Certa vez, compararam vaca com democracia, carrapatos com políticos. Eu entendi. Quis deixar um resumo escrito. Pensar algo e refletir. Saiu então um texto. Quem sabe alguém leia? Quem sabe alguém concorde?
A democracia é uma vaca. Uma vaca recém criada, vistosa, que está dando ainda pouco leite, mas dá leite forte! E tem forças em suas entranhas para dar muito, muito mais leite. É admirada aqui e acolá por tanto leite (e do bom) que dá. Leite, muito leite. Para prover muito bem os cidadãos. De leite precisam! Precisam da vaca!
A democracia, sim, pode ser vista como uma vaca. Os ganhos através dela podem sim serem vistos como o leite. Metáforas à parte, se bem entendem. Amemos nossa vaca, então, não? Prezemos por nosso leite? Não é óbvio? Aparentemente não é simples assim. Tenho acompanhado nosso povo e nossas redes de informação - televisão, internet etc. Ah, amo nossa vaca e o leite que ela dá. Queria poder fazer algo. No desespero: escrevo. Serve-me de catarse! Pronto.
Antes, por séculos, o país não teve vaca! Nem leite! Teve outras formas de alimentar seu povo. A imensa maioria ficava à mercê de uns que comandavam e comiam de tudo. O povo era provido por migalhas quaisquer caídas no chão - dadas ou que sobrassem... Uns tinham de tudo. Dominavam, mandavam e desmandavam nas leis, nas punições, nas solturas. Detinham todo poder e venciam juntos apesar de amplos fracassos... Viviam bem na harmonia de uma aristocracia que engenhosamente construiu um país repleto de plutocratas. Tempos idos? Não sei. Mas hoje temos nossa vaca que nos provê com seu leite. Precisamos lutar por ela! O povo não se contenta mais com migalhas. Estou certo?
Voltemos à vaca. Afinal, o período do parágrafo acima era de "vacas magras" para o povo. Não havia liberdades individuais, ou promessas e sonhos de ascensão social. Pobre? Era necessário apenas para ser mão de obra ou vir "do interior" para trabalhar nas casas como serviçais ou nas indústrias e construção civil como operários. Não? Negros? Eram resquícios do regime escravocrata que em nada teríamos a ver com ele nos dias de hoje... Certo? Desde que tivemos a ideia de termos uma vaca, termos um país amplo e uma nossa (aos nossos moldes) democracia, algo na cabeça das pessoas foi sendo construído. Conceitos de pluralidade... De benefícios aos desprivilegiados etc. Seria lindo se todos sonhassem juntos com um país menos desigual... Seria lindo.
Um dia, resolveram ver que a vaca estava grande e que havia leite bastante. Viram que o leite não devia ir para fora do país mais, mas sim para nosso povo mesmo! Nutrir em sua fome toda nossa nação faminta e largada às migalhas ainda. E assim foi feito. Através de nossa "vaca", foi-se dando um pouco, mas uma quantidade respeitável de leite, leite, leite... Ah, que coisa linda ver o povo deixando de ser faminto de muitas coisas...
[ Voem metáforas... Voem ... ]
Mas, como toda boa vaca, atraíram-se vários carrapatos que quiseram (e querem) sugar a saúde da vaca. Carrapatos de vários tipos, tamanhos. De famílias de longos tempos de "carrapatices" ou, também, carrapatos de vida recente, mas que sabiam desde logo sugar, sugar... Nada de serem comensais, algo assim, e contribuir de forma benéfica, lícita, respeitosa...! Sugavam... Sugavam...
Outros carrapatos cresceram às custas das sombras de seus carrapatos familiares, por vezes já falecidos. Outros carrapatos, em conchavos, ganharam espaço aos trancos e barrancos, minando nossa vaca leiteira daqui ou dali. Listas inteiras de carrapatos foram se acumulando, mas ninguém quis ver. Nossa vaca era grande demais para olharmos os detalhes dela. Olhávamos o todo e só. Era uma vaca. Pronto! E dava leite. Ponto!
Chegou então um tempo em que os carrapatos caíam por si mesmos. Sua ganância por sugar nossa vaca leiteira foi tanta que eles, preocupados em sugar, lavavam as mãos, digo, largavam as mãos - ou patas. Carrapatos caiam, caiam...caim... À esquerda, à direita, da cabeça ao tronco e aos pés: carrapatos gordos caindo aos montes, mas não vimos todos. Eram muitos e nem olhávamos de perto nossa vaca. Nos contavam dos carrapatos. Mas eram carrapatos de todos os tipos... De todas as cores. Em Listas, em grupos... Vimos com nossos próprios olhos alguns que nos traziam para perto dos olhos.
Daí, entendi: nosso leite indo para nutrir o povo incomodou muitos. Será que pensavam que o povo deveria voltar a viver de migalhas? Resolveram então culparam os carrapatos que estavam na cabeça da nossa vaca! Esqueciam-se por completo de que todo o resto do corpo era puramente carrapatos sobre carrapatos. Por todos os lados, sugando o sangue de nossa vaca tão produtiva.
Nossa vaca passou a sentir-se fraca. Foi-nos sendo mostrado isso. A olhos vistos ou em números... Eram carrapatos demais em todo o seu corpo e a vaca sofria. O leite era difícil de ser furtivo, uma vez que a vaca estava sendo sugada e sobrevivia corajosamente sendo vilipendiada, sugada. Ah, coitada da vaca: tão jovem, com tanto leite já dado, ainda mais leite por ser dado e produzido, mas com maus cuidadores, tantos, relapsos - todos... Nossa vaca sofria. Carrapatos ficavam gordos e fortes. Sentiam-se fortes. Não tínhamos conhecimento de todos eles e nos era confortável pensar que eram poucos, um grupo só. Pronto!
Enfim, todo o grupo de carrapatos se uniu contra os carrapatos que estavam na cabeça. Queriam estar naquela cabeça da vaca a incomodar os olhos dela e orientar novos horizontes à nossa vaca - ou levá-la ao matadouro, quiçá? Quem sabe isso? Sinto que alguns carrapatos ficariam felizes se voltássemos a dar migalhas ao povo, não? Iriam alguns carrapatos, sem a vaca, ser carrapatos em outras bandas... Eles ficariam bem, decerto, confiantes que estavam.
Tentaram, não conseguiram chegar à cabeça. Carrapatos então passaram a espalhar a notícia de que a vaca estava podre de carrapatos e mais carrapatos. Uns tantos esconderam-se por debaixo dos pelos para não serem vistos sugando. Diziam também que o leite não merecia receber nossa valorização, nem dar nosso autoprestígio e nossa autoestima... Convenceram muitos dos cuidadores de que a vaca estaria perdida, danada, entregue, pronta e posta para morrer.
Pronto, tudo caminhava bem! Decidiram ser viável então acabar com os carrapatos na cabeça da vaca. Como queriam fazer isso? Convencendo os cuidadores de dar um tiro na cabeça da vaca. Sim... E seria assim?
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Até onde fiquei sabendo, a história da vaca era essa. Qual seria o fim da nossa vaca? Não sei dizer. Sei que há os carrapatos - na cabeça e, mais ainda, em todo o corpo. Sei que nossos cuidadores da vaca estão desatentos, indecisos, raivosos, desunidos, desinformados...
A vaca nem tem dado tantos lucros mais assim, correto? Mas sei muito bem da força e da beleza de nossa vaca - de sangue forte, de entranhas firmes, de leite farto! Vaca de raça! Não quero que matem nossa vaca. Nem quero que nossa vaca tenha carrapatos, entretanto! Quero os carrapatos fora, um a um - estejam ou não escondidos debaixo dos pelos.
Quero nossa vaca sã e quero, acima de tudo, melhores cuidadores de nossa vaca. Assim, somente assim, teremos vaca, leite e cuidadores bons e fortes o suficiente para nunca mais haver carrapatos ou quaisquer que queiram vilipendiar nossa vaca (e nós mesmos!) de alguma forma.