É 31 de março. Corpo? Em 2016. Memória? Está em 1964. Tempos difíceis. Os de antes... Os de agora... Como seguir? Como agir ou reagir? O que virá? Tempos de incertezas, sim. Muitas! Falsos mártires. Hipócritas em cada esquina. Cores pelas ruas e discursos pelos ares. Somos um enorme recipiente vazio de conteúdo, pois não somos os donos da situação. Não! Quem comanda poderes (quais sejam) pouco quer saber de nós em tempos como os nossos. Cabe a nós ter nossas pernas firmes. Temos tentado ter isso nesse mundo insano. Mas elas fraquejam... Não pensemos somente no Brasil então. Somos cidadãos do mundo. Deus nos proteja, então.
São muitos problemas para dentro de nossa geografia regional, territorial. São outros tantos além-mar, além, além... Mortes, atrocidades, discursos de ódio, fascistas e intolerantes por todos os cantos do globo. Grosseiras em plena luz do dia em banhos de sangue reais ou em metáfora. E nosso futuro? Agonizando, como sempre. E agoniza aos olhos de todos hoje, vinte e quatro horas por dia com o advento das telecomunicações e tantos avanços tecnológicos como, p.ex. - e principalmente - a internet.
Crianças morrem por todos os lados! Num canto, morrem com bombas amarradas ao corpo - p.ex., na Nigéria. Outras morrem em pleno mar, afogadas em águas geladas....geladas... Para serem encontradas numa praia esquecida. Praia que passa. Criança que passa. Morte que passa... Tudo passa!
A morte passa bem debaixo de nossos olhos. Mas não as vemos. Mortes, não raro, são símbolos. Retratam de tudo quanto haja de ruim no entorno delas. O que está por trás delas? Precisamos pensar. Mas não estamos ávidos por pensar. Temos pressa! Corremos logo ao acordar para o trabalho. Trabalhamos. Cansados, voltamos pelo trânsito até nossas casas. Jantamos assistindo algo na TV. Enchemos nossa mente de frivolidades e vamos dormir. Onde entrará algum momento de refazimento moral, ético ou filosófico que nosso mundo precisa?
Tantas mortes! Tantas crianças... Inocentes civis baleados, tendo suas casas invadidas, explodidas aqui e acolá. Mortes, mortes, golpes, golpes, violências... A insanidade toma os palanques e ganha aplausos. Ocas são destruídas nas aldeias que capangas assassinam indígenas. Casas são arrebentadas em cidades tomadas pelas guerras... Morrem tantos. E o silêncio é uma bomba atômica jogada em nossa alma. Com ele, parece que nada em nós restou. Indignação? Capacidade de se resignar? Capacidade de amar ao próximo em sua dor e defendê-lo? Não. Somos recipiente oco. Terra vazia. Pedaço de corpo sem nada mais que matéria frágil e não pensante.
Um índio morreu, pequeno que era, com uma lâmina que cortou-lhe o pescoço. Morreu sangrando no colo da mãe indígena que passava despercebida como uma artesã qualquer em meio à rua da cidade brasileira... Noutro canto do mundo, Taiwan, outra criança morreu com seu pescoço cortado por uma lâmina fria. Quantas lâminas mais matarão nossas crianças e nossas esperanças? Cortaram a cabeça da humanidade e, sem cabeça, perdemos a razão. Pode ter sido isso. Mas não pararam por aí! Enfiaram em nosso peito a mesma lâmina fria e cega. Mataram nossa razão e nosso sentimento.
No mais, restaram na Terra corpos inertes. Todos aguardando, ao seu modo, que as escadas do céu se abram e que seus atos sejam perdoados. E assim, que possam todos subir aos braços de um deus qualquer que defendem - mas nada fazem em nome daquilo que defendem. Deuses esses que nada mais são, vejo hoje, que o refinamento dos depósitos que fazemos de esperanças num banco etéreo! Assim, depositada nossa esperança numa conta no céu que imaginamos, poderemos um dia comprar algo de realidade para nós que não seja essa que temos, tão torpe, cruel e desumana.