quinta-feira, 12 de maio de 2016

Sobre nós, nosso tempo, H. G. Wells e as catástrofes

É importante, em primeiro lugar: o respeito. Em segundo: respeito novamente. Tem sido um mal na era das redes sociais isso: a falta de respeito ao outro - pela sua ideia, sua etnia, pelo seu gênero, pelo seu time etc. Qualquer coisa vira motivo de ódios e discursos verborrágicos de insanidade pura. 

Achando-se fortes, postando-se de corajosos guerreiros das causas próprias e de seus "grupos", cidadãos comuns como nós saem vomitando ódios, tempestades de vômito em intolerâncias pela boca. Quase que "acéfalos funcionais", muitos saem com seus dedos a digitar atrocidades a todo canto sem nem refletir os danos que causam com tudo isso - a si mesmos, ao outro e ao futuro de nossa espécie, claro - não é exagero dizer isso. 

Ora é xingamento a uma pessoa pela etnia da qual faz parte. Ora é humilhação e desrespeito ao outro pelo gênero que assumiu para si. Ora é em assédio pedófilo a uma criança que apareceu em um programa de TV. Ora é atirando ódios através da brilhante dicotomia (ironia, claro!) às beiras de um "apartheid" entre "coxinhas" e "petralhas". Onde chegaremos com isso? Onde está a capacidade de percepção dos erros? Por qual caminho estamos indo - e ainda deixando nossas crianças a assistir nosso mau exemplo?

O ser humano, é fato: sabe exercer melhor seu ódio que seu amor. Todos têm amor, basta procurar (raras exceções - acredito!). Mas encontramos muito mais ódio e massacres na "bibliografia", "enciclopédia" (ou quase isso) de comentários contra aqui e acolá que se nos apresentam pela redes - pela vida, a bem dizer, pois a internet é parte de nossa geração.

Não sabemos conviver com a era das redes sociais e de fácil acesso ao mundo virtual? Ou não sabemos conviver, puramente, olho no olho? Ou, o que seria pior: não sabemos conviver olho no olho e daí tomamos coragem para falar atrocidades, ferir pessoas, perder amigos simplesmente por estarmos "protegidos" atrás da tela do computador? São (pessoas assim) os exércitos de "corajosos das poltronas confortáveis" - ou algo assim. Prestam serviço diário ao ódio ou - caso não consigam externar seus sentimentos ruins por algum motivo, inclusive por falta de argumentos - deletam as pessoas. Pronto! Mas na vida real as pessoas não podem ser deletadas - embora alguns, dotados de tanto ódio, achem que isso possa sim ocorrer, a depender do julgamento exercido por suas intolerâncias. Mas isso é outro tema... 

H.G Wells disse, certa vez (anos e anos e anos atrás), algo do tipo: "nos é inútil ficar sentados em meio a tantas coisas desconhecidas, tentando resolver enigmas. Você acabará um aficionado! Encare o mundo! Aprenda dele seus costumes; observe-o; não tire conclusões precipitadas. No final: você acabará encontrando todas as respostas". Mas queremos achar respostas? Acho que não. 

O mundo é confuso? Sim. Há informações demais e pouca formação, lado a lado? Sim. Porém, simplesmente queremos que as pessoas concordem conosco? Vejo que isso é cotidiano hoje. Não nos importa achar os pontos chave, as respostas e razões das coisas e argumentos alheios. Há uma grande diferença nisso: encontrar as razões e querer que nossas razões sejam aceitas. Desse ponto surgem tantos perigos para nossa época. Temos então redes sociais e raciocínios de ódio de mãos dadas, dia após dia.

Aquele mesmo Wells, noutra ocasião, disse algo semelhante a: "no futuro, haverá uma corrida entre a educação e a catástrofe". "Pronto, danou-se tudo...", pensei num primeiro momento refletindo. Não quero afirmar com certeza que a catástrofe tem ganhado. Não! Confio na educação. Mas são tantos os que lutaram por ela, no Brasil, p.ex., mas morreram colocados como parte do cenário, não como essência e protagonistas. Passaram sem muito sucesso. Paulo Freire? Darcy Ribeiro? Suassuna? Tantos... Saudosos, todos.

Educação não é meramente saber digitar o nome, ou escrevê-lo. Educação necessária para superar catástrofes é aquela que envolve o conhecimento técnico sobre coisas (sim, escrever é uma delas), mas também gentileza interpessoal, apreço à cultura de seu povo (e dos seus concidadãos), exercício de temperança diante das adversidades e da diversidade. Entende? 

Num futuro (torço para que chegue logo): quem sabe sejamos mais educados assim? Quem sabe procuremos mais a razão das coisas ao invés de tentar convencer os demais das nossas conclusões e das conclusões do grupo do qual pertençamos? Quem sabe antes de odiar, "vomitando" discursos de insanidade odiosa por aí, ou de ao invés de brigar com alguém (ao vivo, olho no olho, ou pela internet) saibamos mais conter a catástrofe que, em potencial, nós temos sido?