Outro índio morreu! Não fui eu. Nem você. Nem ninguém! Índios morrem, mas isso não nos incomoda! Isso ocorre desde 1500! Não procuramos culpados. Somos, afinal, um povo que ensina nas escolas que os Bandeirantes eram heróis nacionais. Desbravadores! Não. Eram assassinos. Matavam indígenas. Tomavam suas terras. Pronto! Fato!
A morte de indígenas não nos gera comoção! Alguns dirão que isso é mentira... Tudo bem! Cada um enxerga da maneira que seus olhos podem ver. De minha parte, não vejo comoção alguma. Habitamos o ano de 2016 e, passados séculos após o malfadado ano de 1500 aos povos indígenas da América, eis que sua morte, um a um, índio a índio, segue impune. O dia do calendário dedicado aos indígenas passa quase que despercebido para a maioria. O mesmo ocorre para o dia da consciência negra. Porém, nosso país comemora o Halloween. Não entendo nosso país!
Na última semana do ano de 2015, vimos uma criança indígena ter sua garganta cortada por uma lâmina. Sua mãe, estarrecida com a criança sangrante no colo, viu sua criança morrer e o assassino sair, caminhar para a terra da impunidade e do esquecimento. Mas o assassino será preso! Será condenado! Dirão alguns. Isso basta? Tenho pena daquela mãe. Tenho pena daquela criança indígena que morreu. Tenho pena de todos os índios!
Nós, imigrantes, dominamos as terras brasileiras desde que pisamos nesse solo. Índio sobre índio, acumulamos corpos empilhados fazendo os muros de nossa história. Mas não vemos esse muro que cerca o surgimento e a história de nossa pátria!
A criança branca à beira-mar na tragédia de refugiados sírios circulou em todos os jornais. A comoção nas redes sociais foi às tantas. Não podia ser diferente! Outra criança que perdeu seu futuro! Outra criança que o mundo deixou que morresse pela atrocidade do ódio. Porém, eis que a criança indígena morre naquele mesmo ano. Nada de alarde. Nenhuma comoção?
Creio que nosso povo não é tão cruel a ponto de ficar imune às lágrimas pelo ocorrido com mais aquela família indígena, mas, endiabrados pelo poder da mídia que nos silencia e nos torna ignorantes de nossas condições reais, deixamos os vilões quaisquer, assassinos de indígenas, grandes empresários produtores de capital: todos soltos! Passam todos eles pelas ruas, pelos jornais, pelas redes e pela publicidade sem gerar qualquer alarde. Completa impunidade!
Assim como vimos as terras da tragédia à jusante das águas do Rio Doce e seus afluentes serem destruídas impunemente, veremos mais índios morrendo! Indígenas, por sinal, manifestaram-se contra o ocorrido no Rio Doce! Os únicos nativos nas terras de Minas Gerais que vi se mobilizarem! Lutaram para aparecer na mídia, mas ninguém deu atenção. Tentaram eles levantar a bandeira do abandono que o Rio ficaria. Tentaram levantar as mãos na esperança de serem vistos, ouvidos, ajudados... Pescadores sem seus peixes. Abandono completo!
Índios e demais brasileiros, ribeirinhos àquelas águas, todos expostos aos metais pesados e à contaminação de seus peixes, das algas locais... Um mar de destruição que, de fato, juntou-se ao mar propriamente dito para seguir destruindo mais e mais vidas, agora marinhas, quiçá! Mais espécies morrerão! Mais cidadãos brasileiros serão contaminados!
Índios e demais brasileiros, ribeirinhos àquelas águas, todos expostos aos metais pesados e à contaminação de seus peixes, das algas locais... Um mar de destruição que, de fato, juntou-se ao mar propriamente dito para seguir destruindo mais e mais vidas, agora marinhas, quiçá! Mais espécies morrerão! Mais cidadãos brasileiros serão contaminados!
Metais pesados? Sim! O vil metal é o que mais pesa e mata através da ganância! Vil metal... Maior norteador da trajetória humana: o ouro - entenda-se por ouro toda forma de riqueza, de poder! Impunidade compra-se a preço de interesses mútuos que passam, sorrateiros, sob o manto protetor da conivência nacional - mais assustadoramente e em especial: da mídia! Quanto será o preço pago para tamanho silêncio? E o povo? Fica no meio disso tudo!
Indígenas mortos! Como os peixes e o Rio: mortos! Boiam nas águas da impunidade! Mas ninguém vê seus corpos, nem muito menos vê o mar... Nem tampouco se comove ou se une contra a impunidade. O vil metal corroeu nossa concepção cidadã? Onde foi que erramos? Afinal, pessoas unem-se nas ruas contra um governo que gerou crise econômica! Ótimo! Toda manifestação é lícita e, de certa forma - até prova em contrário - bela! Mas nenhuma alma viva se moveu ou foi às ruas para defender os povos indígenas, ou os rios ou os peixes contra as calamidades!
Todas as populações humildes de nossa pátria estão à esmo, como sempre. Mas aqueles que mais possuem são os que mais se manifestam! Claro, nunca em favor dos humildes, mas sempre - e somente - em prol de si mesmos e de seus interesses. Quem vai "pagar o pato" pelos índios? E pelos peixes? Não sei! A história nunca nos absolverá! Os livros, no futuro, provavelmente sim! Afinal, contar de forma equivocada nossa história, elevando a heróis nossos vilões e a vilões nossos humildes: isso é corriqueiro. e já sabido!
Indígenas mortos! Como os peixes e o Rio: mortos! Boiam nas águas da impunidade! Mas ninguém vê seus corpos, nem muito menos vê o mar... Nem tampouco se comove ou se une contra a impunidade. O vil metal corroeu nossa concepção cidadã? Onde foi que erramos? Afinal, pessoas unem-se nas ruas contra um governo que gerou crise econômica! Ótimo! Toda manifestação é lícita e, de certa forma - até prova em contrário - bela! Mas nenhuma alma viva se moveu ou foi às ruas para defender os povos indígenas, ou os rios ou os peixes contra as calamidades!
Todas as populações humildes de nossa pátria estão à esmo, como sempre. Mas aqueles que mais possuem são os que mais se manifestam! Claro, nunca em favor dos humildes, mas sempre - e somente - em prol de si mesmos e de seus interesses. Quem vai "pagar o pato" pelos índios? E pelos peixes? Não sei! A história nunca nos absolverá! Os livros, no futuro, provavelmente sim! Afinal, contar de forma equivocada nossa história, elevando a heróis nossos vilões e a vilões nossos humildes: isso é corriqueiro. e já sabido!
Ah, quem dera pudesse voltar no tempo. Voltar no ano de 1500... Preparar os índios a paus e pedras, flechas e porretes, quais fossem nossas armas disponíveis. Colocaríamos para correr daqui e afundaríamos todas as embarcações portuguesas que chegassem! Índios, crianças, futuro, peixes, ética, moral do Brasil: perdão!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier