Ah, o que eu gostaria? Gostaria de muitas coisas. Sou um homem sonhador, brasileiro, nascido no século passado e que, por ora, atingiu seu degrau dos trinta anos de idade. Penso e sonho, mas isso tem sido um problema nos nossos dias. Talvez sempre tenha sido assim. Acho que a tendência é que todas as gerações tenham acreditado que suas épocas eram sempre as piores de todos os tempos. Não tenho a pretensão derrotista de me achar no pior momento da história, mas nem por isso sou otimista a ponto de sorrir gratuitamente a tudo e a todos.
Sou brasileiro, como disse. Nasci numa época de transição. Acabava um regime assassino que tantas pessoas matou em ditadura sórdida e iniciavam novo período onde, em teoria, o povo teria mais acesso aos cargos políticos - seja votando ou, até mesmo, montando seus partidos e se candidatando a algo. Pronto! Eram ventos promissores os que recebi enquanto nascituro. Elegeram-se presidentes, um após outro. Um deles caiu, já de início. Escândalos? Ah, sim... Sempre houve tantos. Vários! Apenas um caiu, decerto. Acho que nunca saberemos os reais motivos de apenas um ter caído, mas o fato histórico é esse. Mas ele reergueu-se. Tomou cargos para si novamente no processo democrático. Aparentemente ele tendo sido um presidente deposto, fracassado, não levou seus possíveis eleitores a mudar de opinião. Concretizaram seus votos nele novamente e novamente Brasília passou a ter aquele ex-presidente deposto desfilando pelos seus corredores.
Ele caiu. Veio outro. Trouxe uma moeda nova e seu topete famoso ao público, à nação brasileira. A moeda Real trazia uma realidade nova. E trouxe. Veio outro presidente em seguida. Assumiu para si os louros da moeda de seu antecessor. Conseguiu manter-se no poder aprovando a proposta de reeleição. Entregou empresas nacionais ao mercado externo. Aparentemente, aos olhos da sua base de apoio, não somos aptos ou competentes o suficiente para manter nossas próprias empresas sob nosso comando. Talvez fosse por saber que nosso povo corrompe as coisas. Melhor seria ter criado investigações ou incentivado leis mais punitivas a corruptos e corruptores, não? Não. Decidiu não investigar nada. Tivemos anos de inércia jurídica como sempre foi. Presos eram os ladrões de galinha, os índios ou sem teto que invadiam territórios tentando ter algo para si... Sabe-se lá quem mais. Mas figurões corruptos? Corruptores? Nada disso. Passamos oito anos e nada... Sabe-se lá por qual motivo. Talvez a esperança de manter mais quatro anos nas mãos do seu partido fizesse com que não fossem levantadas possíveis corrupções naquele governo. Pegaria mal para a credulidade quanto à chapa idônea que se montava para o pleito eleitoral. Eis que o tal pleito veio e um barbudo antigo rival tomou o poder. Retirou o "doce" da boca dos que pensaram que se manteriam com o poder nas mãos. Algo ocorreu... Mais do que o resultado de uma eleição, iniciou um novo tempo em nossa história.
Aquele sucessor iniciou reformas interessantes. Foi eleito pelo clamor dos movimentos sociais, decerto. Mas nunca tomou para si reformas de base, reformas amplas na estrutura hierárquica eu autoperpetuadora que sempre houve. De certa forma, tentando colocar eixos e taxar (como adoramos fazer), o governo daquele homem foi, no máximo, de centro-esquerda. Pronto! E, nesse modelo modesto de mudanças, algumas foram belas, de fato. Muitas pessoas e regiões que nunca foram vistas pelos olhos do poder público passaram a ter algo nas mãos. Programas de inserção em universidades, em cursos técnicos, em projetos de alfabetização, ampliação dos mecanismos de geração de saúde via Sistema Único de Saúde, bolsa família. Muita coisa ocorreu e aquele presidente tomou para si um messianismo que foi levado adiante como nenhum outro recente exemplar do cenário político plutocrata havia sido levado. Em meio a esse poder que teve nas mãos, viu-se surgir a derrocada. Corrupção que sempre existiu, que sempre se manteve e se perpetuava ad eternum foi deixada. Investigações surgiram. Punições também. Mas ninguém veio a público salientar que o partido estaria tomando providências e que o próprio presidente tomaria atitudes. Fingimos, como sempre, que tudo ficaria bem. Mas nunca ficaria. Nunca ficou.
Os setores fortes do mercado, as grandes corporações e a liberdade das instituições jurídicas foram arregaçando as mangas. O mundo passou por uma enorme crise financeira. Na esperança de que nosso milagre seria maior do que se imaginava, não muito foi feito. Não tomaram medidas coercitivas para proteger o Estado e, mais ainda, a economia para que os pobres, sempre maiores vítimas, não sofressem. O tempo passou. O bolso passou a ter menos dinheiro. Dos grandes empresários? Não. Do povo. Mas com o incentivo da mídia, sempre aliada aos poderes conservadores do nosso país, o medo da pobreza voltou a tomar parte nas rodas de conversas. A classe média, sempre amedrontada pelo medo de perder espaço pela ascensão das classes inferiores - e essa ascensão ocorreu - tomou para si novamente discursos de décadas passadas. A plutocracia tomou para si bandeiras de idoneidade, de amor à pátria e a ignorância tomou corpo. Ideais de ódio, à beira do fascismo, preencheram cartazes e discursos. As leis não mais eram amplas e para todos. Traçaram bem as jogadas em um jogo de xadrez em que o país perde, mas os poderosos ganham, sempre. O tido por rei, em questão, precisava cair. Ele era - como todos os presidentes e chefes de Estado - outro peão, pois as grandes corporações são reis e rainhas. Mas não, criaram o culpado, o anti-herói e o inimigo do Estado. Fecharam os olhos para o fato de corrupção ter de ser investigada desde os mais antigos períodos que conseguíssemos para que pudéssemos punir de forma exemplar todos, todos, todos... Mas não.
Não era interessante consertar o país e arrumar os alicerces da corrupção arraigada em nosso Estado. O interessante era destituir um partido, uma classe que se sentia com poder agora e retornar ao modelo antigo de poder pautado em manutenção de privilégios aos mais abastados e, com sorte, torcer para um dia esses privilégios serem espalhados caso a meritocracia falaciosa fosse utilizada pelas classes majoritárias, pobres. Os culpados sempre deveriam ser investigados e punidos. Fossem tidos por "de direita", ou "de esquerda". Afinal, bandido não tem lado, tem culpa. Pronto! Mas não. O povo foi convencido a fechar os olhos para tantas barbáries suspeitas e até mesmo confirmadas que nunca foram investigadas, pois não eram dos coligados ao partido que recebia por ora o ódio. Sim, dependia da atenção do ódio as ações da mídia e, logo, do povo - comandado pelos clamores ditados.
E fez-se assim um país imaginário, onde o povo mantém voluntariamente os privilégios dos que dizem que vãos os proteger, mas estão saqueando como todos os culpados da vez fazem e fizeram. O povo, sem agir com lógica e até mesmo sem agir com idoneidade, aplaude ações tendenciosas e parciais. Com isso, a justiça segue cega com uma balança tendenciosa como o próprio povo passou a ser.
Eis a questão. É hora de mudar tudo para que tudo seja mantido como sempre foi. A plutocracia deve manter-se no poder - o povo aceitou isso! E o mesmo povo que achava ter conseguido algo de poder com a limitada evolução recente aos povos dos degraus mais baixos da sociedade é o que assiste televisão babando de alegria com as novas peças que se movem no tabuleiro. Perdendo apenas peões, eis que as regras mudam e o cheque-mate é dado com o rei mantido protegido por rainhas, cavalos, bispos... Somos um povo habituado a ver seus peões morrendo enquanto os reis abanam lenços brancos em despedida falsamente comovida. Pronto. Todos pela pátria, e a pátria pelos poderosos - sempre.