rua varrida: todos esses atos comuns que nem valorizamos são feitos por pobres que, em nossos discursos, deixamos esquecidos e não os valorizamos em nada! Quem costura e forma nossas roupas? Um pobre em alguma empresa. Quem constrói nossos carros? Um pobre em alguma empresa. Quem coleta nosso lixo? Um pobre em alguma empresa. Quem valoriza cada um deles? Nem o Estado. Nem as empresas. Nem nós! Mal pagos, mal valorizados, mal vistos - inclusive!, os pobres escondem-se nas periferias, afinal, não há espaço para eles em outros locais. O mercado imobiliário cerceia, com preços, classes de migrarem de bairros! Um apartheid imobiliário, quase.

As ruas são formadas (e repletas!) por pobres, desde os miseráveis aos algo menos desvalidos - quase de classe média. Esbarram-se uns nos outros pelas calçadas e dentro dos meios de condução públicos. Os ricos e os miseráveis com alguns privilégios a mais (chamados de "classe média") andam em seus carros, fechados dentro dos vidros que os separam e isolam do mundo. Alheios ao real! Sim! Os donos do mundo, os milionários e bilionários, nem mesmo andam pelas ruas. Voam! Passam de helicópteros da casa para seus prédios-escritórios! Nem sabem o cheiro do povo ou das ruas! Não se misturam. E são esses últimos, financiando através de suas empresas candidatos nas eleições, os que, de fato, governam e comandam. Os que, de fato, pesam nas decisões de ordem pública! Afinal, sim: políticas públicas são tomadas sob aval de oligarcas. A plutocracia manda, mandou e mandará - será que para sempre?

No mais, nós, comuns, ficamos inertes nessa busca falaciosa e incessante por "méritos". Competindo uns com os outros. Aceitando a premissa publicitária que nos vendem de que, para sermos algo na vida, temos de ter mais que os outros em nosso entorno têm. Nos convencemos que somos melhores se temos privilégios e mais coisas para ostentar! Todos os concidadãos se nos tornam rivais nessa lógica que nos implantam! Rivalizando, somos inimigos. Sendo inimigos, somos desunidos. Desunidos, somos (mais facilmente ainda) presos pelos tentáculos da publicidade do mundo falso que nos vomitam diariamente incentivando a ter, ter, ter..! Não nos vale de nada sermos melhores pessoas, melhores filhos, pais, irmãos, profissionais. Bom é quem ganha mais, ostenta mais, quem pode mais! Amor, fraternidade, responsabilidade com o entorno? Isso é coisa para outro momento... Nunca é foco sermos melhores, mais fraternos, dotados de mais amor! Cobram de nós sermos mais ricos, bem sucedidos e, obviamente, bem vestidos e donos de posses que possam ser ostentadas. Nada mais! E isso convence a maioria, infelizmente! Todos nós, embebidos num caldo falacioso de falsas-verdades, num mundo de consumo onde consumimos o mundo e a nós mesmos para sustentá-lo - sustentando com nossos atos os privilégios de quem inicia toda essa lógica mas em nada se preocupa conosco. Somos todos parte de uma maioria que, no nosso país, é cristã, mas que, aparentemente, nem mesmo conhece a história e ensinamentos de Cristo, a bem dizer, vendo nossos atos e culpas.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Dedos para lá. Dedos para cá.

A corrupção de partido nenhum poderia ser abafada! A luta pela correção e ética deveria ser ampla. Todo e qualquer indício de corrupção, suspeitada apenas ou comprovada, deveria ser buscada à fundo. Tanto pela justiça como também pelos que se dizem jornalistas e, até mesmo, pela população!

Jornalismo no nosso país virou um acervo de programas televisivos de caça e denúncia sensacionalistas! Mas nada de apuração à fundo e ampla que serviria para coibir todo e qualquer expoente também corrupto que tente se utilizar do desprestígio do desprestigiado da vez. Isso só nos torna mais alienados sobre tudo quanto haja de podre. 

Estaremos sempre escravizados ao fado de sermos mantidos nas mãos de grupos eleitoreiros? Ou seja: grupos que apenas querem assumir o poder e manter os privilégios de quem os financiou e os impulsiona, ou os protege, ou lhes são "iguais"?  Embora tenhamos a sorte de, em nosso cenário, ainda haver alguma oscilação (ontem um partido, hoje outro, amanhã? Não se sabe...), haverão de ser, em essência, os mesmos sempre! Com as mesmas práticas, os mesmos escândalos, os mesmos apoiadores usufrutuários das benesses que conseguem em medidas provisórias e direcionamentos de recursos do Estado para si próprios. O dinheiro que alguém dá ao Estado vai à propaganda de si mesmo, gerando proteção de seus interesses e benfeitorias legais que são empurradas garganta abaixo no povo.

Vemos isso nos governos estaduais, nos governos municipais... Vemos, desde ao presidente ao sindico do prédio, um interesse de ganhar acima de tudo, a todo custo, benefícios para si e para os seus próximos. O dever de exercer o cargo em benefício do progresso de todos? Fica como plano de propaganda, de publicidade eleitoreira. Nas próprias instituições (de legislativo e executivo), em tese democráticas, com tantas pessoas sendo caçadas por corrupção... Basta ver a quantidade de atos ilícitos de servidores no ano passado (2015), por exemplo. Centenas de servidores desligados de seus cargos por atos ilícitos como, inclusive, corrupção.

Sociedade corrompida? Sim! Isso é secular. Sempre quisemos estar próximos aos nossos "senhores" para podermos ter algum benefício ou alguma garantia de segurança. Não? À medida que os "senhores" foram ficando mais distantes de nós (embora continuem existindo e exercendo seus poderes), tivemos de passar a arranjar formas de viver. Os esforços que tantos tinham por estar próximos aos seus "senhores" foram por terra e ficaram às próprias custas. Nosso "jeitinho" para as coisas (que há e sempre houve!) foi a alternativa usada por tantos na vida comum nesse desmame de benesses após terem ficado distantes dos seus "senhores". 

Precisa acabar e pronto, tudo isso! Acabar a enormidade de pessoas que conseguem, de alguma forma, estar por cima da lei, da nossa constituição. Basta de "senhores". Basta de capangas dos interesses alheios que usurpam os direitos dos demais, da coletividade. Saber que somos uma sociedade habitualmente corrompida é um fato, mas isso não pode servir de aceitação para que nada mude. É passada a hora de criarmos com isso uma condição de auto-crítica para dias melhores serem exigidos e, de fato, chegarem até nós.

Partidos deveriam fazer sua auto-crítica. Os filiados também - sobre si e sobre suas entidades. Não? Situação e oposição nadam no mesmo mar de lama. Um jogo de xadrez que visa estar por sobre a cadeira de presidente, de governador, de prefeito... Sempre é e foi assim! Nossa participação? Reclamar dos que não gostamos e abafar a podridão dos que estão "do nosso lado". Fazemos isso no dia a dia, "perdoando" os nossos próximos e condenando atos idênticos aos que não são do nosso convívio direto. Não? Mas isso precisa mudar.

Se partidos (quaisquer deles) fossem voltados ao povo, aos interesses coletivos como o conceito de política traz em si: todo e qualquer escândalo seria motivo de punição aos seus "irmãos". Doesse o quanto fosse, mas que, até prova de inocência, estivessem longe de qualquer poder ou força enquanto políticos que são. Não temos isso. Mensalões de psdb, de pt... todos deixando à esmo a devida punição. Por sorte, o governo tem feito mudanças que conseguem tornar procuradores em mais que engavetadores. Mas os próprios partidos deveriam mudar, agir, punir. Dar exemplo!

De "metrolão", de privatização, de "petrolão"... Estamos todos cansados. A nação sangra e sangra... O que seja ilícito ou suspeito que seja levado à justiça e procurem-se erros, falhas, corruptores e corrompidos. Nada de sigilos e silêncios seletivos. Basta! De desvios na estatal ao metrô de uso comum: tudo deve ir à fundo enquanto suspeito que seja. Quem não tem nada a esconder, por qual motivo teme e esconde-se com arquivamentos e sigilos? Tantos por nossas terras que escondem-se comprando mais poder de calar, de silêncio adquirido junto aos seus comuns e à mídia tentando fingir que nada acontece ou aconteceu... Até quando?

Até quando vamos ter essa maratona de "quem vai chegar na frente daqui a quatro anos"? A "corrida eleitoral" precisa acabar! Enquanto os partidos (e quem os financia) "correm", nós, Brasil, continuamos a dar passos curtos à frente e muitos para trás! Quando haverá um projeto de país? Quando haveremos de ter debates amplos, plurais, que procurem dar apoio ao mais simples miserável até o mais endinheirado banqueiro? Um país, de fato, de todos? Quando superaremos essa rotina de projetos pessoais de políticos e projetos corporativistas de partidos tomando força, ganhando com apoio do sistema que os financia em suas maratonas? Quando se encerrará o apoio cego de massas inteiras em meio ao povo alienado diante desse cenário nebuloso que sempre tivemos? 

Sedentos por justiça? Estamos todos! Que indivíduos políticos que tenham se corrompido caiam todos nas redes da justiça! Mas que não sejamos hipócritas de apontar dedos a uns apenas enquanto esquecemos de apontar para outros. Afinal, quando apontamos para algo, um único dedo vai na direção do outro enquanto outros três apontam para nós! Basta de criar eventuais messias que irão coroar a nação com o progresso! Basta de política messiânica e cega. Vale refletir. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Cidadão de bem?


Alguém vai e tenta explicar que um bandido menor de idade, por exemplo, poderia ser diferente se tivéssemos uma cultura diferente, de formação de indivíduos diferente, onde o foco de formar pessoas para o bem fosse presente em todos os lares através de um país menos desigual. Logo que você começa a falar algo assim, supostamente defendendo o bandido, alguém grita: "você diz isso pois nunca foi assaltado ou vitima de alguma coisa". Sim! Nem todos do mundo um dia foram vítimas de algo, mas isso não nos impede de pensar. Mas o peso da medida aí é a indignação e o ódio contra aquele que causa danos ao cidadão perpetuando o caos. Certo? Tudo bem. Sigamos.

Por outro lado, alguém vai e mostra que nossos policiais formados em nosso modelo atual (digo, p.ex., dos casos de excessos da PM dos Estados de São Paulo e Paraná) estão agredindo, espancando, agindo violentamente contra cidadãos professores, estudantes, manifestantes - nas ruas exigindo respeito por parte dos governos às suas bandeiras. Mas vemos todos defendendo que o excesso de agressividade tem de ser controlado e punido? Defendendo que as pessoas nas ruas exigindo melhorias têm de ser respeitadas? Não. Tomam para si discursos de: "tem que bater mesmo", "esse povo tem é que apanhar". Daí, pergunto: essa pessoa que pensa assim não usa transporte público? Ou não é professor? Ou não seria acometida pelos danos preocupantes à sua educação enquanto estudante? Ou, melhor dizendo: se um dia algum policial for agressivo para cima de um cidadão que pense assim, defenderá ele o que? Que a policia, no caso dele, seja pacata e desmilitarizada, enquanto para cima dos outros seja à paus e cassetetes, ou bomas e tiros?

Quais pesos e quais medidas usamos na balança dos argumentos nossos? Ao invés de criticar movimentos nas ruas, o cidadão comum ajudaria seu país estando presente, levantando pautas e melhorando os movimentos caso ele não concordasse com as pautas deles. Pronto. Melhorias, afinal: é o que todos, todos querem (ou deveriam querer) para educação e transporte público, por exemplo. Não? Não, aparentemente. 

Nossa condição é amplamente confusa. Não poderia ser diferente. Somos um país enorme, com pequenos pedaços por onde sempre houve enorme incentivo ao lucro e poder, enquanto outros pedaços de nossas terras sempre foram exploradas com seu povo sendo pisoteado nelas pelos abusos alheios também para incentivo ao lucro e poder - mas em poucas mãos, sempre. Dessa forma, somos um amontoado de pessoas distintas em infinitos aspectos, em um território quase de tamanho continental, que deixou por séculos a imensa maioria das pessoas na miséria enquanto uma minoria abastada comia, bebia e comemorava seus louros e seu ouro. Hoje, mais pessoas tomam para si a voz, os microfones, o empreendedorismo e o empoderamento das classes miseráveis está a cada dia mais tornando-se debatido, fortalecido e claro. 

Há tanto ódio ainda por ser verbalizado nas redes sociais, nas ruas etc? Há mesmo esse poço de raivas seletivas que pede cassetetes e bombas para cima de uns (cidadãos de bem como nós)? Quem pede todo ódio ao cidadão "do mal" que caiu na "bandidagem", p.ex., nunca pensará em levantar a questão de que esses cidadãos, quase todos, não tiveram nem educação, nem lar, nem saúde e nem, diga-se também, transporte público de qualidade nunca na vida? Esse cidadão "do mal" nasceu do mal e pronto? Não houve falhas com as quais somos coniventes - da educação ou do sistema como um todo? Não entenderemos todos que um indivíduo assim formou-se "mau" por nossa conivência? Com a desgraça desumana que transforma tantos  cidadãos comuns (iguais, em essência, a nós - diga-se de passagem!) em miseráveis sem muitas alternativas na vida por toda sua existência nesse mundo falsamente promissor para todos? Acabam por existir bandidos demais proporcionalmente à desgraça ampla que perpetuamos. Os males que causam alarde são consequência bruta de males que deixamos de ver e de agir por sobre eles.

Então, se você é um cidadão "de bem" que acha lindo estudantes apanhando, assim como movimentos sociais sendo transformados em vilões da nação ou ainda que pensa que nordestinos não sabem votar e que devem, de alguma forma, ser deixados de lado ou vistos como inferiores: se você fosse um dia pobre, entenderia o quão longe de uma igualdade e uma equidade razoável para todos estamos? E se você fosse um indígena, por exemplo, entenderia os males que afligem esse povo? Entenderia que os discursos que você odeia têm sim fundamento - embora alguns venham a postar-se contra privilégios seus, por vezes? O cidadão "do mal" que exterioriza seu ódio na marginalidade à qual sucumbiu é tão pior que você, cidadão "de bem" e bem criado, que exterioriza seu ódio nos preconceitos diretos ou indiretos que fomenta, verbaliza e, não raro, leva às vias de fato? Que país somos? 

Quão vasta é nossa terra? Geógrafos podem dizer. Questão de métrica, de matemática. Mas quão vasta é nossa ignorância ou quão vasto é nosso ódio? Quem poderá dizer? Questões que não se medem em números, mas sim estimam-se através de reflexões e conclusões.