quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mudanças?


"Só há pessimismo. Não há esperanças!". Ouço declarações assim desde que nasci! As pessoas de nossa espécie atendem muito facilmente aos ataques de pessimismo. Isso ocorre também aos ataques de outros sentimentos ruins como ódio, preconceito etc. Somos uma espécie dotada de grande capacidade de adequação às sensações auto-destrutivas e nada progressistas como todas essas.

Há motivos para desanimar? Sim. Sempre houve. Por anos, séculos ou milênios ainda haverá muitos motivos. Somos humanos. Somos dotados de uma infinidade de vícios e falhas. Somos muitos. Tantos quanto nunca havíamos conseguido ser. Ainda além do alto teor numérico de pessoas que temos em nossa espécie em nossos tempos, temos acesso aos atos de tantos (sejam pessoas em específico ou de povos, como um todo) através da internet e, com ela, pela mídia. A distribuição da informação hoje é rápida como um tiro. Sim. 

A questão sobre nossos dias é: rediscutir o pessimismo? Não! É adaptar nossos olhos ao otimismo! É incentivar o bem e que ele, enfim, se perpetue. Uma atitude boa feita hoje, em qualquer lugar, pode tomar os olhos de gente em todo o mundo. Sim, graças ao advento das tecnologias e da internet. Daí, a questão é: o que você procura na mídia? O que você vê pela internet? É fato, nossos jornais (perdão pela palavra, mas não encontro outra melhor) vomitam em nossas casas temas incentivando preconceitos, interpretações enviesadas dos nossos reais problemas - sem falar de um incentivo diário, diuturno, para que desanimemos e para que tenhamos medo, medo, medo. Ódio também, adoram incentivar.

Enquanto nos odiamos, enquanto tenhamos medos de agir, nada mudaremos. Nada ajudaremos. Nenhum progresso poderemos impetrar em nossa realidade. Afinal, ódio e medo servem a quem? À desunião. Desunidos, inimigos uns dos outros, somos fracos enquanto seres, enquanto grupo, enquanto nação, enquanto espécie. Somos presa fácil aos interesses de quem lucra com nossos medos e ódios, nossos preconceitos de desânimos. Como vencer isso? Mudando padrões!

Jesus, Sócrates, Confúcio... Tantos pensadores, religiosos ou não, passaram e deixaram lindas mensagens pela Terra. Perpetuaram suas boas ações e belos discursos? Sim! Por algum motivo, conseguiram ter seus escritos e ideais perpetuados. A arte da escrita, nas mãos de gente com interesse em compartilhar ensinamentos adquiridos, foi o fator motivador daquilo. Hoje, com a internet, não precisamos ser um Jesus ou um Sócrates para ter algo de bom para compartilhar. Podemos compartilhar amor, fraternidade, tolerância e paz. Sim! Em ações ou palavras. A qualquer momento. Em frases ou atitudes. Em escritos ou em vídeos. Estamos prontos? Estamos dispostos? Melhor seria apenas insistirmos em odiar e manter nossos preconceitos? Espero que não. Precisamos mudar. 

Nossos descendentes tem a tão palpável chance de receber um mundo com grande otimismo, promissor para melhorias relevantes serem perpetuadas. Basta de gente com ódios mantendo-se forte nos altos cargos e liderando grupos de domínios quaisquer sobre nós, reles cidadãos comuns em meio a esse mundo onde mandamos pouco, mas podemos tanto. Seremos dotados dessa capacidade de mudar? Tomados por essa responsabilidade para com nossos filhos e netos? Espero que sim. 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sem nome

O excesso de conhecimento deveria ser responsável pelo excesso de responsabilidades automaticamente atribuíveis, não? O mesmo deveria ocorrer para o excesso de riqueza, excesso de qualquer outra coisa... Mas não! O conhecimento não nos tem tornado responsáveis. Ou melhor, a culpa não é do conhecimento, mas de nós. Então, a frase correta seria: nós não temos nos tornado responsáveis com o conhecimento.

obra de Eduardo Marinho
Ótimas escolas formam ótimos jovens? Formam jovens preparados para fazerem boas provas para boas instituições de ensino superior! Não? Sim! Passamos por pelo menos 12 anos de escola, da pré-escola ao ensino médio completo, para estarmos aptos a fazer uma prova de ritual de passagem. Ritual esse para entrar em uma universidade e dizer-se no ensino superior. Superior? Em qual sentido? Há tantos formados em ensino assim que em nada são superiores a ninguém. Afinal, ninguém, a bem dizer, é superior a ninguém! Então, na minha forma de ver, ensino "superior" é uma farsa!

Uma vez que eu consegui atingir degraus dessa escalada da denominada "meritocracia", paro e penso: qual mérito eu tenho? Dirão: "você se formou. Teve boas notas. Hoje tem sua profissão!". Então, por essa lógica, eu estou de "parabéns", não? Não! Nunca passei fome, sede, frio. Nunca tive necessidade de trabalhar para ajudar no meu próprio sustento, ou de meus familiares ou em outras circunstâncias. Tive a sorte de poder ter privilégios desde que nasci. Daí, fui bem alimentado, tive acesso a cultura, a livros, ao conhecimento. Depois disso tudo, fui indo de ano em ano na escola, formando em cada grau (ou degrau) da ascensão escolar e hoje sou formado pelo ensino superior sonhado por tantos. Que mérito eu tenho? Nenhum! Era obrigação minha ter algo se essa fosse minha opção de vida! Meritocracia? Falácia.

Quem tem méritos? Méritos tem o pobre, o miserável, o exemplar de qualquer parte menos favorecida dentro dos conceitos sociais que temos. O pobre que ano após ano vive uma vida de exploração, trabalhando duro, em profissões pouco valorizadas, humilhado - não raro - diariamente, obrigado a pegar condução esgueirando-se dentro de ônibus lotados de gente infeliz que vem ou vai para seus trabalhos. Sem condições de se dedicar a estudos, ao ganho de conhecimentos. Sem condições de ter acesso a boas escolas, pois as boas escolas são caras, são pagas. Sem condições nem de adoecer, afinal, o direito de adoecer é uma condenação aos corpos cansados desses cidadãos. Ficam em filas enormes; esperam atendimentos que muitas vezes se dão por profissionais que nem gostam de estar atendendo pessoas "como eles". Sem condições de sonhar com melhorias, afinal, as classes dominantes não se regozijam com estratégias de redução das desigualdades! Querem seus privilégios mantidos mas não entendem a necessidade (e responsabilidade) de expandir privilégios para os que não são dotados de nenhum! Como são as classes dominantes que dominam tudo - obviamente - incluindo a política, nenhuma esperança de melhorias sociais é aos miseráveis desprivilegiados como direito, afinal: os humildes sabem que não deixarão estratégias pelo bem comum irem adiante... 

Méritos tem o negro que nasce sabendo-se descendente de um povo que foi maltratado, humilhado, assassinado, destruído, usurpado, esquecido e que, ainda assim, insiste diariamente em lutar com dignidade pelos seus méritos! Mérito há nisso! E negro esse que ainda hoje é obrigado a conviver com pessoas que acham que dizer sobre os danos sociais que a escravidão ainda repassa aos nossos dias é balela. Pessoas que insistem em fingir que todos têm as mesmas chances de ascender nos degraus da "amada" meritocracia. Falácia quase que cômica - para não ser trágica. Méritos tem o pobre que ano após ano perde suas casas e sua história com enchentes, por exemplo. Que dia após dia perde seus filhos, amigos e outros entes queridos pela violência gratuita e comum do Estado e de quaisquer milícias nas periferias - mas nem mesmo tem o direito de ter sua segurança virando parte do clamor social em defesa deles. Esses sim têm méritos! Os privilegiados têm somente privilégios. Méritos? Quais?  

Nascer com boa saúde, com casa, comida, roupa lavada, com acesso às boas escolas e à cultura, ao conhecimento e, ao final de tudo, dizer-se "bem sucedido" não é mérito algum para ninguém! É consequência. É sim um privilégio mantido que, através da inércia que se aplica aos corpos e às coisas, tende a manter tudo no mesmo estado. E privilégios mantém-se! Quem ergue, ergueu e erguerá tudo quanto temos são os pobres. Desde os tempos mais antigos até nossos dias! Sempre foi e é assim. Desde a rua asfaltada, ao poste colocado, ao alimento colhido e vendido, à rua varrida: todos esses atos comuns que nem valorizamos são feitos por pobres que, em nossos discursos, deixamos esquecidos e não os valorizamos em nada! Quem costura e forma nossas roupas? Um pobre em alguma empresa. Quem constrói nossos carros? Um pobre em alguma empresa. Quem coleta nosso lixo? Um pobre em alguma empresa. Quem valoriza cada um deles? Nem o Estado. Nem as empresas. Nem nós! Mal pagos, mal valorizados, mal vistos - inclusive!, os pobres escondem-se nas periferias, afinal, não há espaço para eles em outros locais. O mercado imobiliário cerceia, com preços, classes de migrarem de bairros! Um apartheid imobiliário, quase.

As ruas são formadas (e repletas!) por pobres, desde os miseráveis aos algo menos desvalidos - quase de classe média. Esbarram-se uns nos outros pelas calçadas e dentro dos meios de condução públicos. Os ricos e os miseráveis com alguns privilégios a mais (chamados de "classe média") andam em seus carros, fechados dentro dos vidros que os separam e isolam do mundo. Alheios ao real! Sim! Os donos do mundo, os milionários e bilionários, nem mesmo andam pelas ruas. Voam! Passam de helicópteros da casa para seus prédios-escritórios! Nem sabem o cheiro do povo ou das ruas! Não se misturam. E são esses últimos, financiando através de suas empresas candidatos nas eleições, os que, de fato, governam e comandam. Os que, de fato, pesam nas decisões de ordem pública! Afinal, sim: políticas públicas são tomadas sob aval de oligarcas. A plutocracia manda, mandou e mandará - será que para sempre?

No mais, nós, comuns, ficamos inertes nessa busca falaciosa e incessante por "méritos". Competindo uns com os outros. Aceitando a premissa publicitária que nos vendem de que, para sermos algo na vida, temos de ter mais que os outros em nosso entorno têm. Nos convencemos que somos melhores se temos privilégios e mais coisas para ostentar! Todos os concidadãos se nos tornam rivais nessa lógica que nos implantam! Rivalizando, somos inimigos. Sendo inimigos, somos desunidos. Desunidos, somos (mais facilmente ainda) presos pelos tentáculos da publicidade do mundo falso que nos vomitam diariamente incentivando a ter, ter, ter..! Não nos vale de nada sermos melhores pessoas, melhores filhos, pais, irmãos, profissionais. Bom é quem ganha mais, ostenta mais, quem pode mais! Amor, fraternidade, responsabilidade com o entorno? Isso é coisa para outro momento... Nunca é foco sermos melhores, mais fraternos, dotados de mais amor! Cobram de nós sermos mais ricos, bem sucedidos e, obviamente, bem vestidos e donos de posses que possam ser ostentadas. Nada mais! E isso convence a maioria, infelizmente! Todos nós, embebidos num caldo falacioso de falsas-verdades, num mundo de consumo onde consumimos o mundo e a nós mesmos para sustentá-lo - sustentando com nossos atos os privilégios de quem inicia toda essa lógica mas em nada se preocupa conosco. Somos todos parte de uma maioria que, no nosso país, é cristã, mas que, aparentemente, nem mesmo conhece a história e ensinamentos de Cristo, a bem dizer, vendo nossos atos e culpas.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier