quinta-feira, 31 de março de 2016

"And it makes me wonder" / E isso me faz pensar.

Há pessoas que pensam sim que tudo o que brilhe é ouro! Aceitam qualquer premissa. Qualquer coisa dourada é tida como verdadeira raridade incontestável de riqueza e superioridade. Qual riqueza? Qual superioridade ou em quê? Pouco importa! Somos uma aristocracia equivocada e morta em significados ou representatividade real. 

Para essas pessoas, não importa nem mesmo se é ouro aquilo, de fato. A questão é ostentar "raridades" brilhantes, douradas. Precisamos nos sentir especiais e únicos. Precisamos ter uma placa em nós, ou em nossas paredes, que nos configure algum valor, autoridade...Admiráveis, respeitáveis aos olhos dos outros! Sim, dos outros. Com isso, pouco sabemos de nós e de nossas trajetórias! E percebemos que, às vezes todos os nossos pensamentos são inquietantes - mesmo que não tomemos consciência deles, inicialmente. 

A vida é uma travessia, sim! Temos que trilhar, passo a passo, mesmo que nossos pés doam. E há pés calejados e que sangram em tantas pessoas. Geração após geração, tentam alcançar algo de bom para seus rebentos, seus descendentes. Há séculos muitos tentam caminhar e ter algo do paraíso prometido para si. Sonham encontrar a escadaria que os leve ao paraíso! Aceitam qualquer discurso, qualquer promessa. Aceitam até mesmo raridades douradas a serem colocadas no peito. Raridades essas que as tornarão mais especiais aos olhos de um deus qualquer conforme diz o padre ou o pastor ou outro qualquer dono da fé vigente. 

Nesse mundo de insanidades e crueldades, de tantas desigualdades desumanas, o que as pessoas mais querem é conseguir alcançar suas escadarias que as levarão ao paraíso. Sim, escadarias para o paraíso! Qualquer caminho ou atalho serve? Não. Há toda a travessia. Nessa travessia, somos obrigados a cruzar uns com os outros. Cruzamos nossas histórias. Cruzamos nossos olhares. Não raro, entretanto, cruzamos os braços para tudo de errado e cruel que vemos. 

Ah, a dor alheia não nos comove. Desviamos o olhar tentando não cruzar com ela e desconhecê-la. Mas, mesmo de braços cruzados às atrocidades reais, seguimos ostentando raridades de ouro no peito, com empáfia religiosa qualquer, que nos servem de distintivo numa ordem qualquer de um deus quiescente. 

Ah, sabe-se lá o que Deus pensa disso. Ele deve estar pouco preocupado em lavar as escadarias do céu - ou construí-las. Afinal, o que mais há é gente que clama por ele é tem alma podre, suja, má e, mesmo assim, querendo "subir". Digo isso da alma dessas pessoas! E muitos dos que têm os pés sujos, mãos calejadas e roupas maltrapilhas há gerações nessa Terra têm a alma limpa, leve, clara como a aura das pessoas de bem prometidas a Deus. E isso me faz pensar. Realmente me faz pensar.

Sujeira, beleza, pureza, bondade... Metáforas! Por vezes, as palavras são ambíguas. Mas o importante é a essência, não o que está escrito em si. Não? Assim é também para as ações. Muitos agem aos olhos alheios lindamente e são cruéis dentro de casa e com os mais humildes quando ninguém os vê ou os possa punir. Isso também se aplica aos textos: a essência! Mas há mais de um texto na cabeça de quem lê do que na cabeça de quem o escreveu, não raro. Daí, depende da leitura, de quem lê, da intensidade dos argumentos que tocam o leitor, da vontade desse de entender também, não somente da capacidade de transmitir em letras e sentenças. 

O mundo é feito de ações, mais ou menos claras e puras. Assim como os textos, as pessoas são ora mais, ora menos transparentes. Isso é um problema. O pior é que mais fácil é corrigir um texto que uma pessoa... Mais difícil ainda é corrigir o mundo!

Apesar de tudo, de todo ódio, de toda crença, de toda descrença: haverá um novo amanhã. Faremos leituras melhores do mundo futuro! Ouviremos novos sons, um vento que ressoe e tempere com alegria nossa alma. E isso nos guiará aos dias melhores. Você já consegue ouvir algum vento soprar? Chegados esses dias dias, seremos pessoas melhores e almas melhores. Chegaremos lá.

Nesses dias, não mais teremos que nos esforçar tanto com dogmas impostos, ou nos banhando em ouro, ou doando dízimos, ou jogando com promessas, ou ostentando fé para que haja alguma escadaria que nos leve ao paraíso. Não haverá necessidades socialmente aceitas de se parecer bom, ostentando bondade, ou caridades. Seremos bons, fraternos, solidários e humanos em todo o tempo! E toda a humanidade será para cada um como um nosso pai, uma nossa mãe, um nosso irmão e uma das nossas pessoas mais amadas, quais sejam. Tudo será um e esse "um" será tudo!

O paraíso estará dentro de nós e já teremos subido todos os degraus da escadaria que nos guiará à eterna plenitude, numa espécie de redenção que desde hoje - e desde sempre - almejamos nessa travessia humana tão aparentemente desamparada. E tudo isso me faz pensar... "And it makes me wonder". Ouço ser cantado. É Led Zeppelin. Stairway to heaven... 

Seremos todos por um. Um por todos! Humanidade. Irmãos. Seres bons! Seremos uma constante de união, não mais povo errante e aberrante como hoje ainda somos por tanto ódio e insanidade. Mais amor! Assim, subiremos as escadarias rumo ao paraíso, um dia.

O que há?

É 31 de março. Corpo? Em 2016. Memória? Está em 1964. Tempos difíceis. Os de antes... Os de agora... Como seguir? Como agir ou reagir? O que virá? Tempos de incertezas, sim. Muitas! Falsos mártires. Hipócritas em cada esquina. Cores pelas ruas e discursos pelos ares. Somos um enorme recipiente vazio de conteúdo, pois não somos os donos da situação. Não! Quem comanda poderes (quais sejam) pouco quer saber de nós em tempos como os nossos. Cabe a nós ter nossas pernas firmes. Temos tentado ter isso nesse mundo insano. Mas elas fraquejam... Não pensemos somente no Brasil então. Somos cidadãos do mundo. Deus nos proteja, então.

São muitos problemas para dentro de nossa geografia regional, territorial. São outros tantos além-mar, além, além... Mortes, atrocidades, discursos de ódio, fascistas e intolerantes por todos os cantos do globo. Grosseiras em plena luz do dia em banhos de sangue reais ou em metáfora. E nosso futuro? Agonizando, como sempre. E agoniza aos olhos de todos hoje, vinte e quatro horas por dia com o advento das telecomunicações e tantos avanços tecnológicos como, p.ex. - e principalmente - a internet.

Crianças morrem por todos os lados! Num canto, morrem com bombas amarradas ao corpo - p.ex., na Nigéria. Outras morrem em pleno mar, afogadas em águas geladas....geladas... Para serem encontradas numa praia esquecida. Praia que passa. Criança que passa. Morte que passa... Tudo passa! 

A morte passa bem debaixo de nossos olhos. Mas não as vemos. Mortes, não raro, são símbolos. Retratam de tudo quanto haja de ruim no entorno delas. O que está por trás delas? Precisamos pensar. Mas não estamos ávidos por pensar. Temos pressa! Corremos logo ao acordar para o trabalho. Trabalhamos. Cansados, voltamos pelo trânsito até nossas casas. Jantamos assistindo algo na TV. Enchemos nossa mente de frivolidades e vamos dormir. Onde entrará algum momento de refazimento moral, ético ou filosófico que nosso mundo precisa? 

Tantas mortes! Tantas crianças... Inocentes civis baleados, tendo suas casas invadidas, explodidas aqui e acolá. Mortes, mortes, golpes, golpes, violências... A insanidade toma os palanques e ganha aplausos. Ocas são destruídas nas aldeias que capangas assassinam indígenas. Casas são arrebentadas em cidades tomadas pelas guerras... Morrem tantos. E o silêncio é uma bomba atômica jogada em nossa alma. Com ele, parece que nada em nós restou. Indignação? Capacidade de se resignar? Capacidade de amar ao próximo em sua dor e defendê-lo? Não. Somos recipiente oco. Terra vazia. Pedaço de corpo sem nada mais que matéria frágil e não pensante.

Um índio morreu, pequeno que era, com uma lâmina que cortou-lhe o pescoço. Morreu sangrando no colo da mãe indígena que passava despercebida como uma artesã qualquer em meio à rua da cidade brasileira... Noutro canto do mundo, Taiwan, outra criança morreu com seu pescoço cortado por uma lâmina fria. Quantas lâminas mais matarão nossas crianças e nossas esperanças? Cortaram a cabeça da humanidade e, sem cabeça, perdemos a razão. Pode ter sido isso. Mas não pararam por aí! Enfiaram em nosso peito a mesma lâmina fria e cega. Mataram nossa razão e nosso sentimento. 

No mais, restaram na Terra corpos inertes. Todos aguardando, ao seu modo, que as escadas do céu se abram e que seus atos sejam perdoados. E assim, que possam todos subir aos braços de um deus qualquer que defendem - mas nada fazem em nome daquilo que defendem. Deuses esses que nada mais são, vejo hoje, que o refinamento dos depósitos que fazemos de esperanças num banco etéreo! Assim, depositada nossa esperança numa conta no céu que imaginamos, poderemos um dia comprar algo de realidade para nós que não seja essa que temos, tão torpe, cruel e desumana.


terça-feira, 8 de março de 2016

Feliz Dia da Mulher

Ainda hoje, ano de 2016, uma mulher que se diga feminista recebe olhares de escárnio. Por qual motivo somos tão ignorantes? Penso, reflito... As conclusões que chego são difíceis de resumir. Vou tentar abordar parte delas. 

Há menos de um século foi quando mulheres receberam (sim, tiveram de brigar por isso!) o direito de votar e serem votadas. Também há poucas décadas foi quando as mulheres passaram a parar de ter de aceitar casamentos arranjados - pelo menos no Brasil, pois tal realidade ainda ocorre em outros países. Sim, jovens de hoje, talvez não saibam nem entendam o que era isso, mas até há poucas décadas atrás as mulheres recebiam a determinação de com quem iriam se casar - ter filhos e para quem cozinhariam, costurariam e varreriam a casa. Sim! Afinal, foi também há menos de poucas décadas atrás que as mulheres passaram a poder sair dessa rotina da casa, "do lar", podendo cursar ensino superior, inclusive, e podendo sair daquele que era fado eterno e secular que lhes era determinado: serem esposas e servas do "seu homem"!

Até há poucos anos atrás, a violência contra as mulheres nem recebia atenção suficiente. Somente nos últimos anos foram criadas leis e delegacias específicas em nosso país para esse fim, para o controle desse mal. Até há poucos anos atrás, debater a beleza das mulheres que não fossem loiras, de olhos claros e pele branca era mito, algo quase impensado. Hoje, as mulheres e a sociedade começam a entender que belas são todas - quer sejam magras, gordas, baixas, altas, negras, brancas, pardas, loiras, morenas, de cabelos quais sejam em tipo e estilo... Beleza é algo que vem de dentro - começamos a entender! E a beleza maior que há é o respeito! Hoje, iniciamos processos de aprender a respeitar a beleza e os direitos alheios. Ainda estamos rastejando, mas que nossa caminhada nunca seja encerrada! Que não permitamos isso. Precisamos estar atentos, todavia. São tempos difíceis os nossos onde defender o óbvio passou a ser quase ilegal, socialmente.

Mulheres ainda hoje recebem escárnio quando se dizem feministas. Fato! Uma pensadora feminista ser tema de prova recente no nosso exame nacional para os estudantes foi motivo de ódios e não nos atentamos para a atrocidade de ter sido permitido todo aquele ódio que reverberou na TV, nas redes sociais etc. Aceitamos? Acho que sim...  Triste isso! Ademais, apenas há poucos anos atrás deram às mulheres o direito de registrar seus filhos sem a presença de um pai. Sim! O aborto feminino ainda é polêmico, mas não discutimos (e tornamos aceito!) o abortamento masculino. Afinal, um homem que escolhe "não ser pai" comete qual ato? Abortamento! Sim! E deixamos isso passar... Mas não percebemos e nem queremos debater isso. É direito do homem se esquivar. Às mulheres? Que fiquem com seus fados impostos e olhares de escárnio? É isso? Triste... Também foi há poucas décadas apenas quando as mulheres passaram a poder se divorciar sem receber olhares de desdém nas ruas - nas Igrejas, na própria família etc. Hoje, elas podem sair de relacionamentos e recebem certo apoio reconfortante - ainda há olhares de esquiva, mas são menos intensos. Avançamos um pouco em certas coisas.

Mulheres ainda em nossos dias recebem salários inferiores do que homens nos mesmos postos. Homens que exercem as mesmas funções que elas! Aceitamos isso! Faz parte das atrocidades socialmente aceitas? Acho que sim... Inclusive, um parlamentar nosso (que já ofendeu oficialmente uma mulher com palavras como "não te estupro, pois você não merece") já disse que mulheres devem receber salários menores mesmo, pois "elas engravidam". Esse parlamentar recebe aplausos e ganha voz nas ruas, nas redes sociais etc. Recebe apoio de outros parlamentares da bancada "religiosa" que tentam, inclusive, criar projetos que criminalizam o atendimento à mulher em casos de estupro, fazendo o profissional que prescreve anticonceptivo de emergência ser enquadrado como criminoso por isso. Aparentemente, isso é outra coisa que não vemos e nem damos atenção. No mais, parlamentares que pensam assim, ainda em nossos dias, viram "mito". Simone de Beauvoir, entretanto, ela que era (e segue sendo) inimiga e deve ser eliminada - inclusive das provas do ENEM. Viva nós!

Pensando, refletindo, observando e absorvendo as coisas do mundo, acabamos com certo tom de desamparo e tristeza. E olha que eu sou um homem que está pensando nesses temas. Imagine uma mulher pensando tudo isso? Mas não pode ser assim mais! Basta! 

Que sejamos fortes e que todos, homens e mulheres, estejamos a cada dia mais unidos pelos direitos alheios - os das mulheres, inclusive! Pensando isso, quando encontrarmos alguém com tom de escárnio para uma mulher que se diga feminista, saibamos responder: "guarde seu escárnio para si, companheiro, afinal quem o merece é você"!

Feliz Dia da Mulher. E que dias das mulheres sejam todos!

Dia da Mulher. Quer dia mais importante?

O dia de hoje é um dia em que temos que pensar muito. Nossa sociedade está em amadurecimento. Precisamos aprender a refletir e engolir menos argumentos pré-fabricados. Debates amplos e claros.

Mulheres ganharem menos que homens? Ainda é fato! Fazendo as mesmas funções e etc? Isso ainda é socialmente aceito? Vejo que sim. Não há mobilização suficiente para criar o devido alarde para isso e corrigir esse mal que é sequela de nossa sociedade machista. Um pretenso candidato, agora pelo PSC, à presidência já divulgou seu pensamento norteado da seguinte forma: mulheres deveriam ganhar menos, pois engravidam. Esse cidadão é aplaudido ainda. É parte dos modismos pseudo-idôneos que temos em nosso modelo messiânico de política...

Aparentemente também, não sabemos dos índices de vitimas de estupro e outras formas de violência contra as mulheres. Caminhamos a bons passos (não sei se passos largos, mas bons passos) para a criminalização efetiva desses tipos de violência e maior atenção, bem como maior facilidade às denúncias. Além de nossa ignorância voluntária sobre assuntos quanto aos chamados "direitos humanos" (que hoje em dia insistem em queimar enquanto conceitos), vemos parlamentares tidos por "religiosos" que defendem abertamente medidas de coerção e limitações ao sexo feminino, a ponto de postularem ideais de criminalizar profissionais de saúde que façam atendimento em casos de estupro, orientando o uso de medicação anticonceptiva de emergência. Isso é outra coisa pavorosa que temos sendo criada em nossas bancadas que passam incólumes, vomitando preconceitos e ódios diariamente enquanto enriquecem às custas do dízimo alheio, enquanto dizimam ideais progressistas de uma sociedade mais justa que merecemos ter.

