Carta a Deus - de número I
Há algo a temer, Deus? Perdão! Não tenho fé suficiente para suprimir meus medos. O que aconteceu em 17 de abril de 2016 no meu país, Brasil, mais especificamente em Brasília - com respingos em todo nosso território nacional, foi desesperador. Não? Para mim foi! Entendo que o Senhor queira de nós coragem e força.. Até fé! De fato, somos uma espécie ignorante, egoísta e que em pleno século em que estamos ainda usamos religião mais para arregimentar dinheiro e status que para adquirir melhor caráter. Merecemos o que foi visto naquele domingo... Temos que superar mais esse momento histórico da nação. Mais esse humano da história humana, a bem dizer.
Mas, Deus, convenhamos: deixar tantos canalhas usarem seu nome para ganhar algum aplauso ou alguma comoção junto aos "cidadãos de bem" ou sei lá o que mais pretendiam? Tantos esses que nada fazem ou fizeram pela ampla correção de nossos males? Esses que estão (e vão) deixando um réu, sonegador e, não apenas isso, alguém que mentiu à justiça, alguém que vive ainda como Presidente da Câmara por negociatas e conchavos, alguém que prova a todos os olhos (estrangeiros ou não) que somos uma "Republiqueta de mer**" que permite gente enriquecer às custas de religião e criar "feudos"? Deixam esse cidadão, que de fato também é filho Teu -eu sei! - iniciar as votações daquele dia 17 pedindo Sua "benção"? Acho demais. Erro meu e intolerância minha, sim. Mas estou meio cansado de hipócritas. Perdão!
Acho demais, Deus, essa bancada dita religiosa, que apregoa a si o título de "bancada evangélica" (qual Evangelho leem?) tomar discursos lado a lado de gente que eleva a voz em prol de ditadores e defensores desse regime violento... Lado a lado de pessoas que elevam vozes, punhos e dão seu voto em crédito a grupos que apoiam o atual presidente da Câmara dos Deputados que é denunciado por enriquecer-se usando "jesus" como pretexto - até dando a Ele um nome de empresa. Ah...! Colocar Deus ou quem quer que seja nesse quesito, nesse política, prefiro acreditar que há o céu para esses então e, entretanto, que há algo superior, melhor, às pessoas que de fato sejam lutadoras no bem! Pessoas estas que tenham os argumentos do Evangelho de Jesus sim como norteamento de ações e não como vemos: sendo usado por moeda de troca a depender dos olhares comovidos ou não da platéia. Deus, bem, como Jesus disse, está (em resumo) na defesa da coletividade, do repeito aos diferentes e do perdão às ofensas tudo quanto devemos nos prender enquanto cristãos. Por isso, pelos ensinamentos de Jesus: temos que perdoar, correto? Indulgência, benevolência... Sim!
Temos, todavia, que entender que ainda somos passíveis de ter de tolerar um ex-militar elogiando um torturador em plena casa do povo brasileiro e ainda seguindo como ícone dos homens de bem da nação. Ainda somos falhos a ponto de ter que tolerar gente que cria empresas de fachada contendo o nome de "jesus" virando baluarte da ética e da defesa das famílias, de um governo idôneo e plural. Ainda merecemos ver gente que mal sabe falar a palavra impeachment crucificando com tons de superioridade e elitismo um ex-presidente desse país que não tinha curso superior e, de fato, chegou ao cargo máximo da nação (ainda) presidencialista.
Disseminar o ódio, a hipocrisia, a maledicência, as condenações prévias, nem são lá tanto pecado assim, pelo que entendo, estou certo? Pode ser só meus olhos enevoados por angústia, Senhor. Perdão. Mas, aos olhos distraídos, vendo nossa Bancada Religiosa, dita "Bancada Evangélica" não fazer nada contra o Presidente daquela Casa (pelo contrário: vê-los aplaudir e aplaudir inclusive um defensor de torturadores de humanos)... Vendo não ser feito nada contra discursos de ódio e intolerância. Vendo gente defendendo e aplaudindo torturadores (insisto nisso) de regimes anteriores, (mas recentes e vívidos ainda) nos serve para quê? Qual o ensinamento por trás disso? Confesso que apenas me serve para dar náuseas. Rememoro Fernando Pessoa e digo: "(...) tenho vontade de vomitar - e de vomitar a mim... Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o". E deixo a questão ainda rememorando Pessoa: "(...) Santo Deus, que entroncamento esta vida!". A cada esquina, a cada dia, cruzaremos com mais náusea, náusea, náusea...Até quando?
Bancada de ruralistas? Não vou generalizar, mas gente que têm visto seus latifúndios infiltrando centímetro a centímetro nossa terra com agrotóxicos, pensando apenas nos lucros da produção? Tentando vender produtos "vegetais" aceitos legalmente sem o aviso de serem "transgênicos" ao povo? E de bom grado? Qual a ética nisso? Gente que está acabando com nossas nascentes, com nosso aquífero Guarani, p.ex., enquanto ganha, ganha e ganha seu dinheiro com mãos sujas e infiltradas em agrotóxicos? Ganham. Ganham muito. Não enriquecem (apenas - pois uma coisa não exclui a outra) na forma de dízimo alheio, mas na forma da exploração da maquinaria que substituiu o lavrador... Por isso também! E os últimos lavradores ainda empregados que recebem emprego nessas imensas áreas devastadas (para plantio de soja, cana ou para virar pasto de gado) servindo ao exército de trabalho naquilo que chamam latifúndio?
De fato, o "Funeral de um Lavrador", de Chico Buarque, ainda é tema padrão para ser cantado. Afinal, a cova em palmos medida é a conta menor que tantos, tantos miseráveis ainda seguem tirando em vida - com o suor de suas roupas e o esmigalhar de seus ossos. Enquanto perdem isso e sua autoestima, não tendo ninguém por eles, enriquecem a iniciativa privada latifundiária - o "agrobusiness". Isso é certo? Não sei. Sou só um pecados a mais do mundo - porém com náuseas por esse mundo. Mas esses exploradores sem limites da terra "trazem o progresso", irão retrucar de pronto os cidadãos de bem que concordam com tal álibi. Eu não quero discutir! Também me enoja. Entenda, Senhor: isso é apenas um desabafo... Longo desabafo, sei. Mas é que há muitas coisas entaladas como calos na garganta causando tantas, tantas náuseas.
Vendo tudo, canto em alta voz a canção de Radiohead que começa com "A heart that's full up like a landfill (...)" - "Um coração que está cheio como um aterro". Sim! Sinto-me um aterro! Tudo o que vi ontem me enoja e em nada me dá de explicações em esperanças! Os representantes do povo? Enojam-me. Os discursos em defesa do povo? Enojam-me! As vozes contra corrupção e pela idoneidade? Enojam-me. Minha imagem de meu país se contorce dentro de mim a ponto de me querer fazer vomitar. Por isso, desliguei a televisão. Já não aguentava mais ver todo aquele circo de ratos, patos etc - patrocinados, com ódio nos olhos, sangue na saliva como cães prontos a morder! Afinal, não se podendo mais patrocinar campanhas, o poder tinha que ser tomado para o grupo que vem perdendo há anos eleições (apesar dos tantos patrocínios) de alguma forma, não? Custasse quanto fosse: a hora era ali! Fez-se pato, fizeram-se bonecos infláveis, tomaram às mãos vuvuzelas. Lícito tudo isso! Mas limitado demais, aos meus olhos de pecados nauseado. De fato, a guerra oficialmente não acabou, porém, a derrota ética, moral, religiosa (inclusive) é muito maior que um resultado de processo de votação qualquer para colocar ou depor qualquer governo que fosse.
A história há de nos julgar? Quem sabe? Espero mesmo que o Senhor esteja atento. E julgue! Há erros para todos os lados para condenações aos infernos que haja. Não somos mais como no trecho de Guimarães Rosa onde ele dizia do diabo na rua, em meio ao redemoinho. O "diabo" (não considero que ele exista como figura, mas dentro das pessoas, como coisa ruim) está por todos os lados, em todos os cargos, em todo canto - aplaudindo, aplaudindo... O Senhor mesmo disse que "nem todo aquele que diz 'Senhor, Senhor' " entrará no Reino dos Céus. Correto? Entendo que o Senhor não quer saber daquele que simplesmente fica por aí clamando "senhor, senhor...", mas quer saber de gente que age pelo bem, vencendo os males, o "diabo" interno do ser humano e da nação. Quer saber de gente que age pelo amor, pelos afetos, pela tolerância, pelo fim das desigualdades, pelo fim das torturas e ditaduras. Que age pelo fim do poder dos poderes (do dinheiro, eu digo) sobre as ações humanas e seus argumentos enviesados que compram e convencem. Entendi errado? Pode ser que sim. Sou um tolo. Sou pecador sofrendo por náuseas. Perdão!
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Carta a Deus - de número II
Ontem, Deus, foi o primeiro domingo (pelo que me lembro) em que o brasileiro esteve mais atento à política que ao futebol ou aos tradicionais programas da sua televisão dominical. Isso pode ser um avanço? Estamos ficando mais atentos? Não sei... Não tenho tantas esperanças ainda. Mas talvez seja uma forma de o Senhor nos indicar algo... Também foi uma das primeiras vezes em que o povo viu seus eleitos pelo voto "trabalhando" (atuando, achacando - ou seja lá como chamar aquilo) em pleno final de semana. Coisa rara - no que diz respeito ao trabalho deles! E foi também num domingo, apesar de tantas atrocidades que vimos (independente do resultado, pois ratos há em todo canto naquele cenário) que o brasileiro teve contato com aquilo que ele elege e viu que Poderes não são somente Executivo. Há o Legislativo... Há também, inclusive, o Judiciário. Ah... e há a mídia. Mas os dois últimos, apesar de tudo, não os elegemos.
Ao brasileiro comum, ontem foi o dia em que lhe apresentaram seus representantes eleitos na Casa do Povo! Ontem, o brasileiro comum teve acesso ao que é essa parte do poder Legislativo! Viu toda a podridão que ele (enquanto povo, enquanto eleitor) elege - mas que depois culpa apenas quem está lá, bem lá em cima e toma referência no Poder Executivo: o(a) Presidente(a). Sempre gostamos de "pegar um para Cristo". Não? Somos muito semelhantes aos nossos ancestrais, Senhor.
Podemos trazer algo disso como aprendizado, Senhor? O brasileiro ter deixado de lado futebol para acompanhar política? Ou o brasileiro ter tido acesso ao conceito de Poder Legislativo, coisas que raramente se debatia por aqui? Ou talvez ter podido entender das consequências e atrocidades que surgem quando se elegem humanos de más intenções e caráter para tais cargos de tamanho poder - inclusive o de sonhar com retirar um(a) presidente(a)? Será então que, sabendo agora dos poderes do Poder Legislativo, vamos cobrar leis que fomentem melhoras amplas, coletivas, combatendo corrupção, combatendo irregularidades que minam nossa saúde e educação públicas de má qualidade há anos? Ou será que vamos achar que Poder Legislativo apenas deve ser "usado" para retirar quem quer que seja?
Ah, Senhor, sei que não merecemos muito crédito em tantas coisas, menos ainda na nossa capacidade de agir como cristãos. Enriquecemos tantos falsos-profetas com dízimos e etc. Aplaudimos tantos messias que em nada têm a ver com tudo quanto foi deixado como em sua Bíblia - e em textos de outros homens de bem que trazem em si e em seus discursos uma religião. Tomamos a preço de deuses os ganhos do capital sonhados na espera das "vitórias" ditadas como se fossem dadas pelo Senhor. Enriquecer hoje é mais importante ainda que agir de forma correta. E isso hoje em dia dá muito mais do que 30 moedas como no caso de Judas...
Então, temos mesmo que sofrer, mas que, desse sofrimento causador de náuseas, surja algo bom enfim. Ver sempre triunfando a catástrofe e o poder nas mãos de gente que em nada carrega consigo os ideais de fraternidade, de bem comum, ou da indulgência ou da benevolência etc dói, cansa e, sim, faz querer vomitar todo o universo após comê-lo aos goles de lágrimas.