O excesso de conhecimento deveria ser responsável pelo excesso de responsabilidades automaticamente atribuíveis, não? O mesmo deveria ocorrer para o excesso de riqueza, excesso de qualquer outra coisa... Mas não! O conhecimento não nos tem tornado responsáveis. Ou melhor, a culpa não é do conhecimento, mas de nós. Então, a frase correta seria: nós não temos nos tornado responsáveis com o conhecimento.
| obra de Eduardo Marinho |
Uma vez que eu consegui atingir degraus dessa escalada da denominada "meritocracia", paro e penso: qual mérito eu tenho? Dirão: "você se formou. Teve boas notas. Hoje tem sua profissão!". Então, por essa lógica, eu estou de "parabéns", não? Não! Nunca passei fome, sede, frio. Nunca tive necessidade de trabalhar para ajudar no meu próprio sustento, ou de meus familiares ou em outras circunstâncias. Tive a sorte de poder ter privilégios desde que nasci. Daí, fui bem alimentado, tive acesso a cultura, a livros, ao conhecimento. Depois disso tudo, fui indo de ano em ano na escola, formando em cada grau (ou degrau) da ascensão escolar e hoje sou formado pelo ensino superior sonhado por tantos. Que mérito eu tenho? Nenhum! Era obrigação minha ter algo se essa fosse minha opção de vida! Meritocracia? Falácia.
Quem tem méritos? Méritos tem o pobre, o miserável, o exemplar de qualquer parte menos favorecida dentro dos conceitos sociais que temos. O pobre que ano após ano vive uma vida de exploração, trabalhando duro, em profissões pouco valorizadas, humilhado - não raro - diariamente, obrigado a pegar condução esgueirando-se dentro de ônibus lotados de gente infeliz que vem ou vai para seus trabalhos. Sem condições de se dedicar a estudos, ao ganho de conhecimentos. Sem condições de ter acesso a boas escolas, pois as boas escolas são caras, são pagas. Sem condições nem de adoecer, afinal, o direito de adoecer é uma condenação aos corpos cansados desses cidadãos. Ficam em filas enormes; esperam atendimentos que muitas vezes se dão por profissionais que nem gostam de estar atendendo pessoas "como eles". Sem condições de sonhar com melhorias, afinal, as classes dominantes não se regozijam com estratégias de redução das desigualdades! Querem seus privilégios mantidos mas não entendem a necessidade (e responsabilidade) de expandir privilégios para os que não são dotados de nenhum! Como são as classes dominantes que dominam tudo - obviamente - incluindo a política, nenhuma esperança de melhorias sociais é aos miseráveis desprivilegiados como direito, afinal: os humildes sabem que não deixarão estratégias pelo bem comum irem adiante...
Méritos tem o negro que nasce sabendo-se descendente de um povo que foi maltratado, humilhado, assassinado, destruído, usurpado, esquecido e que, ainda assim, insiste diariamente em lutar com dignidade pelos seus méritos! Mérito há nisso! E negro esse que ainda hoje é obrigado a conviver com pessoas que acham que dizer sobre os danos sociais que a escravidão ainda repassa aos nossos dias é balela. Pessoas que insistem em fingir que todos têm as mesmas chances de ascender nos degraus da "amada" meritocracia. Falácia quase que cômica - para não ser trágica. Méritos tem o pobre que ano após ano perde suas casas e sua história com enchentes, por exemplo. Que dia após dia perde seus filhos, amigos e outros entes queridos pela violência gratuita e comum do Estado e de quaisquer milícias nas periferias - mas nem mesmo tem o direito de ter sua segurança virando parte do clamor social em defesa deles. Esses sim têm méritos! Os privilegiados têm somente privilégios. Méritos? Quais?