Aparentemente também, esquecemos do nosso acervo de atrocidades televisivas. Recentemente, um grande canal de TV, em um programa de modinha sobre culinária, teve o fato pavoroso da pedofilia tomando corpo. Assédio e insulto com caráter agressivo e criminoso, em tom aberto de pedofilia, em redes sociais a uma participante daquele show! Todos viram. Deu certa repercussão, mas ínfima perto da gravidade do fato. Era uma criança! Criança que foi vítima de criminosos, pedófilos, despudorados, imbecis, que tomaram corpo nas redes sociais agredindo a criança com suas ofensas. Aquilo já foi esquecido! Não demos atenção? Não nos importa? Achamos que aquilo foi algo "isolado"? Não. É comum. É corriqueiro. É um mal e uma sequela de nossa sociedade de machismo e impunidade que reverberam um conceito sobre o outro.

O que mais precisamos pensar? Precisamos lembrar que tomou corpo campanha contra racismo quando uma repórter da maior rede de TV de nosso país foi vítima de comentários racistas em redes sociais. Tomou corpo o debate. Durou até um certo tempo aquele despertar do assunto... Mas morreu também. Mais ainda, morreu sem nos darmos conta de que aquela mulher teve sua defesa pela oportunidade de trabalhar na TV. Mas e as mulheres negras que sofrem preconceito e violências outras diariamente em periferias, nas ruas comuns do nosso dia a dia? Não fizemos uma reflexão ampla... Aparentemente, julgamos ser coisa "isolada" também tudo aquilo.

O que falar então dos padrões de beleza? A insinuação diária, diuturna, de que mulheres bonitas devem ser loiras, de corpo escultural e pele clara? Isso passará sempre incólume? Toda mulher é linda. Toda beleza é bela, ao seu modo peculiar e sem padrões! Não há padrões de beleza. Há padrões de argumentos torpes, isso sim. E quanto à beleza, os argumentos torpes são imensos, diários, e convencemos inúmeras mulheres lindas, aguerridas e fortes, de que elas não fazem parte dos "padrões". Deixamos essas mulheres à mercê de processos de destruição da auto-estima de todas elas quando não se inserem nos padrões pré-moldados de beleza. Faremos algo a respeito? É preciso!

No mais, o Dia da Mulher é um dia sublime. A presença da feminilidade nos faz ter um mundo mais leve, mais humano e, com sorte, há de ser vencido o machismo usual dos nossos padrões de pensamento, de beleza, de argumentação. Venceremos todo e qualquer mal da sociedade, um dia. O machismo é um desses males. Já é passada a hora de valorizarmos mais as mulheres e estarmos mais atentos ao caos que damos à elas ainda. 

Por dias melhores ao mundo e, em especial: por dias melhores às nossas mulheres.

Como perder as esperanças num momento onde a esperança é essencial?

O país está repleto de corrupção. Para alguns, é coisa recente. Descoberta aguda. Para outros, é uma infeliz realidade que, finalmente, começa a ser investigada e, aparentemente, há indícios de que podem haver punições. Coisa rara em nosso país - historicamente.

Porém, nosso povo quer mudar. Penso: mudar o quê? E como? Ainda não entendi. A infelicidade em ver que um governo de base popular como o petista que corrompeu-se é notória, autêntica e justa. Desanimador é pensar que gente proveniente do âmago do povo, eleita por base popular, sucumbiu a essa atrocidade secular em nossas terras que é a corrupção. Em nada diferiram esses eleitos dos plutocratas de sempre! Mas, como ponto positivo recente em nossa história: nunca tivemos Procurador Geral da República livre para atuar, independência e atuação efetiva de Ministério Público Federal nem, mais ainda, atuação efetiva de Polícia Federal e independente.

O que, em contrapartida, vemos? Vemos povo nas ruas querendo que ditadura militar volte. Nunca leram livros de história? Não viveram aquela época? Quem investigava e condenava eram os poderosos, logo: óbvio que naquela época ninguém investigou nada de errado do governo. No período pós-ditadura, mantivemos mais de década sem nada ser investigado. Escândalos guardados a sete chaves, na gaveta. A justiça fazendo olhos cegos. Um ex-presidente nosso da era democrática, inclusive, em seu livro de autobiografia deixou claro que sabia de escândalos de corrupção em nossa pátria, que havia sido alertado, mas nada fez. Um antigo jornalista famoso por seus comportamentos excêntricos, de nome Paulo, perdeu sua vida em meio a um processo no final dos anos noventa após afirmar que nossa Petrobrás era um antro de corrupção. Como não havia investigação, como ninguém apurava nada, ele morreu sem conseguir provar seus argumentos e, mais ainda, tendo recebido um processo em que perdeu e seria obrigado a pagar multa de cem milhões aos "ofendidos". Viu sua morte certa por um mal súbito...

Ora, como podemos ser tão cegos? O que  mais me revolta é ver, de fato, um governo de origem em base popular ter sido eleito, eleição após eleição, e não ter feito reformas de base profundas (mais ainda na educação que seria alicerce para superarmos nossa ignorância secular) e mais ainda não ter banido de seu partido os líderes e sub-líderes com comprovado envolvimento em corrupção. Seria um alento e tanto à sociedade sedenta por justiça tal postura. Mas não. Tal partido ter sido mantido no poder, em si, não me preocupa ou incomoda. O que me preocupa e decepciona é ver que pouco ou nada foi feito por aquele partido para banir e dar voz aos insatisfeitos com a atrocidade da corrupção que viu-se ocorrer sob a égide daquele Governo Federal vigente, de base popular sabida. Um governo de base popular deveria ter mais força para honrar seu povo, inclusive, rompendo com seus partidários que caíssem em atos ilícitos. Mas não foi o que vimos. Isso gerou mais ainda insatisfação e permitiu espaços para ódios...

Sim, vimos, como dito, reforço aos mecanismos legais para investigação de crimes do Estado nos últimos anos - passando pela PF, MPF e PGU mais efetivos. Isso foi um enorme ganho! Decerto, daí em diante, os erros do partido mandante perdem um pouco de espaço para os erros do povo. Sim, do povo. Passamos a ver que diferença enorme faz quando temos investigados um governo. Passamos a ver surgirem denúncias de toda espécie, a todos os partidos com suas bandeiras sempre pautadas em idoneidade. Vimos Estados e Governo Federal envolvidos em escândalos e mais escândalos. Mas, o que o povo fez? Aceitou a premissa de que hoje havendo denúncias e, enfim, investigação, seria por existir corrupção somente hoje. Ignorância voluntária? Ledo engano? Qualquer brasileiro em sã consciência sabe do nosso passado sórdido de nunca haver investigações nem muito menos punições aos altos escalões por atos ilícitos. Mas, o que pedem nas ruas? Fim do partido atual no governo para colocar outro. Esquecem, ignoram todo o histórico dos partidos que tomam voz na oposição de maneira oportunista. Esquecem tantas coisas...

Ótimo, mudar sempre é bom quando estamos decepcionados, mas mudar para quem? Engolimos os discursos de idoneidade de nossos partidos de oposição? Pedimos mudança e clamamos apoiando partidos sabidamente envolvidos em escândalos que, pasmem, não são investigados nunca? Que atitude patriótica ou heroica é essa? Conseguem ser barrados processos quaisquer em esferas inferiores todas as investigações de certos partidos. Vemos claramente que nunca tomam vulto denúncias e suas respectivas investigações a certos partidos, mas isso não assusta o povo? Como podemos criar isso dentro de nossos ideais de melhorias? Alimentamos uma cobra que pode, enfim, nos dar mais um bote sórdido e derradeiro, quiçá...

Enfim, consigo entender que o brasileiro gosta não de arrumar a casa. Ele gosta de varrer a poeira para debaixo do tapete, pois, assim, pode deixar sua vassoura de lado, inocentemente, pensando não haver sujeira mais a ser limpa. Dá menos trabalho quando nos convencemos de que problemas reais não existem. Porém, na verdade, pisamos nessa sujeira escondida diariamente e não deixamos que ela desapareça. Somos coniventes! Um mal que não vemos é um mal que inexiste? Aparentemente , alguns pensam uns. E não são poucos.

Eu temo! Temo pelo pior. Temo pelo poder retornando às mãos dos plutocratas de sempre. Temo por partidos e atos ilícitos que nunca são investigados. Temo pela justiça que inocenta pessoas que fazem um crime "X" e não investigam outras supostamente criminosas pelo mesmo crime "X". O que queremos? Não sei. Mas o que querem os poderosos? O poder. E ele, de fato, nunca foi e, aparentemente, nunca será nosso. Aparentemente, somos contra os crimes de pessoas que temos por inimigos, mas não contra os crimes em si. Aos nossos "amigos", o perdão. Aos nossos inimigos, todo o rigor da lei. O que dirão os livros de história no futuro? O que nos dirão nossos descendentes? Temo! Estou atento, entretanto. Quero lembrar bem desses momentos decisivos da história do meu país.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O que eu gostaria?

Ah, o que eu gostaria? Gostaria de muitas coisas. Sou um homem sonhador, brasileiro, nascido no século passado e que, por ora, atingiu seu degrau dos trinta anos de idade. Penso e sonho, mas isso tem sido um problema nos nossos dias. Talvez sempre tenha sido assim. Acho que a tendência é que todas as gerações tenham acreditado que suas épocas eram sempre as piores de todos os tempos. Não tenho a pretensão derrotista de me achar no pior momento da história, mas nem por isso sou otimista a ponto de sorrir gratuitamente a tudo e a todos.

Sou brasileiro, como disse. Nasci numa época de transição. Acabava um regime assassino que tantas pessoas matou em ditadura sórdida e iniciavam novo período onde, em teoria, o povo teria mais acesso aos cargos políticos - seja votando ou, até mesmo, montando seus partidos e se candidatando a algo. Pronto! Eram ventos promissores os que recebi enquanto nascituro. Elegeram-se presidentes, um após outro. Um deles caiu, já de início. Escândalos? Ah, sim... Sempre houve tantos. Vários! Apenas um caiu, decerto. Acho que nunca saberemos os reais motivos de apenas um ter caído, mas o fato histórico é esse. Mas ele reergueu-se. Tomou cargos para si novamente no processo democrático. Aparentemente ele tendo sido um presidente deposto, fracassado, não levou seus possíveis eleitores a mudar de opinião. Concretizaram seus votos nele novamente e novamente Brasília passou a ter aquele ex-presidente deposto desfilando pelos seus corredores.

Ele caiu. Veio outro. Trouxe uma moeda nova e seu topete famoso ao público, à nação brasileira. A moeda Real trazia uma realidade nova. E trouxe. Veio outro presidente em seguida. Assumiu para si  os louros da moeda de seu antecessor. Conseguiu manter-se no poder aprovando a proposta de reeleição. Entregou empresas nacionais ao mercado externo. Aparentemente, aos olhos da sua base de apoio, não somos aptos ou competentes o suficiente para manter nossas próprias empresas sob nosso comando. Talvez fosse por saber que nosso povo corrompe as coisas. Melhor seria ter criado investigações ou incentivado leis mais punitivas a corruptos e corruptores, não? Não. Decidiu não investigar nada. Tivemos anos de inércia jurídica como sempre foi. Presos eram os ladrões de galinha, os índios ou sem teto que invadiam territórios tentando ter algo para si... Sabe-se lá quem mais. Mas figurões corruptos? Corruptores? Nada disso. Passamos oito anos e nada... Sabe-se lá por qual motivo. Talvez a esperança de manter mais quatro anos nas mãos do seu partido fizesse com que não fossem levantadas possíveis corrupções naquele governo. Pegaria mal para a credulidade quanto à chapa idônea que se montava para o pleito eleitoral. Eis que o tal pleito veio e um barbudo antigo rival tomou o poder. Retirou o "doce" da boca dos que pensaram que se manteriam com o poder nas mãos. Algo ocorreu... Mais do que o resultado de uma eleição, iniciou um novo tempo em nossa história.

Aquele sucessor iniciou reformas interessantes. Foi eleito pelo clamor dos movimentos sociais, decerto. Mas nunca tomou para si reformas de base, reformas amplas na estrutura hierárquica eu autoperpetuadora que sempre houve. De certa forma, tentando colocar eixos e taxar (como adoramos fazer), o governo daquele homem foi, no máximo, de centro-esquerda. Pronto! E, nesse modelo modesto de mudanças, algumas foram belas, de fato. Muitas pessoas e regiões que nunca foram vistas pelos olhos do poder público passaram a ter algo nas mãos. Programas de inserção em universidades, em cursos técnicos, em projetos de alfabetização, ampliação dos mecanismos de geração de saúde via Sistema Único de Saúde, bolsa família. Muita coisa ocorreu e aquele presidente tomou para si um messianismo que foi levado adiante como nenhum outro recente exemplar do cenário político plutocrata havia sido levado. Em meio a esse poder que teve nas mãos, viu-se surgir a derrocada. Corrupção que sempre existiu, que sempre se manteve e se perpetuava ad eternum foi deixada. Investigações surgiram. Punições também. Mas ninguém veio a público salientar que o partido estaria tomando providências e que o próprio presidente tomaria atitudes. Fingimos, como sempre, que tudo ficaria bem. Mas nunca ficaria. Nunca ficou.

Os setores fortes do mercado, as grandes corporações e a liberdade das instituições jurídicas foram arregaçando as mangas. O mundo passou por uma enorme crise financeira. Na esperança de que nosso milagre seria maior do que se imaginava, não muito foi feito. Não tomaram medidas coercitivas para proteger o Estado e, mais ainda, a economia para que os pobres, sempre maiores vítimas, não sofressem. O tempo passou. O bolso passou a ter menos dinheiro. Dos grandes empresários? Não. Do povo. Mas com o incentivo da mídia, sempre aliada aos poderes conservadores do nosso país, o medo da pobreza voltou a tomar parte nas rodas de conversas. A classe média, sempre amedrontada pelo medo de perder espaço pela ascensão das classes inferiores - e essa ascensão ocorreu - tomou para si novamente discursos de décadas passadas. A plutocracia tomou para si bandeiras de idoneidade, de amor à pátria e a ignorância tomou corpo. Ideais de ódio, à beira do fascismo, preencheram cartazes e discursos. As leis não mais eram amplas e para todos. Traçaram bem as jogadas em um jogo de xadrez em que o país perde, mas os poderosos ganham, sempre. O tido por rei, em questão, precisava cair. Ele era - como todos os presidentes e chefes de Estado - outro peão, pois as grandes corporações são reis e rainhas. Mas não, criaram o culpado, o anti-herói e o inimigo do Estado. Fecharam os olhos para o fato de corrupção ter de ser investigada desde os mais antigos períodos que conseguíssemos para que pudéssemos punir de forma exemplar todos, todos, todos... Mas não. 

Não era interessante consertar o país e arrumar os alicerces da corrupção arraigada em nosso Estado. O interessante era destituir um partido, uma classe que se sentia com poder agora e retornar ao modelo antigo de poder pautado em manutenção de privilégios aos mais abastados e, com sorte, torcer para um dia esses privilégios serem espalhados caso a meritocracia falaciosa fosse utilizada pelas classes majoritárias, pobres. Os culpados sempre deveriam ser investigados e punidos. Fossem tidos por "de direita", ou "de esquerda". Afinal, bandido não tem lado, tem culpa. Pronto! Mas não. O povo foi convencido a fechar os olhos para tantas barbáries suspeitas e até mesmo confirmadas que nunca foram investigadas, pois não eram dos coligados ao partido que recebia por ora o ódio. Sim, dependia da atenção do ódio as ações da mídia e, logo, do povo - comandado pelos clamores ditados. 

E fez-se assim um país imaginário, onde o povo mantém voluntariamente os privilégios dos que dizem que vãos os proteger, mas estão saqueando como todos os culpados da vez fazem e fizeram. O povo, sem agir com lógica e até mesmo sem agir com idoneidade, aplaude ações tendenciosas e parciais. Com isso, a justiça segue cega com uma balança tendenciosa como o próprio povo passou a ser. 

Eis a questão. É hora de mudar tudo para que tudo seja mantido como sempre foi. A plutocracia deve manter-se no poder - o povo aceitou isso! E o mesmo povo que achava ter conseguido algo de poder com a limitada evolução recente aos povos dos degraus mais baixos da sociedade é o que assiste televisão babando de alegria com as novas peças que se movem no tabuleiro. Perdendo apenas peões, eis que as regras mudam e o cheque-mate é dado com o rei mantido protegido por rainhas, cavalos, bispos... Somos um povo habituado a ver seus peões morrendo enquanto os reis abanam lenços brancos em despedida falsamente comovida. Pronto. Todos pela pátria, e a pátria pelos poderosos - sempre.