Ainda hoje, ano de 2016, uma mulher que se diga feminista recebe olhares de escárnio. Por qual motivo somos tão ignorantes? Penso, reflito... As conclusões que chego são difíceis de resumir. Vou tentar abordar parte delas.
Há menos de um século foi quando mulheres receberam (sim, tiveram de brigar por isso!) o direito de votar e serem votadas. Também há poucas décadas foi quando as mulheres passaram a parar de ter de aceitar casamentos arranjados - pelo menos no Brasil, pois tal realidade ainda ocorre em outros países. Sim, jovens de hoje, talvez não saibam nem entendam o que era isso, mas até há poucas décadas atrás as mulheres recebiam a determinação de com quem iriam se casar - ter filhos e para quem cozinhariam, costurariam e varreriam a casa. Sim! Afinal, foi também há menos de poucas décadas atrás que as mulheres passaram a poder sair dessa rotina da casa, "do lar", podendo cursar ensino superior, inclusive, e podendo sair daquele que era fado eterno e secular que lhes era determinado: serem esposas e servas do "seu homem"!
Até há poucos anos atrás, a violência contra as mulheres nem recebia atenção suficiente. Somente nos últimos anos foram criadas leis e delegacias específicas em nosso país para esse fim, para o controle desse mal. Até há poucos anos atrás, debater a beleza das mulheres que não fossem loiras, de olhos claros e pele branca era mito, algo quase impensado. Hoje, as mulheres e a sociedade começam a entender que belas são todas - quer sejam magras, gordas, baixas, altas, negras, brancas, pardas, loiras, morenas, de cabelos quais sejam em tipo e estilo... Beleza é algo que vem de dentro - começamos a entender! E a beleza maior que há é o respeito! Hoje, iniciamos processos de aprender a respeitar a beleza e os direitos alheios. Ainda estamos rastejando, mas que nossa caminhada nunca seja encerrada! Que não permitamos isso. Precisamos estar atentos, todavia. São tempos difíceis os nossos onde defender o óbvio passou a ser quase ilegal, socialmente.
Mulheres ainda hoje recebem escárnio quando se dizem feministas. Fato! Uma pensadora feminista ser tema de prova recente no nosso exame nacional para os estudantes foi motivo de ódios e não nos atentamos para a atrocidade de ter sido permitido todo aquele ódio que reverberou na TV, nas redes sociais etc. Aceitamos? Acho que sim... Triste isso! Ademais, apenas há poucos anos atrás deram às mulheres o direito de registrar seus filhos sem a presença de um pai. Sim! O aborto feminino ainda é polêmico, mas não discutimos (e tornamos aceito!) o abortamento masculino. Afinal, um homem que escolhe "não ser pai" comete qual ato? Abortamento! Sim! E deixamos isso passar... Mas não percebemos e nem queremos debater isso. É direito do homem se esquivar. Às mulheres? Que fiquem com seus fados impostos e olhares de escárnio? É isso? Triste... Também foi há poucas décadas apenas quando as mulheres passaram a poder se divorciar sem receber olhares de desdém nas ruas - nas Igrejas, na própria família etc. Hoje, elas podem sair de relacionamentos e recebem certo apoio reconfortante - ainda há olhares de esquiva, mas são menos intensos. Avançamos um pouco em certas coisas.
Mulheres ainda em nossos dias recebem salários inferiores do que homens nos mesmos postos. Homens que exercem as mesmas funções que elas! Aceitamos isso! Faz parte das atrocidades socialmente aceitas? Acho que sim... Inclusive, um parlamentar nosso (que já ofendeu oficialmente uma mulher com palavras como "não te estupro, pois você não merece") já disse que mulheres devem receber salários menores mesmo, pois "elas engravidam". Esse parlamentar recebe aplausos e ganha voz nas ruas, nas redes sociais etc. Recebe apoio de outros parlamentares da bancada "religiosa" que tentam, inclusive, criar projetos que criminalizam o atendimento à mulher em casos de estupro, fazendo o profissional que prescreve anticonceptivo de emergência ser enquadrado como criminoso por isso. Aparentemente, isso é outra coisa que não vemos e nem damos atenção. No mais, parlamentares que pensam assim, ainda em nossos dias, viram "mito". Simone de Beauvoir, entretanto, ela que era (e segue sendo) inimiga e deve ser eliminada - inclusive das provas do ENEM. Viva nós!
Pensando, refletindo, observando e absorvendo as coisas do mundo, acabamos com certo tom de desamparo e tristeza. E olha que eu sou um homem que está pensando nesses temas. Imagine uma mulher pensando tudo isso? Mas não pode ser assim mais! Basta!
Que sejamos fortes e que todos, homens e mulheres, estejamos a cada dia mais unidos pelos direitos alheios - os das mulheres, inclusive! Pensando isso, quando encontrarmos alguém com tom de escárnio para uma mulher que se diga feminista, saibamos responder: "guarde seu escárnio para si, companheiro, afinal quem o merece é você"!
Feliz Dia da Mulher. E que dias das mulheres sejam todos!