Nascer com boa saúde, com casa, comida, roupa lavada, com acesso às boas escolas e à cultura, ao conhecimento e, ao final de tudo, dizer-se "bem sucedido" não é mérito algum para ninguém! É consequência. É sim um privilégio mantido que, através da inércia que se aplica aos corpos e às coisas, tende a manter tudo no mesmo estado. E privilégios mantém-se! Quem ergue, ergueu e erguerá tudo quanto temos são os pobres. Desde os tempos mais antigos até nossos dias! Sempre foi e é assim. Desde a rua asfaltada, ao poste colocado, ao alimento colhido e vendido, à rua varrida: todos esses atos comuns que nem valorizamos são feitos por pobres que, em nossos discursos, deixamos esquecidos e não os valorizamos em nada! Quem costura e forma nossas roupas? Um pobre em alguma empresa. Quem constrói nossos carros? Um pobre em alguma empresa. Quem coleta nosso lixo? Um pobre em alguma empresa. Quem valoriza cada um deles? Nem o Estado. Nem as empresas. Nem nós! Mal pagos, mal valorizados, mal vistos - inclusive!, os pobres escondem-se nas periferias, afinal, não há espaço para eles em outros locais. O mercado imobiliário cerceia, com preços, classes de migrarem de bairros! Um apartheid imobiliário, quase.
As ruas são formadas (e repletas!) por pobres, desde os miseráveis aos algo menos desvalidos - quase de classe média. Esbarram-se uns nos outros pelas calçadas e dentro dos meios de condução públicos. Os ricos e os miseráveis com alguns privilégios a mais (chamados de "classe média") andam em seus carros, fechados dentro dos vidros que os separam e isolam do mundo. Alheios ao real! Sim! Os donos do mundo, os milionários e bilionários, nem mesmo andam pelas ruas. Voam! Passam de helicópteros da casa para seus prédios-escritórios! Nem sabem o cheiro do povo ou das ruas! Não se misturam. E são esses últimos, financiando através de suas empresas candidatos nas eleições, os que, de fato, governam e comandam. Os que, de fato, pesam nas decisões de ordem pública! Afinal, sim: políticas públicas são tomadas sob aval de oligarcas. A plutocracia manda, mandou e mandará - será que para sempre?
As ruas são formadas (e repletas!) por pobres, desde os miseráveis aos algo menos desvalidos - quase de classe média. Esbarram-se uns nos outros pelas calçadas e dentro dos meios de condução públicos. Os ricos e os miseráveis com alguns privilégios a mais (chamados de "classe média") andam em seus carros, fechados dentro dos vidros que os separam e isolam do mundo. Alheios ao real! Sim! Os donos do mundo, os milionários e bilionários, nem mesmo andam pelas ruas. Voam! Passam de helicópteros da casa para seus prédios-escritórios! Nem sabem o cheiro do povo ou das ruas! Não se misturam. E são esses últimos, financiando através de suas empresas candidatos nas eleições, os que, de fato, governam e comandam. Os que, de fato, pesam nas decisões de ordem pública! Afinal, sim: políticas públicas são tomadas sob aval de oligarcas. A plutocracia manda, mandou e mandará - será que para sempre?
No mais, nós, comuns, ficamos inertes nessa busca falaciosa e incessante por "méritos". Competindo uns com os outros. Aceitando a premissa publicitária que nos vendem de que, para sermos algo na vida, temos de ter mais que os outros em nosso entorno têm. Nos convencemos que somos melhores se temos privilégios e mais coisas para ostentar! Todos os concidadãos se nos tornam rivais nessa lógica que nos implantam! Rivalizando, somos inimigos. Sendo inimigos, somos desunidos. Desunidos, somos (mais facilmente ainda) presos pelos tentáculos da publicidade do mundo falso que nos vomitam diariamente incentivando a ter, ter, ter..! Não nos vale de nada sermos melhores pessoas, melhores filhos, pais, irmãos, profissionais. Bom é quem ganha mais, ostenta mais, quem pode mais! Amor, fraternidade, responsabilidade com o entorno? Isso é coisa para outro momento... Nunca é foco sermos melhores, mais fraternos, dotados de mais amor! Cobram de nós sermos mais ricos, bem sucedidos e, obviamente, bem vestidos e donos de posses que possam ser ostentadas. Nada mais! E isso convence a maioria, infelizmente! Todos nós, embebidos num caldo falacioso de falsas-verdades, num mundo de consumo onde consumimos o mundo e a nós mesmos para sustentá-lo - sustentando com nossos atos os privilégios de quem inicia toda essa lógica mas em nada se preocupa conosco. Somos todos parte de uma maioria que, no nosso país, é cristã, mas que, aparentemente, nem mesmo conhece a história e ensinamentos de Cristo, a bem dizer, vendo nossos atos e culpas.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier